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O Espartano I - Quem são eles

Um conto sobre os espartanos. Escrevi como teste para o meu romance A Marcha dos Dez Mil: Sangue e Glória.

O Espartano I - Quem São Eles

Parseides observou a planície com olhos de espartano, o que significava ver a guerra com antecipação, assegurar-se de que seu corpo venceria os obstáculo e assegurar de que não seria o sangue grego que avermelharia o chão naquele dia. Coçou o rosto liso e barbeado, passando os dedos da mão esquerda na face direita. Era um hábito de infância que atiçava seu raciocínio. Sua mente divagava sobre cada elemento da planície. A parte pedregosa mais a esquerda impediria o avanço da cavalaria persa, enquanto o rio no fim do terreno faria o exército inimigo se adensar e diminuir o passo. Foi uma verdadeira sorte terem seguido até ali. Sorte... que os deuses nem seus companheiros percebessem que estava usando essa palavra.

O espartano virou-se para os companheiros. Havia colocado todos para se exercitar por algum tempo para que a movimentação do corpo evitasse a má articulação do espírito. Eram todos homens similares a ele, quarenta e sete gregos nascidos e criados em Esparta, protetora da Grécia. O número não era preciso por causa das baixas recentes que o separaram do exército espartano e o fizeram se juntar aos coríntios e beócios. Entretanto, sabia que mesmo que houvesse alguns em quem não confiava ou não gostava, podia garantir que tinha a nata guerreira da Grécia.

Parseides começou a andar entre os homens. Todos tinham cabelos negros e longos, alguns amarrados em tranças. Exercitavam-se nus, sem suas armaduras de hoplitas, o tipo guerreiro que era o ícone da Grécia. Atrás deles, reunidos em um grupo mais afastado, estavam os hilotas, meros servos, longe de serem Iguais, que auxiliavam com o equipamento de cada guerreiro. Havia muito mais deles do que os hoplitas precisavam, prova do quanto essas criaturas eram descartáveis. Enquanto guerreiros valiosos morriam para defender a Grécia dos persas, o máximo que essas víboras faziam eram carregar equipamentos e deixar os espartanos preocupados com uma possível rebelião que poderiam causar em sua cidade natal.

- Parem e levantem-se, espartanos – ordenou Parseides. Voltou seu olhar para o horizonte. Podia notar muito bem a leve coluna de poeira erguendo. Era parte dos persas chegando. Cruzou os braços e tentou imaginar se conseguia estimar o contingente inimigo apenas pelo volume de poeira levantado. – Descansem e comam, espartanos.

Os homens continuaram de pé, respirando pausadamente. Havia se exercitado pouco. Não estavam nem um pouco cansados, mas precisavam recuperar o mínimo de energia que havia perdido. A batalha seria dura.

Um mensageiro do general coríntio aproximou-se a cavalo. Passou pelos hilotas e parou próximo aos espartanos. Nenhum deles abriu caminho para o cavalo. Parseides esperou dentro do grupo, depois caminhou lentamente até o homem, enquanto os outros lhe davam espaço.

- O general Deméclio pergunta por que seus homens ainda não vestiram suas armaduras.

- Pergunte a seu general quando foi a última vez que Parseides filho de Eurípedes lhe questionou sobre como os agricultores coríntios utilizam seus instrumentos de trabalho.

O mensageiro ficou parado algum tempo antes de entender a ironia da resposta. Olhou para os espartanos e de volta para Parseides.

- Os persas estão chegando – disse, sem saber o que mais falar.

- Os espartanos estão esperando – respondeu Parseides.

- Esperando as ordens? – perguntou o mensageiro, olhando o para o horizonte para notar a aproximação persa.

- Esperando para saber quem cavará as covas dos persas.

- Transmito isso ao general Deméclio?

- Sim, afinal não é problema nosso que espécie de lixo vocês deixam no solo de vocês.

O mensageiro por fim entendeu que estava perdendo tempo. Malditos espartanos com sua arrogância guerreira. Deu meia volta e cavalgou até seu general para dizer que se os espartanos já não estavam com suas espadas afiadas, ao menos suas línguas estavam.

- O divertimento acabou. Preparem suas armas, espartanos.

Os hilotas correram com as espadas, lanças e armaduras sem precisarem ser chamados. Parseides nunca falava com eles. Tinha o hábito de falar apenas com seus Iguais. Os homens começaram a colocar as armaduras. Proteção para o peito, para as canelas, para o braço e, por fim, o elmo. Usavam capas vermelhas para esperar a chegada do inimigo, cobrindo seu coração destemido para que os persas não fugissem simplesmente ao ver o fogo de Hefesto que ardia no peito de cada espartano.

Clíon se aproximou de seu líder. Fora o primeiro a se preparar. Seu hilota era o mais rápido em ajudá-lo com tudo o que precisava. Nunca fora necessário mais do que duas palavras para garantir que a armadura e a comida do guerreiro já estivessem prontas.

- Deméclio não gostará das palavras. Ele é muito sensível a isso.

O hilota acabara de entregar o elmo a Parseides. A crista vermelha brilhava no sol da tarde. O líder espartano não o colocou, mas o manteve debaixo do braço enquanto olhava o exército persa já entrando na planície.

- Espero que a sensibilidade dele o mantenha mais atento à batalha. Chame Kalas, quero que ele estime quanto sangue temos para derramar.

