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Lobo e Sangue

        O vento entrava pela caverna. Esse mesmo vento me acordou. Meu corpo estava doendo do focinho até a ponta do rabo. Não sabia o por quê.
Ninguém na caverna. O que estranhei, por que Pata-Preta e Pêlo-Bonito nunca saíam sem avisar.
Quando levantei, meu corpo doeu mais ainda. Não me contive e uivei baixinho de dor. Aos poucos ela foi sumindo.
Fui andando pra fora, na esperança de encontrar meus companheiros. Nada encontrei. Parei um momento e farejei o ar. Mas nenhum sinal deles.
O único cheiro estranho que senti foi o meu próprio. Um cheiro diferente do habitual. Um cheiro que nunca havia sentido.
Andei um pouco mais pela floresta e achei rastros. Rastros de três lobos. Dois deles eram Pata-Preta e Pêlo-Bonito, e o outro eu não sabia. Não tinha conhecimento de nenhum outro lobo naquele território. Segui os rastros cuidadosamente.
Em um certo momento, as pegadas saíram do descampado e entraram na mata fechada. Elas seguiram assim por um grande percurso, e de repente uma delas parou. Parei e farejei.
Pêlo-Bonito. Sangue.
Logo a frente, uma grande armadilha de animais e marcas de pneu. Vivi a cena em minha mente.
Pêlo-Bonito e Pata-Preta teriam escutado um barulho diferente, e entrado na mata. O barulho era tão alto que Pêlo-Bonito se distraiu e não percebeu a armadilha no caminho. O barulho da armadilha se fechando, dilacerando a pata de Pêlo-Bonito e seu uivo de dor, foram inaudíveis diante de todo aquele barulho. Ela tombou sangrando. Pata-Preta tentou ajudá-la mas de nada adiantou.
Dispertei de meus pensamentos e farejei mais ao redor. Vi pegadas que não eram de lobos, mas de Destruidores da floresta. Olhei os rastros novamente. Sangue. Pata-Preta. E um pouco mais de sangue, talvez do lobo desconhecido. Fechei os olhos.
Um veículo grande e amarelo surgiu, como o sol. Esta era a fonte de todo o ruído. Destruidores saíram dele. Pegaram Pêlo-Bonito quase morta. Pata-Preta tentou protegê-la, mas seus esforços foram em vão. Os Destruidores tiraram armas do veículo e com apenas um ataque, Pata-Preta caiu. O lobo do rastro desconhecido atacou um dos Destruidores, mas ele conseguiu se soltar e fugir com o resto dos Destruidores e com meus companheiros mortos. E antes de partirem, deram-lhe uma coronhada. E o lobo ficou consciente tempo suficente para irem embora, depois caiu.
Voltei dos pensamentos e farejei. Um pouco à frente, uma parte do chão estava fofa e com mais sangue. Mais à frente, pegadas seguindo a direção das marcas de pneu. Segui as pegadas.
Elas percorreram um longo trajeto, até quase o fim da floresta. Perto de uma madeireira. Lá pararam.
Meus pensamentos me tomaram novamente.
Logo depois da pancada, o lobo levantou-se e seguiu o rastro do veículo. Correu bastante. Pra bem longe. Com ódio. E encontrou os Destruidores.
Voltei a si e resolvi entrar no lugar. Os portões estava completamente escancarados. Cheguei num pátio aonde o cheiro de madeira queimada se misturava estranhamente ao cheiro que exalava em mim. Não havia niguém vivo no lugar, somente um amontoado de corpos de Destruidores jogados em todos os lugares. No chão, enormes pegadas de lobo.
Meus pensamentos voltaram, e vi o grande lobo matando os Destruidores, um a um.
Parei de pensar nisso e voltei a procurar.
 Vasculhei todos os cantos atrás de Pêlo-Bonito e Pata-Preta. Só restava um lugar para olhar. Quando entrei, me vi cercado por imagens de mim mesmo. Estava eu, Desbravador da Aurora, completamente sujo de sangue. E percebi que esse era o cheiro que senti de manhã. Cheiro de sangue Destruidor. Sangue sujo. Olhei um pouco mais e notei o grande rasgo que havia em minhas costas. Então tudo fez sentido. O lobo da floresta, o lobo gigante. Era eu.
Tinha saido na manhã passada com eles para caçar, quando tudo o que narrei aconteceu.
Levei a pancada do Destruidor de floresta e tombei quando ele partiu. Quando acordei, fiquei furioso, como nunca estive na vida e fui atrás deles. Achei o seu covil e entrei. Dentro do lugar, vi os corpos de meus companheiros sendo queimados nos fornos e uivei para o céu. Foi aí que perdi o controle completamente e me tornei na criatura gigante.
Matei todos. Com uma garrada só, cada um.
Depois de mortos, peguei as cinzas e joguei nas árvores.
Saí correndo pela noite e voltei para a caverna. Ainda tinha ódio no coração, mas dormi.
Dormi com o vento entrando pela caverna.


Malk Menezes
Enviado por Malk Menezes em 06/10/2006
Reeditado em 06/10/2006
Código do texto: T257578
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Sobre o autor
Malk Menezes
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
3 textos (119 leituras)
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