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O Velho Pai

Parado em frente a janela de sua Seu rancho, o Velho observa o crepúsculo, enquanto saboreia uma caneca fumegante de café. Lá fora, o sol começa a ganhar intensidade afugentando a brisa que acompanhou a madrugada. A luminosidade resplandece no grande lago. Já as nuvens, mais parecem algodão-doce passeando por um céu absolutamente azul. As árvores se agitam timidamente, resquícios da brisa retirante, como que rendendo mesuras ao astro-rei. O Velho, claro, perdeu as contas de quantas alvoradas já vislumbrou. Mesmo assim, não deixa de se emocionar com o nascer de mais um dia. Um lindo dia. Não importaria se, no céu, despontassem nuvens negras, bradando trovoadas e fazendo cair uma chuva torrencial. Seria mais uma demonstração perfeita e funcional dos ciclos da natureza. O Velho está só e, como em todo amanhecer, Seus primeiros pensamentos se voltam para os filhos. Eles estão longe, absortos em suas histórias, seus objetivos, suas convicções. Deram o seu grito de liberdade (sem saber que estavam se emaranhando ainda mais nas ilusões da vida) e partiram para concretizar os seus sonhos. São capazes de passar dias sem dedicar um segundo de seus pensamentos para a figura do Velho e solitário Pai. Ele, ao contrário, não deixa de pensar nos rebentos que, mesmo em meio a multidões, se sentem sozinhos e desamparados.
O Velho vai até a varanda e senta em Sua cadeira de balançar, enquanto ajeita o fumo no interior de seu cachimbo. Ele se põe a fumar e a brincar com a fumaça, ao mesmo tempo em que alisa a sua barba.
Os anéis de fumaça soltos no ar parecem lhe trazer reminiscências de muito tempo. O Velho lembra de cada segundo de sua existência, de coisas tão remotas, que dão a impressão de que o que vivenciou era como filmes do cinema mudo. Outras, mais remotas ainda, surgem na memória como se fossem antigas fotos em preto e branco. O velho sente saudades. Dos filhos, claro. Por vezes, ao olhar através da vidraça da vida pensa que poderia ter feito diferente, que pode ter errado em alguma parte de sua Obra e que se houvesse se detido em um ou outro detalhe, hoje teria os filhos mais próximos. Um pensamento fugaz que Ele logo trata de afugentar. O que está feito não deve ser mudado. Ele lhes deu o pleno direito de escolherem os seus caminhos.
As horas passam rapidamente, enquanto o Velho divaga sobre a existência e não percebe quando é tomado pelo sono. Mesmo Ele, do alto de sua sabedoria, preserva a Sua capacidade de sonhar. E, em Seus sonhos, não contém a felicidade de recepcionar um a um dos Seus filhos, batendo a porta do Velho Pai e fazendo de sua casa o seu lar, o lar que é de muitas moradas.
Quisera Ele que esse sonho se tornasse real e que Seus filhos lembrassem que tudo o que o Velho Pai fez foi em nome do Amor. Que a eles dedicou toda a Sua Obra. E que eles também tomassem esse exemplo e não tivessem medo de amar ou deixassem de não querer amar. O Velho Pai sorri na cadeira de balanço e anseia pelo momento em que abraçará cada um de Seus filhos, revendo a imagem e semelhança que há milhares de Eras ele criou.
Márcio Brasil
Enviado por Márcio Brasil em 12/09/2006
Código do texto: T238275

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Sobre o autor
Márcio Brasil
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil
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