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MANIA DE GRANDEZA


                      MANIA DE GRANDEZA

            Depois de quase vinte anos residindo no Rio de Janeiro, ao voltar a Sergipe, em férias, reencontrei um amigo de infância. Perguntou-me as novidades, por meus filhos, etc...
   Cordialmente perguntei-lhe pelos seus, retribuindo, assim, a gentileza...
   Terminado os cumprimentos e a conversa, convidou-me para que fosse passar um final de semana na sua nova casa, na sua chácara – não usando de modéstia –  na Atalaia Nova.
  – Tudo bem: um final de semana, não; mas um dia, sim! – respondi.
   Nos despedimos e deixamos tudo combinado. Me aguardaria no Terminal Hidroviário no domingo seguinte.
   Desde garoto, Manoel Pina tinha mania de grandeza. O pai era funcionário público. Dizia ele que não entendia o porquê do seu coroa não se candidatar a prefeito, em vez de um réles vereador. Mas eu sabia que o Manelão,  pai de Manoel Pina, era o coveiro da cidade.
   Bem, tudo muda; o mundo muda... e, juntamente com o mundo, a tendência são as pessoas mudarem. Como ele me falou cheio de convicções, imaginei que o meu amigo realmente tivesse mudado, acompanhando, assim, as mudanças do mundo; imaginei que ele tivesse deixado de contar vantagens.
 No domingo eu embarquei numa lancha por nome de Santa Luzia. A viagem durou aproximadamente vinte e cinco minutos. Como combinado, lá chegando, estava o meu amigo todo sorridente a me recepcionar. Fiquei feliz, mas, ao deparar-se comigo, ele fez uma encenação a  tal ponto, de me deixar  inibido:
 – Há quanto tempo, Carlos?! Deixe-me lembrar... – contando nas pontas dos dedos – dezenove longos anos! É, meu bom amigo, para mim parece um século! – falou-me.
   Falou com um certo tom de emoção e surpresa que fez  com que as pessoas, que não nos conhecia, imaginassem que realmente fazia dezenove anos que  não nos encontrávamos. Meio sem jeito, tentei dizer-lhe que nos vimos, na última sexta-feira, e que foi naquele dia  que combinamos aquele reencontro – ele fingiu não me ouvir.
Uma senhora, vendo a atitude dele, ficou tão emocionada que sorriu-nos com um ar de carisma e eu fui obrigado a retribuir o sorriso. Só que o meu sorriso foi um sorriso pálido, desconcertado e tímido.
         Saimos do hidroviário e seguimos em direção à sua chácara.
         Bem próximo do hidroviário ele me mostrou um terreno baldio e me falou que o mesmo lhe pertencia e que havia uma grande rede de hotéis interessada em comprá-lo; mas ofereceram uma ninharia, sendo esse o motivo dele ainda não ter vendido o tal terreno – mas ele não percebeu que eu notara uma placa onde lia-se:
         “Propriedade Sob Jurisdição do Ministério da Marinha”.
          Nada falei e só fiquei a observá-lo; queria saber até onde aquele papo iria nos levar.
          Ao passarmos frente a um bar, por nome de Atalaia`s Bar, ouvi alguém, que estava no interior do recinto,  falar:
         – Já vai, heim, doutor?!”
  O meu amigo não deu ouvidos, mas eu, que estava ao seu lado, como que tentando me enganar, me senti feliz. Afinal, por instantes, cheguei a pensar que mesmo mentiroso, ele tivesse mudado de vida, estivesse rico. Posteriormente eu entenderia qual o motivo da saudação, pois logo adiante, ao passarmos em frente a uma bodega, a mulher chamou o marido e eu escutei quando ela falou:
  – Olha lá, Bertoso; ô cara de pau da peste! Está todo posudo por estar com o patrão; aposto que o patrão não sabe que ele é um caloteiro, um pilantra!
   Naquele momento tentei fixar o olhar para ver até onde iria o cinismo do meu guia. Ele não se intimidou e ainda disse:
   – Pois é, Carlos... estou meio desgostoso com as crianças, que só pensam em gastar. Me ajudar para que cresçamos juntos, nem pensar! Não que eu não possa dar-lhes o que desejam, mas, você é um homem de cidade grande, vivido...  deve me entender, não?!
   – O quê?!... claro, claro! – respondi-lhe sem ao menos me ligar na interrogação.
    Assim que chegamos à sua chácara, notei que pela primeira vez ele não havia mentido; um bonito coqueiral, várias mangueiras e cajueiros se faziam presentes.
   – Não é uma maravilha, Carlos?
             – Sem dúvida, Manoel! Estou fascinado com a sua chácara.
           Mas, não tinha concluído o meu raciocínio, sua esposa veio ao nosso encontro com uma criança com menos de dez meses, escanchada na cintura, enquanto dois menores estavam segurando a sua saia encardida e, antes de me cumprimentar, falou:
            – Mané, seu Zenom mandou te avisar prá você tirar uns cocos e preparar o sítio que ele achou um comprador e vai vender toda essa propriedade.
             –Tá, tá!...
             Ele disse aquelas palavras tentando dar por encerrada a prosa com a esposa.
    – Como vai, Edilza? – cumprimentei-a.
