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O ACASO




Confortavelmente sentado num sofá, ao lado de uma mulher jovem, Rogério tem no colo uma criança entre quatro ou cinco anos de idade. Por trás da cadeira, um rapaz contempla a cena, risonho e feliz.
Rogério é um cavalheiro de sessenta e cinco anos de idade, aproximadamente. Veste calça cinza, de gabardini, camisa de listas vermelhas e brancas, em popeline e um colete da mesma cor e tecido da calça, sapatos marrons e meias brancas completam a indumentária.
Os cabelos rareando deixa-nos antever um princípio de calvície, na cabeleira cor de neve. Usa óculos, preso por uma corrente dourada e ri divertido, certamente, por um dito espirituoso do netinho.
É viúvo e a jovem ao lado é sua filha Clarice, casada com o rapaz que contempla o quadro – Sérgio – um escritor bem sucedido apesar da sua juventude e o neto, no seu colo, é Henrique, seu neto, a quem adora.
Filho único, nasceu numa cidade do interior da Paraíba, mas estudou em São Paulo, onde passou a residir depois de casado. A esposa, Estela, natural da Paulicéia, filha de imigrantes italianos, estava na mesma Universidade. A amizade que os uniu, transformou-se no amor que os levou ao casamento.
Do matrimônio nasceu Clarice, a filha que o presenteou, no inverno da vida, com Henrique, o neto que o encanta e diverte.
Seus pais, bem velhinhos, ainda residentes na terra natal, ressentem-se da ausência do filho, que, para compensá-los, visita-os duas ou três vezes no ano, e,  pelo menos  numa dessas viagens faz-se acompanhar pela filho e o neto.
No seu semblante há risos de felicidade, olhando enlevado para a criança no seu colo.
Está aposentado, mas exercia, anteriormente, a profissão de Engenheiro Civil, numa grande empresa. Gostava do seu trabalho e era muito respeitado e querido por  colegas e chefes.
Seus amigos, escrupulosamente escolhidos, tinham mais ou menos a sua idade, igualavam-se cultural e socialmente, mas entre os humildes também contava com pessoas a quem oferecia a sua amizade desinteressada e sinceramente.
Apesar do amor que sente pela filha e sua família, prefere morar sozinho, ter o seu  canto próprio, gozar a sua privacidade.
Somando a indenização ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, acrescido de algumas economias, construiu uma casa longe do burburinho da cidade. Não uma mansão, mas uma casa simples com uma sala, dois quartos, copa, cozinha e uma saleta para ler, escrever, ouvir música, assistir à TV.
Um jardinzinho com petúnias, rosas, violetas, jasmins e margaridas enfeita e embeleza a entrada da casa.
A garagem para o seu Corsa azul, de segunda mão, fica nos fundos do quintal.
D. Marta, espécie de Governanta, copeira, arrumadeira, cozinheira, beirando os cinqüenta anos, tem o seu quartinho junto à copa.
O sol já o encontra de pé, cuidando do seu jardim, livrando-o das ervas daninhas, podando, transplantando, regando e colhendo as flores que enfeitam a sua sala.
Longas caminhadas fazem parte do seu dia-a-dia e a Filatelia é hoje sua grande paixão,dedicando-lhe boa parte do seu tempo de aposentado.
À noite, diverte-se ouvindo música – prefere Nelson Gonçalves, mas também curte Agepê -,  e assistindo na TV os seus programas favoritos, entre eles o Jornal Nacional e as séries apresentadas pela Globo.
Fanático torcedor do Flamengo, assiste a todos os seus jogos e vibrou com Zico no Ministério dos Esportes.
Teve uma vida relativamente boa. Não fosse o desaparecimento prematuro da esposa, morta num estúpido acidente automobilístico, quando visitava uma amiga no interior do Estado e se diria feliz.
A filha tinha dez anos de idade, quando do desastre e preferiu não se casar novamente, cultivando a saudade da esposa com carinho, sem, no entanto, permitir que o seu drama interferisse na vida da filha.
Nos fins de semana  é comum visitar o neto e algumas vezes é  Henrique quem passa um dia ou dois na sua companhia. Rogério sabe fazer-se amado e o neto enche de risos a sua vida de aposentado. Com o neto volta à infância, esquece as dores e as tristezas nas peraltices que juntos praticavam.
Rogério é um homem comum, mas muito especial e enfrenta a vida tal qual se apresenta, sem complicações e muito amor. É um amigo que surgiu ao acaso, das folhas de uma revista, numa noite de solidão e se me apresenta como uma amizade que deve ser preservada e cultivada carinhosamente, com o mesmo amor e desvelo do jardineiro pela sua flor predileta.
                                         Marisa Alverga
MARISA ALVERGA
Enviado por MARISA ALVERGA em 15/08/2006
Código do texto: T217449
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Sobre a autora
MARISA ALVERGA
Guarabira - Paraíba - Brasil
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