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Magia Pesada III - Fear of the Dark

Magia Pesada III – Fear of the Dark

Ed havia acabado de se despedir dos amigos. Após uma ávida conversa sobre bruxas e fantasmas, ele seguiu seu caminho sem paciência para pensar em Lordy e naqueles outros góticos. Madame Angústia lhe pareceu uma farsa das piores que podia encontrar. Pior do que playback de banda de cinco mauricinhos. “Será que realmente existe algo pior do que isso?”, pensou ele, começando a imaginar que isso era pegar muito pesado com a dona Angústia.

Precisava falar com a Dama de Ferro rapidamente para retirar algumas dúvidas, mas duvidava que ela fosse responder alguma de suas perguntas. Talvez um ritual de invocação a convencesse a falar com ele. Enquanto caminhava pela rua agitada, praticamente sem rumo, ia pensando no que fazer e nos possíveis componentes para um ritual. O contato deveria ser feito à noite e Ed já caminhara tanto que já quase escurecia.

O celular tocou de repente. Tinha uma música do Blind Guardian como toque e ele deixou que ela chegasse no refrão para depois atender. Adorava Mirror Mirror. Adorava o Nightfall in Middle Earth. Não reconheceu o número na tela, mas a voz veio logo a mente, do mesmo modo que um evangélico pensaria ao ouvir o Diabo.

- É o Eduardo que está falando? – perguntou uma voz de patricinha iludida.

- Você ligou para o celular de quem?

- Ah, é o Eduardo sim – falou para alguém do outro lado da linha. Era daquelas que tinha que confirmar tudo para uma amiga tapada, como as duas partes de um cérebro só tentando se comunicar. – Eduardo, nós vamos fazer uma festa surpresa para sua irmã hoje. Nem pense em aparecer aqui. Tchau, Beijo.

Ela desligou o telefone como se houvesse falado a coisa mais simples do mundo. Ed coçou a cabeça e colocou o celular no bolso. Olhou para as pessoas passando ao seu redor. Estava expulso de casa porque as amigas idiotas da irmã pretendiam fazer uma festinha. Com certeza toda aquela turminha legal estava lá para encher a paciência de qualquer pessoa com a mente sã. Balançou a cabeça para esquecer o assunto e continuou andando. Iria a pé para casa e no caminho encontraria o local de que precisava para realizar o ritual.

Caminhou pensando nas curvas de Sol e no sorriso dela, mas também no magnetismo frio de Lua. Por mais que Sol lhe chamasse a atenção, havia algo de especial em Lua, uma distância que ela impunha que o forçava a querer atravessar aquele mar frio e chegar em terra firme e quente. Fetiches, pensou.

A luz começou a desaparecer e ele olhou para trás. Não havia mais ninguém na rua que estava no momento, mas tinha a sensação de que algo se aproximara dele. Quase podia sentir olhos sobre sua nuca. Passou a mão sob os cabelos tendo quase certeza de que havia marcas de um olhar mórbido no pescoço. Apertou o passo, já pensando em como acabar com aquela sensação, mesmo sabendo que quanto mais escurecesse, mais aquele sentimento se adensaria e tomaria conta de seu espírito. Para um feiticeiro, trevas e olhares são reais, mesmo que a mente induza essa realidade.

Quando chegou ao armazém abandonado que procurava, tratou de retirar a mochila das costas e sacou sua adaga ritual. Era uma lâmina prateada com um rubi no fim do cabo. Presente da Dama de Ferro quando provara seu valor. Pegou giz, pó de ferro e um pouco de querosene. Jogou a mochila no chão e deu o primeiro passo para o centro do armazém. Tentou não olhar mais uma vez para trás, porque aquilo daria mais força ao medo que tentava alcançá-lo. Era como se o medo do escuro estivesse criando forma para se aproximar e enfiar-lhe as garras no coração e matar sua coragem.

Começou fazendo o círculo com o giz, para marcar o território com palavras e o branco puro. Fez o caminho inverso jogando o pó de ferro clamando pelo nome de sua mestra. O terceiro ato foi fazer um círculo menor com o querosene, deixando-o bem próximo do pó de ferro. Acendeu-o com os fósforos e ajoelhou-se no centro. As sombras brincavam nas paredes do armazém. Suas formas eram mais vivas do que um mortal poderia imaginar. Eram manifestações da angústia do mundo, uma metáfora com mais significado do que as portas do Inferno descritas por Dante.

