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Acaso - ou força cósmica?

Introdução.
Um grande amor teria  forças para sobrepor-se à distância no espaço e no tempo? Teria capacidade de anular conceitos sociais, éticos... desestruturar outras vidas?

“Dr. Joel Maristrano da Silveira – Oftalmologista”. A placa metálica, brilhando sob o sol da tarde, em meio à moita de plantas exóticas no bem cuidado jardim, recebeu apenas um olhar rápido e distraído da paciente que adentrava ao consultório.
Chegando ao balcão, identificou-se junto à recepcionista, forneceu as informações de praxe e aninhou-se confortavelmente na macia poltrona, ao lado de outros pacientes, enquanto aguardava ser chamada para a consulta.
- Que bom dispor desse tempo para si mesma – pensou.  Apalpou mecanicamente a sua bolsa, sentindo falta de alguma coisa: o celular! Havia ficado esquecido sobre sua mesa – mas agora era tarde para ir buscá-lo. É claro que se houvesse alguma emergência, saberiam onde encontrá-la. Sua agenda era do conhecimento de sua secretária que faria grandes peripécias, se fosse preciso, para encontrá-la. Era reconfortante alhear-se um pouco do burburinho da sua empresa, sentir-se fora da correria usual.
Enquanto aguardava, seus pensamentos divagaram aleatoriamente. “Dr. Joel M. Silveira...” – esse nome vagueava pela sua mente com muita familiaridade. Por que seria? Nem o conhecia. Pedira para a secretária marcar uma consulta com um dos oftalmologistas conveniados ao seu plano de saúde, anotara o horário, o endereço... e lá estava ela esperando ser chamada pelo Dr Joel M. da Silveira, o J.M.S. !
Sentiu o coração bater mais forte, descompassadamente, enquanto um calafrio lhe percorria a espinha. – Seria mesmo ele? Percebeu um suor frio nas mãos trêmulas e agitadas.
- Rebeca de Lara! Anunciou a recepcionista, interrompendo seus pensamentos e  tomando-a de surpresa.
Nesse momento crucial ela fica sem ação, indecisa entre  a vontade de entreabrir o passado e o medo de afastar-se da segurança do presente. Precisa decidir. Sua voz some. As pernas enfraquecem.
Olhando para os presentes a recepcionista insiste: - Sra. Rebeca de Lara – será que foi ao banheiro? Volta-se para cochichar algo à companheira que se entretinha no computador.
Como se uma mola a impulsionasse, aproveitando-se da distração da jovem, a paciente levanta-se  silenciosamente e caminha em direção à porta... de saída. Com passadas rápidas e agindo como um autômato, em poucos segundos  ganha a rua.
Respira aliviada – o peito arfando com ritmo acelerado. Aos poucos o ar frio faz a respiração voltar ao normal, enquanto ela caminha vagarosamente em direção ao carro estacionado a curta distância.
- Não ... não tenho condições de decidir nada ainda. Pensativa e insegura dirige-se lentamente para a pracinha próxima. Senta-se no banco defronte às crianças que brincam alegremente na areia e nos balanços mas nem as enxerga, envolta em seus sombrios pensamentos.
Suas lembranças retrocedem trinta anos. Vê-se , tão claramente como se fosse agora, num mundo distante, diferente, entre as colegas de escola, com seu uniforme e os livros escolares e sua agenda contendo vários monogramas com as letra J.M.S. em diversos formatos. Escuta nitidamente a algazarra, as conversas alegres, as brincadeiras daquele tempo... Alguém sempre a espera dela, na saída da escola! Sente ainda no peito a mesma onda de calor que a aquecia involuntariamente, como num passe de mágica, quando distinguia aquele vulto tão familiar,  encostado no muro, sempre no mesmo lugar,  a esperá-la.
Fechou os olhos para melhor saborear as lembranças, ao imaginar-se caminhando ao seu lado, mãos dadas, falando sobre banalidades, rindo por qualquer motivo, apreciando o mundo em cada detalhe: uma flor, os raios de sol por entre as folhagens das árvores, a fina garoa que caía, as pedras soltas da calçada permitindo que alguma erva daninha se instalasse, os pássaros voando baixo – tudo era motivo para enlevo, pois a felicidade nos dois corações tornava-os deslumbrados diante da vida. Mentalizou o caminhar descontraído dos dois, a despedida com um beijo tímido, rápido, nas proximidades de sua casa e sentiu-se inundar da mesma tranqüilidade daquela época. Tranqüilidade essa nascida da certeza de que no dia seguinte lá estaria ele novamente, apoiado no muro, a esperá-la. E assim, indefinidamente...
Era um namoro inconseqüente, sem preocupações com o amanhã, satisfazendo os anseios dos dois adolescentes que, juntos, estavam descobrindo a vida. Não era propriamente escondido – mas ambos estavam tão completos que nem sentiam necessidade de dividir esse sentimento com os familiares. Egoístas como todos os apaixonados, postergavam a conversa com as famílias. Certamente não oporiam obstáculos, mas... oportunamente   falariam com seus pais.
