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A LÓGICA DA LOUCURA





             A franzina mulher acordou. Levantou-se e, depois de estender os braços se espreguiçando, retirou do chão o cobertor que lhe servira de colchão. Depois de assoprá-lo por diversas vezes, o colocou sobre o colchão da cama. Cama aquela, que de nada lhe servia.
          Tendo em vista o quadrado que reflete imagens encontrar-se à sua frente, não andou muito; ao confrontar-se com o espelho, expôs a língua para fora e fez questão de emitir um som... Som que mais aproximou-se de um grunhido.
          Deu dois tapas nas bochechas... Puxou o beiço inferior lateralmente e a gengiva ficou à vista. O seu olhar foi de surpresa, mas se conteve no instante seguinte assumindo uma seriedade peculiar, como se estivesse preocupada.
         Foi até a pia e, com um copo na mão, levou-o a boca e não engoliu a água; gargarejou por diversas vezes e depois lançou o líquido dentro de um pinico que estava na sua mão direita. Lentamente, como que evitando que o pouco de água dentro do recipiente entornasse, dirigiu-se em direção da geladeira onde o guardou.
        Limpou as mãos esfregando uma na outra e com um sorriso nos lábios,  voltou ao espelho a fim de  narcisar-se... Qual foi a sua surpresa?...
        –  Não é possível! Que nojeira!
         Assustou-se ao ver que no canto do seu olho direito uma pequena remela se alojara. Correu para a geladeira e retirou o pinico que guardara a menos de dois minutos. Foi novamente ao espelho, e colocando a mão em forma de concha dentro do pinico, levou a água ao encontro do rosto.
            Sorriu como que dando-se por satisfeita ao perceber que a remela sumira.
            Novamente abriu a boca e dessa vez não mais expôs a língua; os dentes ficaram expostos. Para que os mesmos ficassem limpos, passou o indicador sobre eles e, da gaveta da cômoda, retirou uma velha escova dental e passou nos cabelos para que seus fios ficassem soltos.
             Guardando a escova, lembrou-se que ainda não tinha ido ao banheiro. Dirigiu-se em direção do mesmo.
             Lá chegando, suspendeu o vestido, abaixou a calça... Fez o que ainda não fizera; defecou no bidê e no vaso, urinou.
             Para que ter trabalho em puxar a descarga?  Pegou um pano. Embebendo-o no vaso por diversas vezes espremeu-o no bidê.
           Como se tivesse cumprido com o dever, deixou o serviço que estava fazendo e voltou ao espelho. Sorriu, mas, num susto, indignou-se:
             – Porque você está rindo? O que você está pensando, hein? Afaste-se daí, rápido! Este lugar é só meu!
             Os gritos foram tão histéricos que uma lágrima surgiu no seu rosto e a reação foi imediata...
              – Não chore... Não chore... Eu só falei brincando.
               E a sua mão foi ao espelho, em carícia. E com naturalidade, a imagem refletida pelo espelho foi de um rosto cheio de complacência e que foi se transformando num sorriso que a fez ter uma nova reação:
              – Do que você está rindo? Está rindo da minha cara, é? O que está pensando? Vá embora, xô!  Este lugar não te pertence!
              Mesmo indignada, continuou a sorrir como que em desafio ao reflexo no vidro. Os risos foram mais e mais altos e a histeria foi aumentando. Mais alto ela continuou a gritar enquanto olhava para o espelho e, não se contentando, falou:
              – Pare de rir! Eu exijo que você pare de zombar de mim. Eu ordeno que você pare de rir, que pare de me desafiar!
             Momentaneamente ficou muito séria, mas não percebeu que a figura do espelho também tinha ficado séria.
             E disfarçando, para que a imagem não percebesse, pegou o pinico e lançou-o violentamente no vidro. O espelho ficou todo estilhaçado a ponto de nada mais poder ser visto.
              Ainda desconfiada, mirando a moldura e, não vendo qualquer gesto, sorriu. Estava satisfeita.
              Continuou a sorrir, agora, mais controlada. Foi ao lado da cama de onde delicadamente retirou o cobertor, estendeu-o no chão e deitou-se.
              Mas lembrou-se que havia esquecido de alguma coisa: levantou-se; foi até o interruptor, acionou-o e a luz continuou acesa. Ela não se comoveu com aquilo; voltou para o chão e deitou-se...dormiu.




Todos os meus trabalhos estão registrados na Biblioteca Nacional-RJ
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 11/10/2006
Código do texto: T261832
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
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carlos Carregoza