Clamou pela Dama de Ferro sem dar atenção às sombras. Elas eram parte de sua vida, um reflexo da perturbação que havia na alma humana e que não se escondia dele quando escurecia. Para ele, a escuridão deixava tudo mais claro. O nome da Dama de Ferro ecoou como uma carta fechada que se vê, mas não se conhece o conteúdo. Era um sinal para que ela captasse e respondesse. Ela nunca apareceria pessoalmente, não depois do que ocorrera nos meses anteriores.

Sol e Lua sempre pensavam no assunto, mesmo que não falassem nada. Não foi á toa que o Círculo todo resolveu ajudá-lo após o recado da mestra. Apenas a disposição de Lordy o deixou um pouco surpreso. Era o único entre aqueles Dotados que não amava a mestra. Talvez Lordy não amasse. Preferia o sofrimento e a escuridão. Era sempre assim.

De repente o fogo se foi. Desapareceu como uma vela soprada e as sombras logo a frente dançaram mais um pouco como se não soubessem que a música havia acabado. Ed viu que os passos delas descreviam a morte que o perseguia e a aflição que ele já deveria sentir. No entanto, ele não conseguiu ler nenhuma daquelas palavras, pois não estava em sintonia com o desespero, mas com o ódio que queimava suas entranhas e o destemor que controlava sua alma.

Mais uma vez, olhos das trevas o analisaram e seu coração quase tremeu com aqueles olhares malignos que o ameaçavam. Levantou-se com a adaga na mão e apontou para todos os lados. Tinha certeza de que havia algo rastejando pelos cantos, alguma coisa que logo rastejaria sobre seus pés e subiria por suas pernas se ele não se controlasse. Então o fogo ardeu no coração de Ed e ele gritou. As trevas se apagaram para deixar um vazio e um sussurro de vingança cruzou seus ouvidos.

*****
Ed subiu as escadas do prédio ouvindo passos logo atrás de si. Não significavam trevas ou magia. Poderiam ser pessoas vivendo suas banalidades, mas em seus ouvidos, ecoavam sinais que ribombavam nas paredes das escadas. As pessoas conversavam quase que em sussurros e mentiras desciam pelas escadas como enxurradas. Ele riu sarcasticamente daquele poço de hipocrisia que era seu prédio, o que, aliás, estava acumulado em seu apartamento com todos os amigos de sua irmã lá.

Ela ainda não havia chegado. Não estava no horário. Sempre estava em casa às dez em ponto e os amigos deveriam estar bebendo enquanto esperavam. Iam apagar a luz pouco antes das dez e esperar. Apagar a luz. Sentiu um arrepio ao pensar naquilo, talvez um aviso. Nervoso, decidiu que abriria de uma vez aquela porta e acabaria com aquela festa maldita. Enfiou a chave na porta e abriu de uma vez. Com certeza acertaria alguém que estivesse perto. Descontaria sua frustração.

Decepcionou-se quando ninguém disse nada. Continuou segurando a maçaneta e olhando para a escuridão dentro do apartamento. A luz mal entrava na sala. A luz desligou lá fora. Não por força espiritual, mas por causa dos sensores que não indicavam mais ninguém no corredor. Ed sabia que havia alguma coisa ali dentro. Os cantos da sala estavam escuros e o frio suspirava. O suspiro do frio era aquele vento que se sente no espírito e faz a nuca se arrepiar. Aquela sensação de que o perigo espreita. Um perigo que pode roubar a alma.

Estendeu a mão procurando o interruptor, ainda segurando a porta. Os dedos tatearam a parede e não encontraram nada. Algo lhe avisou para temer e seu orgulho estapeou esse aviso antes que o coração ou a razão pudessem ouvi-lo. Então ele soltou a maçaneta e deu mais dois passos para frente. A porta bateu atrás dele e a adaga ritual saltou para sua mão.

- Quem está aí? – perguntou com ar presunçoso.

Deu mais dois passos e pisou em algo. Era alguma coisa mole que qualquer um que já tenha enfrentado as trevas saberia o que era. Estava diante de um corpo. Abaixou-se para tocar e sentiu uma pele morna, de um morto que esfria lentamente, enquanto a escuridão se alimenta do calor da vida perdida. A nuca se arrepiou e tomou consciência de que estava em uma casa de mortos. O cheiro da morte entrou por suas narinas agressivo como um soco e tomou sua consciência. Então houve o ataque.