    – Vou bem, Carlos...
    Já a conhecia da nossa mocidade, quando estudávamos juntos. A mulher, que era uma loira de pele rosada e de chamar a atenção, estava pálida, faltando alguns dentes e tinha os olhos tristes e rugas faciais que demonstravam mais idade do que realmente possuía.
      –Tem um trio de filhos, heim?! Não brincam em serviço – falei, com o objetivo de quebrar o clima.
       Mas, antes mesmo que eu terminasse de falar, antes mesmo que Edilza me respondesse, Manoel Pina, com ar de superioridade e exibicionismo, falou:
       – Três?! Brincar em serviço?! E eu sou lá de brincar em serviço, homem?! Os outros estão se divertindo no mangue; são no total dez filhos. E digo mais,  homem que tem menos de oito filhos está dormindo no ponto.
       Fiquei meio sem entender, e Edilza, como que em desculpa, me sorriu... um sorriso simpático e tão amarelo qual sua face.
       Passado alguns minutos Manoel Pina começou a me fazer perguntas; e também a falar...
       – Carlos, você se lembra quando nos alistamos no Exército para servir o 28o Batalhão de Caçadores? Olha, meu amigo... se eu tivesse ficado lá,  já seria no mínimo Brigadeiro.
       – Lembro-me. Fomos dispensados do recrutamento por excesso de contingente – continuei – mas se eu tivesse servido, Manoel, só iria tirar o ano do serviço obrigatório.
       – É, mas você não sabe... eu não servi porque não quis! O meu padrinho é um grandola lá dentro – falou baixinho, como se tivesse dizendo algum segredo e ignorando o que acabara de falar – você imagina: ele é super inteligente... Pra se ter uma idéia; entrou como recruta e já é Almirante do Exército.
        Engoli aquela lorota  a seco e dei graças à Deus por seus filhos terem chegado naquele momento. Os garotos chegaram enlameados e sem  caranguejos no cofo.
       – Pai, tá difícil pegar caranguejos; os buracos estão fundos demais – falou Maurício, o filho mais velho do Manoel, que tinha quatorze anos.
        Nada respondeu ao garoto, mas, tentou explicar-me:
        – Eles adoram brincar de gado, aprisionando os bichinhos.
        Àquela altura, eu já estava me sentindo incomodado; me sentindo mal com todas aquelas lorotas e desejando antecipar a minha partida. Mas, como dizer-lhe?
        Nisso, mesmo não desejando, escuto Edilza falar, na surdina, a um dos garotos, que fosse até a bodega do Zé Guerra e trouxesse, fiado, seis ovos e um quilo de farinha de mandioca.
        Depois de almoçarmos um bom omelete, posso dizer, por sorte minha, meu celular tocou; tenho a impressão que tenha sido o destino; alguém no outro lado, após perguntar se o senhor Antônio Alves Santos estava, pediu-me desculpas e desligou.
         – Quem foi, Carlos?
         – O meu patrão que ligou do Rio – fui obrigado a mentir – ele pediu-me para que pegasse o vôo das 15h. Tem algo a ser resolvido com urgência na empresa.
        – Carlos, meu amigo, para que se preocupar com trabalho? Você acha que eu adquiri todos os meus bens, com preocupação? Nada disso! Consegui sim, com inteligência... com criatividade!
        – Eu sei que o homem tem e deve ser criativo, mas preciso ir, Manoel! Noutra oportunidade eu permanecerei mais tempo com vocês.
        –  Não vai me fazer desfeita, vai?!
        – Entenda, amigo...vocês são muito gentis, mas não posso perder o vôo das 15h. Devo estar no escritório às 8h de amanhã.
        Ele ficou pensativo, com o indicador sobre os lábios. Depois de alguns segundos, estalou os dedos e falou:
        – Já sei! Você sairá daqui amanhã às 5h e chegará ao Rio às 7h10min.
        – Mas Manoel, não terá vôo pela manhã antes das 7h. Como eu vou chegar ao Rio antes das 8h?
  – Quanto a isso não se preocupe, Carlos! Vou ligar agora mesmo para a Rede Globo e falar com o meu grande amigo, o Dr. Roberto Marinho, e tenho certeza que ele atenderá o meu pedido e garanto que, logo, logo, ele mandará um jatinho vir te buscar!
        Aquilo foi demais!...
        Tentando me desvencilhar daquele mentiroso, pedi-lhe mil desculpas; agradeci a Edilza pela hospitalidade e, por fim, consegui sair com elegância.
              Cheguei próximo ao Terminal Hidroviário, e daquela vez não peguei uma lancha, e sim, uma canoa por nome de Lília; queria demorar um pouco mais a chegar em Aracaju afim de esquecer as mentiras e manias de grandeza de um amigo. Mas na minha volta a Sergipe, daqui a uns dez ou quinze anos, certamente vou reencontrá-lo. Até lá, quem sabe, ele não venha a ser o filho do Presidente da República?!

   Carlos Alberto de Carvalho(Carlos Carregoza)
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 20/09/2006
Código do texto: T244802
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
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