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Amar é Sofrer, Para Não Fazer Sofrer?





              Nos primeiros dias, meses, anos, tudo consistia em flores. Tudo era fantástico e parecia um mar-de-rosas. Eu me sentia uma Cinderela que havia encontrado o seu Príncipe dos Sonhos. Imaginava ter encontrado a minha outra metade, minha alma gêmea. Fui feliz, muito feliz! A vida transcorria como se as nossas almas estivessem a cada dia mais e mais integradas.
Mas, com o passar dos anos... oh! Como fico a pensar... que bom seria se tudo continuasse como fora; se tudo continuasse como antes, e que meu sorriso estivesse sempre estampado na minha face ... como outrora. Infelizmente não foi assim que aconteceu; a fome dos desejos, sonhos e as ilusões foram se desgastando, e a insegurança começou a dominar-me, a matar-me.
Preocupada, por diversas vezes fui ao espelho e, mesmo que eu tentasse não perceber a realidade, ela estava presente, e as rugas iam transparecendo na minha face. Sentia-me mais e mais desesperada. Até a balança era uma das minhas inimigas: ela me informava que eu estava com alguns quilinhos em excesso. Mas não era só o excesso de peso que me assustava; tudo me assustava, até mesmo o som de uma risada me trazia insegurança.
 Se o meu mundo era colorido, toda aquela felicidade que eu imaginava nunca ter fim, parecia findar. Não em palavras, mas, na minha impressão, nos gestos que começaram a ficar mais distantes. Ele, que sempre estava a sorrir e a brincar, estava cada dia mais isolado e tudo aquilo me incomodava. Algumas vezes, mesmo que ele não percebesse, o flagrei a chorar. Seu choro era em silêncio como que não querendo me despertar.
– O que houve? O que fiz? Interrogava-me e não encontrava resposta. A única ou mais viável, era da minha consciência: ele não mais me ama – eu imaginava estar certa.
Ousei  perguntar-lhe.
– Nada. Você não fez nada – eram as suas respostas. Tentando disfarçar, beijava-me a face e, no meu medo e insegurança, era, na realidade, a resposta que eu mais desejava ouvir.
Mas seu silêncio continuava e era como a morte. Eu ficava muito apreensiva e triste por saber que as palavras finais de separação viriam quando eu menos esperasse. Era como o frio da morte; não sabia quando, mas, com certeza viria.
Ele ainda não tinha me falado em separação, a meu ver, por piedade. Como eu continuava a amá-lo, não tinha coragem de mandá-lo tomar uma decisão.
– Ele não mais me ama. O que fazer? – Tais pensamentos não saiam da minha cabeça.
E aquela distância mais e mais me consumia. Muitas noites eu também acordava assustada e por diversas vezes me pequei a chorar. Me perguntava o porquê dele não tomar uma atitude, dando um basta em nosso relacionamento; eu precisava, mas não tinha coragem de sugerir isso a ele. Ele, possivelmente, estava arrependido de ter casado, mas por ser um homem polido, achava já ser tarde demais para voltar atrás. O seu olhar, mesmo ele não tentando demonstrar, era um olhar de medo, e que, por mais que ele tentasse sorrir, era um riso opaco e pálido.
Não tentava me dizer nada. Várias vezes abraçava-me, beijava-me, e quando fazia tais gestos, por mais que tentasse se controlar, seu interior chorava.
Eu não mais tive coragem de perguntar-lhe o que sentia. O medo também me corroía e eu parecia ouvir-lhe que estaria de partida. E não desejaria antecipar. Preferia sofrer com a distância dele, do que viver o resto da minha vida sozinha.
Mas, depois de uns cinco anos, houve a separação. Não a separação que eu esperava e que antes fosse; foi a sua partida. Não para os braços de outra como eu imaginava, mas, para os braços de Deus. A sua morte foi silenciosa num leito de hospital. E só depois de sua morte fui saber a causa... Câncer!
Desolada, me perguntava e o censurava; por que não ter dividido o sofrimento comigo? Na minha mesquinhês não queria, não desejava entender.
Mas, a vida nos ensina... nos ensina muitas coisas... Só depois, quando encontrei no meu porta-jóias um objeto que nada tinha a ver com jóias, entendi! Era um pequeno bilhete onde estava escrito: Amar é sofrer, para não fazer sofrer.
Esse foi o motivo dele omitir seu sofrimento.... FOI A SUA FORMA MAIS DELICADA DE DIZER QUE ME AMAVA!



  Todos os meus trabalhos estão registrados na Biblioteca Nacional-RJ
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 11/10/2006
Código do texto: T261838
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
102 textos (5962 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 10:22)
carlos Carregoza