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Passageiro

Barulho chato, repetitivo... Acordando de um pequeno sono involuntário, ele percebeu que tinha voltado à realidade. Havia muitas horas que já tinha embarcado naquele trem e provavelmente a sua parada estava próxima. Naquele movimento maluco de pessoas que entram e saem, ficava imaginando quantos já tinham subido ou descido daquele lugar. Era engraçado também ficar olhando para fora, vendo, às vezes, casas perdidas no campo, às vezes, cidades com uma história inteira pra contar ou simplesmente pessoas seguindo a sua rotina de sempre, tudo aquilo passando por seus olhos em alguns segundos.
      Parou o trem, subiram umas dez pessoas, desceram umas treze; ainda não era à sua hora de descer. Já estava ficando insuportável ficar em inérsia tanto tempo dentro de algo que continuava sempre em movimento. Além de irônica essa relação que tinha com o espaço, já tinha esquecido qual era mesmo o nome do lugar que devia parar, tinha perdido a noção do tempo... Espere um pouco: Não é isso um motivo para entrar em desespero? Que sentido faz ir rumo à um lugar que não se conhece? Meu Deus! Já era noite lá fora! Decidiu então esperar a proxima parada para ver onde estava.
       Ouviu novamente aquele barulho de frenagem, olhou para fora tentando identificar o que estava escrito nas placas. Não dava pra ver direito, mas como pode? Por mais que estivesse escuro ele não tinha miopia ou algo do gênero. Desceram umas seis pessoas, entraram umas quatro, o trem começou a andar de novo. Agora ele já não via mais nada fora do trem, tudo era escuro e silencioso lá fora, como se tivesse entrado em um túnel. Uma ansiedade profunda passou a tomar conta de si, coração acelerado, suor frio escorrendo na sua testa... Saiu correndo pelo corredor do trem. Enquanto corria descordenadamente o trem parou denovo e o impacto da parada o jogou no chão. Levantou e olhou a sua volta ainda  tonto, ninguém desceu, ninguém subiu, mesmo assim ele foi até a porta mais próxima e desembarcou, esqueceu as malas.
        Respirava ofegante com os olhos fechados esperando que pudesse se acalmar. Abriu os olhos, nenhuma placa, nenhuma luz artificial, somente a das estrelas e a da lua que brilhava desesperadamente no céu negro. O trilho passava no meio do nada, um gramado encobria o chão e continuava até formar as montanhas na linha curva do horizonte, várias pessoas sentadas no chão riam e falavam uma língua a qual não podia entender. Do seu lado um velhinho de pele escura usava um chapéu velho e tocava pacientemente um violão sem cordas. Ele olhou-o nos olhos, e sorriu.
         Nunca mais trem algum passou por aquele trilho.
Guilherme Lombardi
Enviado por Guilherme Lombardi em 04/06/2005
Reeditado em 10/12/2010
Código do texto: T22117

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Sobre o autor
Guilherme Lombardi
Curitiba - Paraná - Brasil, 33 anos
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Guilherme Lombardi