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Lata de Ervilha $1,99

LATA DE ERVILHA $1,99

Gastamos 1/3 da nossa vida dormindo e uma boa parte pensando em resgatar o passado que já se foi e, planejando um futuro impossível, dentro dessa lata com meus companheiros todo dia é sempre a máxima - Será que existe vida fora da lata? Como vimos parar aqui dentro? Quem nos pintou de verde? Essas e outras dúvidas rolam em nossas redondas cabeças; até nos amontoamos umas encima das outras para chegar ao topo; descobrimos que não há saída. Reencarnação? Não sei se é a palavra certa, não somos feitos de carne! Até essa conversa atravessada foi motivo para discussões e conflitos partidários.   A verdona, em mais um dia desses de filosofias, que não levam a lugar nenhum, além dessa lata, insistia em dizer que já tinha nascido feijão branco em outra embalagem; outros se admiravam em ser lentilha na vida passada. E preciso bom humor se não a gente enlouquece e fica igual o Musgo; uma ervilha que se cansou dessa vida apertada, ela quem fica espalhando para todo mundo que existem seres de outras latas; dizia pertencer a uma tal seita “Produtos reciclados”.
Teria amanhecido verde, não fosse o sacolejo de balaio na lata, há muito não tivera um terremoto desses; o último foi numa promoção de supermercado. Mistura e esfrega danado no nosso “le petit déjeuner” (caro leitor peço-lhe perdão, mas acredito ser Francês, às vezes não consigo evitar alguns galicismo; substitua o conteúdo das aspas acima por “Café da manhã”) era ervilha rolando por cima umas das outras uma pândega, muitas de nós ficaram em pele, cada uma dando uma idéia tresloucada do que estava por vir; o Musgo gritava - Eu disse! Eu disse! Se cuidem, o céu vai se abrir!
Um bico colossal, semelhante a papagaio, rasgava o nosso verde céu; desesperamos, nunca ocorrera tal fato; ver o teto, sobre nossas cabeças, se abrir diante de nossos verdes olhos. O planeta se levantava e virava de ponta a cabeça, era triste o nosso fim; caiamos no colo de um tapete verde, ele mesmo se apresentou ou melhor era uma senhora, Alface.
 Planeta sem tampa e transparente, saladeira, cheio de gente colorida, um carnaval de legumes: amarelo; vermelho; branco; verde; roxo. Apresentei-me aos novos companheiros: milho; cenoura; beterraba; couve flor, cebola e outros.   De soslaio percebi alguém comentando - Lá na minha terra, bem cedinho na plantação, eu ficava deitado no sabugo de olho na conversa dos bóias-frias; contavam que antes da gente morrer, primeiro vai para o purgatório; chegando lá eles vão fazer uma espécie de entrevista, igual para arranjar emprego, se você for selecionado vai para o céu, se não para o inferno, e para escapar do inferno só com muita sorte.
Pesadelo! Parece sem fim, essa conversa do milho sem pé nem cabeça, depois ainda tinha um tal de arroz com a cara cheia de pó, xifópago de mais dois, um deles dizia que o céu era para poucos; só aos que fogem para os cantos, aguardar o banho da salvação, depois escorrer por um longo caminho, o túnel da passagem, que, enfim nos levara ao paraíso e, talvez se nos for concebida à graça, semear a terra e gerar bons frutos; é preciso ter muita sorte imagine ganhar na loteria mais de cem vezes... Intrometi nessa conversa, para ser mais amigável, e contei-lhes que lá na lata um Funcionário do estado ganhou mais de cem vezes, dizia ele que Deus tinha ajudado. Eu era ateu, e tinha pouca sorte...
- Fiquem todos calmos, eu conheço o dono, ninguém vai pro inferno; ou eu não me chamo “Cassoulet”.
- Deixa de ser metido feijão! Você só está na saladeira porque escorregamos do tridente.
- Não me misturo com Tipo dois; ainda mais grudado desse jeito, dizia ao arroz.

