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O Meu Suave Devaneio!

Ás vezes o voo da nossa vida é um rastejar suave pelas terras remotas do infinito, por vezes sem saber alguém nos empurra para um crepúsculo que não faz sentido, onde a solidão sufoca e a saudade aperta. Aí damos valor às pequenas grandes coisas, ao mar que é tão imenso mas que não chega a todos, ao céu que apesar de azul parece mais belo junto da praia, a areia que dá mais luz e alimenta a alma de esperança. Aí e talvez só aí percebamos que a vida é assim cheia de pequenas dádivas, que nos abraçam e nos beijam em cada amanhecer, momentos que despertam em nós a certeza que certas coisas valem a pena e são efectivamente especiais.
Ás vezes tudo aquilo que precisamos é de acreditar em algo, algo simples mas que nos dê consolo, o abraço de um amigo, a lambidela de um cão, um copo de água que alguém nos faz chegar à mão, ou uma lágrima que alguém enxugou. E tudo se passa assim, com essa simplicidade estonteante, com a desvalorização constante de todos esses imensos nadas que fazem tudo mexer à nossa volta.
Por vezes acordamos a meio da noite e não conseguimos dormir, aí pensamos no nosso dia, nos nossos sonhos em tudo aquilo que desejamos e não conseguimos ter, nas desesperanças da nossa existência plácida e morna. Por vezes apetece-nos criar uma reciclagem e colocar lá tudo aquilo que de alguma forma nos cria descompensações, frustrações, ou que suga a nossa energia. Nesses momentos transformamos nadas em tudo. Mas porque acordamos? Talvez porque tenhamos perdido a capacidade de sonhar e aproveitemos esses doces momentos, outrora de devaneio, para racionalizar a nossa vida, para de alguma forma por cobro às ilusões da mente, às quimeras de uma alma que nunca parara de idealizar. Engraçado! A capacidade humana de se entregar ao feitiço da fé...E ter fé é tão simplesmente acreditar em algo, em alguma coisa, em alguém, na vida, no dia, na noite...
Hoje vou contar-vos a história de uma mulher que estava perdida na sua própria fé...porque tinha um desejo que de tão simples parecia ter-se tornado incompreensível. Não desejava o impossível, nem tão pouco o inalcançável, queria apenas o entendimento e a serenidade. A sensibilidade que passa pelas palavras de consolo, que atravessa a distância e nos estende a mão, o sentimento que aquece o peito com a certeza de que alguém se preocupa connosco, não era o Amor, nem tão pouco a Paixão. Isto porque o Amor consome os corações, deseja a presença constante, o contacto corporal, já a Paixão envolve o desejo, a loucura, a necessidade, a exaustão. Aquilo que ela aspirava era algo bem mais morno, mas bem mais eterno, bem mais suave, e muito mais essencial a Amizade.
Na sua verdadeira essência este sentimento comporta a magnitude do espaço infinito, a ternura de uma estrela cadente, a doçura de um pôr-do-sol, a magia de um amanhecer. E o amigo seria aquele que calmamente permitiria o silêncio instalar-se num momento, porque tinha noção de que a presença seria o suficiente para apaziguar a inquietude. Da mesma forma o amigo seria aquele que entendendo a insatisfação e a dor, tomaria a iniciativa de nos surpreender com um raio de luz. Que viria sob a forma de palavras, de gestos, de atitudes, mas que voaria pela imensidão do infinito até às constelações da aurora celestial. E assim num recanto qualquer, deste universo tão abrangente e imenso existiria uma forma de mostrar ao Amigo que alguém no outro sideral espaço intelectual estaria ao alcance da solidão para a roubar para si e por instantes de absoluta ilusão oferecer um pedaço de chão, uma imagem que cedida teria a real dimensão de uma flor oferecida num dia frio de Inverno.
E assim seguia a vida daquela mulher...Entre tombos e levantos algo seria impossível de negar ela estava a construir um patrimônio que a duras penas teria de suportar, mas que a tornava cada vez mais uma borboleta com necessidade de voar. E esse tal vôo que ela tanto desejava, não sabia onde buscar, onde suportar o peso das asas que teimavam em fraquejar, apenas sabia que no fundo ela não podia deixar o tempo passar sobre ela e simplesmente arrastar as cores do seu coração pela lama ou pelo chão, porque decerto existiria nalguma recôndito lugar um espaço, um ombro amigo, que suplantaria a dor e a nostalgia de perceber que mais uma vez o sonho falhou.
E de flor em flor, nas mais sensíveis que nascem com a protecção da Primavera, ou nas mais fortes que suplantam a força da Vida no seu caule ela ia flutuando, amparando-se nos cheiros doces e suaves, nos perfumes e nas essências da alma, no imenso que um dia gostaria de alcançar. E apesar de voar sózinha, acordar sózinha e de talvez sózinha ter de resistir aos precauços de uma batalha inconscientemente ela sabia que era sózinha que tinha de ultrapassar mais esta aprendizagem.
E aquela senhora com cara de menina, da qual uns fugiam e outros simplesmente sorriam sabia que um dia, talvez, apenas por um dia, o céu tomaria as cores das suas asas e a transportariam para a dimensão suave da sua amada realidade. E aí talvez nesse dia, os anjos sorriam, e com as flautas e os violinos abraçados às suas doces auréolas lhe digam baixinho, com a voz de uma suspiro, que o sonho é possível se um dia olharmos um astro que brilhe sozinho, mas ainda assim nesse vazio seja capaz de dizer que um dia eu estarei novamente aí para te dizer que jamais ficarás sozinha, minha querida
Sonya
Enviado por Sonya em 17/09/2006
Reeditado em 30/07/2008
Código do texto: T242399

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Sobre a autora
Sonya
Portugal, 34 anos
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Sonya