Ed ouviu a mesa sendo arrasada enquanto algo pulava de cima dela. Eram as trevas se movendo dentro da escuridão. Acertou-lhe nas costas e o derrubou. Rolou por cima de corpos, sem conseguir se colocar de pé enquanto sua mão livre e seus pés escorregavam na pele já quase pegajosa dos cadáveres. A coisa estava para atacá-lo de novo. Agora surgiu como a escuridão o sufocando. Eram braços que quase desapareciam na negritude do ambiente que estava em volta de seu pescoço. Ed atacou com a adaga, mas alguma coisa segurou-lhe o braço antes que pudesse agir.

Só lhe restava uma mão livre. Tentava apoiá-la em um corpo, mas apenas a sentia escorregar nas roupas. Tentou acalmar a mente e deixou a corpo cair. O inimigo continuou o enforcamento, enquanto o outro tentava pegar sua adaga. Usou apenas a outra mão para movimentos simples, enquanto três palavras saíam de sua boca. Houve um clarão repentino que quase o cegou, mas também serviu para assustar as outras criaturas. Aquele que o enforcava saltou para trás e o outro continuou o segurando, mas sem a certeza de antes. Ed virou-se rápido e o socou. Em seguida, forçou seu peso sobre sua adaga a enfiando no inimigo. Ele gritou não como um humano, mas como um demônio que experimenta ferro mágico em suas entranhas.

Ed se levantou procurando se apoiar e clarear a mente. Precisava de um feitiço. Pensou rapidamente e gesticulou, chamando as trevas e esperou o próximo ataque. Quando a criatura das sombras saltou sobre ele de novo chocou-se contra seu próprio elemento, que a englobou e paralisou. Ed avançou com a adaga e enfiou naquele emaranhado de trevas. Esse grito de dor ele ouviu na alma e isso quase arrebentou seu espírito. Caiu para trás e sentiu as trevas se desfazendo. Elas foram embora, mas não se acabaram. E o demônio ainda estava ali. Ele espreitava.

Ainda estava escuro, mas não tanto quanto antes. Agora uma luz tênue vinha da varanda. Olhou para os lados, procurando o inimigo e então se deu conta da proximidade do perigo. Havia dentes e garras no canto de seus olhos. A criatura urrou e tentou mordê-lo, mas ele se esquivou. Tentou andar, mas caiu sobre um corpo. A adaga ritual escorregou de sua mão.

Percebeu o quanto estava acuado. Começou a se arrastar para a cozinha, desesperado. A criatura saltava e caminhava pelo teto e paredes, preparando o bote. Primeiro queria o alimento, qualquer sentimento que sua alma exalasse antes da morte, principalmente o medo. Mas Ed estava demorando a lhe dar esse néctar. Esbarrou em um armário e viu que dali não sairia. A criatura se arrastava pelo teto, sem forma definida que não fosse as garras e os dentes.

Ouviu o papagaio da irmã xingando mais uma vez. Teve raiva do bicho e ainda mais raiva daquele demônio. Então teve a idéia de jogar toda a energia que tinha acumulado na casa contra a criatura. Deixou que saltasse. Invocou sua magia, retirando sal grosso e água de nascente. Misturou os dois na mão enquanto via dentes e garras voando para ele. As palavras e os materiais se chocaram contra a criatura e desestruturaram sua essência espiritual. De carne passou para espírito e dali tentou se refugiar na carne mais próxima antes que fosse destruído. A primeira que encontrou viva e passível foi a do papagaio. As penas do animal se enegreceram naquele mesmo momento e um brilho vermelho tomou conta de seus olhos. Ed saltou e o segurou. Nenhuma bicada o deteve.

- Idiota. Atacar um mago em seu santuário? Você é meu.

Ouviu a porta. Olhou para os corpos caídos. Correu para a varanda e saltou ainda segurando o papagaio. Mais uma magia e ele estava livre naquele momento, mas ainda preso por perguntas e ódios.
Shaftiel
Enviado por Shaftiel em 21/10/2006
Reeditado em 21/10/2006
Código do texto: T269984

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