Clíon voltou rapidamente com o outro guerreiro. Enquanto O primeiro era um homem alto, com a musculatura adequada ao corpo, o segundo era um homem de estatura média, mas musculoso. Quando os homens se exercitavam cobertos por óleo, as cicatrizes de Kalas brilhavam. Ele tinha um enorme corte no rosto que ainda estava cicatrizando. Fora feito por um Imortal, guerreiro da elite de Xerxes que Kalas queria encontrar de novo.

- Quantos? – perguntou Parseides.

Kalas olhou rapidamente.

- Nenhum Imortal. Uns duzentos cavaleiros, quinhentos fazendeiros, quatrocentos novatos, setecentos guerreiros. Os arqueiros estão mais ao fundo. Não mais do que cem deles.

- Estamos em vantagem – disse Parseides.

Kalas olhou para os coríntios e beócios se arrumando em colunas. Havia cinqüenta cavaleiros entre eles e mais setecentos guerreiros.

- Somos cerca de novecentos gregos lutando – comentou Clíon.

- Ainda acho que isso não é mais do que a história dos Trezentos se repetindo. Esparta tendo que suportar a incapacidade do restante da Grécia.

- Volte a sua posição, Kalas.

Ele deu as costas obediente, sem expressar seus pensamentos sobre o arremedo de exército que os coríntios e beócios levaram para a guerra contra o Grande Rei da Pérsia.

Parseides levantou uma mão e começou a caminhar na direção do restante do exército grego. As linhas já começavam a se formar para a marcha e o enfrentamento. Clíon andou ao lado dele e os espartanos seguiram caminho em silêncio.

- Fique junto a Kalas. Coloque Cleomedes e Vanpalion junto com você. Quando acontecer, faça-os fechar a linha. Todos recuarão um passo e liberaremos a passagem para os beócios seguirem.

Clíon assentiu. Parseides parou a cerca de quarenta metros do restante do contingente e se virou para os espartanos. Com sua lança, apontou para os outros gregos.

- Espartanos, quem são aqueles?

- Gregos como nós, senhor.

- Espartanos, quem são aqueles? – perguntou de novo.

- Guerreiros da Grécia, senhor.

- Espartanos, quem são aqueles?

- Crianças que brincam de guerra a quem devemos proteger, senhor.

Agora apontou a lança para os persas. Não eram apenas persas, mas uma miríade de povos conquistados que agora lutavam por um rei que não amavam. Eram uma vantagem dos gregos, que batalhavam desesperadamente pelas terras que louvavam.

- Espartanos, quem são aqueles? – perguntou, agora gritando mais alto, tão alto que chamou a atenção dos guerreiros coríntios e beócios.

- Bárbaros diferentes de nós, senhor.

- Espartanos, quem são aqueles?

- Nossos inimigos, senhor.

Os outros gregos esperavam pela próxima pergunta, cada um com sua resposta e com vontade de responder a Parseides.

- Espartanos, quem são aqueles?

- Mortos que se esqueceram de cair, senhor!

Parseides virou-se para os persas, caminhou alguns passos e arremessou sua lança na direção do inimigo.

- Gregos, quem são aqueles?

- Mortos que se esqueceram de cair! – gritaram todos os soldados, que haviam se esquecido do medo para bradar.

- Então vamos fazê-lo beijar o solo de nossa terra hoje, pois essa é a maior dignidade que esses bárbaros podem ter!

Parseides andou com seus guerreiros e assumiu a posição que Deméclio havia ordenado anteriormente. As posições haviam sido definidas em discussão. O general coríntio olhou para o líder espartano esperando a reação diante da ordem e só a ratificando quando não viu nenhum traço de descontentamento vindo de Parseides. E foi por isso que os espartanos andaram até se encaixar no meio das linhas. Eles segurariam a investida persa.

Os soldados começaram a marchar, cada um com seu pensamento. Clíon, homem tão alto quanto apaixonado, que sempre tratava bem a todos, inclusive aos hilotas, pensou por alguns momentos nas famílias daqueles bárbaros escravizados e obrigados a lutar por Xerxes, o Grande Rei, aquele que se achava um deus. Pobres homens, que se já não eram muito, agora não passavam de animais que seguravam espadas.

Kalas via inimigos e mais inimigos, sua pele se abrindo diante do corte da espada e o sangue jorrando. Perguntava aos deuses onde estavam os Imortais. Será que não havia nenhum deles ali? De dez mil, não haviam enviado um que fosse para que o espartano tivesse sua vingança? Já não fora um dos Trezentos e agora tinha que amargar essa espera para reencontrar os Imortais.

Cleomedes, o mais novo entre os espartanos, marchava ao lado de Clíon. Contaria com o escudo dele para protegê-lo durante a luta, o que era uma garantia. Aquilo aliviava seu coração enquanto lutava para imitar a coragem de seus Iguais.

Vanpalion seguia sem questionar. Tinha duas coisas em mente. Manter a posição ao lado de Kalas e matar persas. Nunca precisou de nada a mais na vida além de ordens que o colocassem próximo do perigo e dessem uso para os anos de treinamento.
Shaftiel
Enviado por Shaftiel em 27/09/2006
Reeditado em 11/06/2007
Código do texto: T250860

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