O milho ainda estava ajoelhado quando a ferramenta do demo se aproximou, um monte de comida numa garfada direto para dentro da boca; havia uma cobra cega que gostava de brincar de “João Bobo” com agente, para cima e para baixo para um lado e para o outro, e de vez em quando alguns eram triturados por serras brancas, uma tragicomédia, nos abraça-vamos ao máximo para não sermos divididos e aos poucos a serpente nos empurrava para o túnel, uma espécie de tobogã d’água do inferno.
O Tubo ia se estreitando, agora não mais livres, forçados a descer por uns soldados do exercito peristálticos: seres com enormes bocas, dentes afiados e cabeça de tubarão cinza, nas mãos deles uma caneta e prancheta; na cintura num fio brilhante de mau humor, rígido, na fila do desespero a parede viva nos empurrava, descendo cada vez menores e mais leves, uma lipoaspiração, os peristálticos faziam estranhas perguntas onde é a capital da Bósnia? Quem não respondia era decepado ao meio e, todos os soldados gritavam Uhm! Mas o incrível é que não precisava responder certo simplesmente responder as perguntas – Existe vida inteligente em outros planetas? Terá sido as pirâmides do Egito construídas de cima para baixo ou de baixo para cima? Adivinhem a minha cor preferida?  Um monte era decepado; sussurrei para alguns que estavam ao meu lado; respondam qualquer coisa, mas respondam.
Um alívio ao sair daquela carnificina maligna (Perdoe-me caro leitor, mas é complicado usar outro termo; apesar de não sermos feitos de carne, o termo cai bem ao sortilégio que nos fora acometido) e deve ser praga da oposição.
- É o nosso fim! Isso é o inferno! Dizia o milho
Na descida vi o Feijão roxo, branco de susto, mesmo assim mostrava um salvo-conduto francês do Paraguai; o companheiro arroz é que não estava bem, foi tripartido sobrando apenas o que falava. Nós quatro nos acabando pelo caminho, mantínhamos nossa fé e de mãos dadas rezávamos; aprendi na hora uma oração com o Milho.

“Oh Grande sabugo que nos fez todos iguais e amarelos como o sol, nos deu energia e trouxe a chuva, nos fez proliferar e ficar bem graúdos e bonitos; posso ser pamonha ou mingau; pipoca ou canjica; não me deixe só nessa agonia.”

Fubá! Terminava a oração, gritando, o milho.
 Eu também resolvi gritar Fubá! Fubá! Fubá! Sem entender o que significava aquilo, mas ali no desespero mesmo ateu acredita. Uma placa “Quebra molas a 100 metros” logo após, esta, o suco gástrico a banheira mais quente do inferno dá li ninguém escapa, cada um deu um último grito, nos salvamos de susto, “Curva acentuada à esquerda”. No estomago uma farta recepcionista, nada agradável, conferia a guia e encaminhava para uma das três salas; a primeira era uma sala branca cheia de agentes que retiravam pedaços, um processo semelhante a doação de órgãos, só que não era de pessoas, legumes, carboidratos e carnes que até o momento haviam se salvado, atrasaram o plano de saúde; graças a Deus meu  plano estava em dia; na sala dois, no centro, um tele-transporte, passagem direta para o mundo externo via oral, quem se safou mais uma vez? O musgo, nessa sala tinha muita carne, cerveja, ninfas vestidas de enfermeiras, e no canto bicarbonato de sódio espalhado numa mesa, quem supostamente usou foi tele-transportado; na terceira sala havia cadeiras de espera, poucos ali sentados; eu, milho, arroz e feijão ouvimos soar uma sirene abafada e rouca, caímos num túnel apertado e fétido, exprimidos numa substância pegajosa, nem mole nem dura, consistente - Que merda será isso, será o inferno? Perguntava o arroz.
Uma espécie de segurança, alias, fiscal; fizemos uma vaquinha, ele não queria nos deixar passar sem pagar - Até para ir ao inferno tem que molhar a mão de alguém - Empurrados com força no túnel e a cada empurrão um grito ensurdecedor.
- Onde estamos? Ainda inebriado perguntava o Milho.
- Acho que escapamos do inferno, respondia o Arroz.
- Isso que eu chamo de cagada! Espantei-me.
- Estou vendo a luz no fim do túnel reto, dizia o francês carioquinha.
Aproximava-se nosso destino, montado naquela embarcação enorme, escapamos do inferno sem ter visto o demônio e nenhum dos seus secretários; um último apertão e outro salto, agora numa lagoa cheia de barcos, mal festeja-vamos um redemoinho crescente nos levava direto no fundo.Vi uma mãozinha dando tchau para mim.
- Este é o barco da salvação! Sorria o Milho.
- “Magnifique” Dizia o “Cassoulet”
- Corre gente! Vamos proliferar na terra santa, esperançoso Arroz.
- Que merda! Acho que pisei na..., o único verde dos três. Limpava o pé.

Obs. Mastigue bem os alimentos para uma boa digestão. Isso evita pesadelos.

“Tilà”
TILA
Enviado por TILA em 29/09/2006
Reeditado em 13/01/2007
Código do texto: T252651
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Sobre o autor
TILA
Santa Luzia - Minas Gerais - Brasil, 48 anos
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