Até que chegaram as férias! Ele viajou com os pais, para o norte do país, a fim de visitar parentes distantes, de sua mãe. Ela viajaria também, dentro de alguns dias, com sua família, para outra cidade, mais ao sul, por algumas semanas.
Dolorido? Sim! Preocupante? Não! Tanta era a certeza de que se pertenciam para  o sempre, tanta era a confiança mútua nos seus sentimentos que, apesar de um certo desconforto causado pela antevisão da ausência prolongada, o episódio fora absorvido com tristeza mas, sem melodramas.
Rebeca suspira profundamente ao recordar o final das férias e o reinício das aulas. Dias tristes, de incerteza. Na saída das aulas seus olhos procuravam ansiosamente o vulto do jovem apoiado no muro a esperá-la. Em vão. Ele não mais apareceu.
Caminhava  solitária pelos mesmos caminhos de antes, porém não sorria mais. Uma nuvem toldava-lhe a vista. Ela não mais enxergava as flores dos jardins, os pássaros, não sentia mais os tépidos raios de sol, a brisa suave que lhe acariciava o rosto ou os pingos de chuva que se confundiam com suas lágrimas.
Procurara por ele durante várias semanas. Sua casa sempre fechada. Ele não retornara à escola. Os vizinhos informaram que a mudança ocorrera ainda nas férias. Após várias tentativas soube, através dos vizinhos, o local de trabalho do pai dele, numa cidade próxima, na região metropolitana. Ali, fora informada que ele não trabalhava mais. Sua família se acidentara durante a viagem. Ele havia falecido. Joel e a mãe voltaram a morar com a família dela. Nem a escola, que lhe dera a transferência, soube informar o paradeiro deles.
A vida seguiu seu rumo. Rebeca terminou os estudos secundários, passou a trabalhar, prosseguiu os estudos superiores. Tornou-se uma executiva de sucesso, trabalhando como representante comercial de vários produtos ligados ao ramo têxtil. Nessa trajetória conheceu Afonso, um lojista com o qual fizera várias transações comerciais e com quem possuía muitas afinidades. Passaram a se ver com freqüência, não apenas por motivos profissionais. A relação foi-se solidificando e estão juntos há 15 anos. Tem duas filhas adolescentes. Moram num requintado apartamento na região nobre da cidade e formam o que  se poderia dizer “uma família próspera e feliz”.
E hoje – algo veio turvar a água do lago tranqüilo de sua mente. “As águas paradas escondem profundos abismos...” como diria sua mãe.
Seu coração voltou a oprimir-se diante das dolorosas lembranças: quantas noites mal dormidas; quanto pranto derramado; quanto tempo de sua vida consumido na busca; quanto sentimento enterrado à força; quanto esforço na busca de novas alegrias; quanta dor e sofrimento ao se deparar com a morte brusca de um sonho; a sensação de impotência diante dos golpes da vida... Percebeu-se soluçando silenciosamente. Olhava as crianças brincando no parquinho, sob uma cortina de lágrimas. Fechou os olhos e teve a nítida sensação de alguém apoiando-lhe levemente uma mão no ombro – seu Anjo da Guarda – pensou – que, como dizia sua mãe... sempre nos apoia nos momentos difíceis. Entregou-se a essa sensação de bem-estar e aquietou seu coração. Aos poucos foi-se sentindo aquecida interiormente.
Foi inundada pela mesma antiga sensação de felicidade, que há trinta anos não sentia. Abriu os olhos preguiçosamente, virou-se para conferir se havia alguém ao seu lado...
Seus olhos se encontraram sem surpresa, sem constrangimento, sem amargura, mergulhando-se mutuamente na profundidade de cada olhar. Nenhuma palavra foi necessária. Trinta anos foram varridos da história de suas vidas  em milésimos de segundo.Estavam ali novamente juntos, dois adolescentes, enlevados em seus sentimentos puros e ardentes. O sol reapareceu. Os pássaros voltaram a cantar. O verde da relva resplandeceu. A brisa suave acariciava seus cabelos...
Um minuto? Uma hora?
Quando se deram conta havia escurecido.Nenhuma criança brincava nos balanços. A brisa tornara-se vento frio. O consultório estava fechado.
Ele envolveu-a com seu braço morno e protetor e conduziu-a em direção à clínica. Ela deixou-se levar suavemente, sem vontade própria, como se andasse sobre nuvens, num sonho distante. Estavam revivendo, com toda a intensidade, o momento que lhes fora tomado abruptamente pela vida. Era justo que lhes fosse devolvido aquele quinhão de felicidade.
Vagamente surgiram em sua mente frases soltas: Seu companheiro? Suas filhas?  Seus clientes... seu trabalho... suas responsabilidades... Teria ele também uma família? Por que ela viera a esse consultório e não outro? Que estranhos e intrincados labirintos o destino lhe preparara, para fazer aflorar no presente, o passado distante, há tanto tempo abafado...
O momento era mágico. Eles estavam felizes demais para que suas mentes abrigassem outros pensamentos. Corações implodindo ante o inesperado...
        Egoístas, como dois apaixonados, não tinham tempo para o mundo!!!
Serelepe
Enviado por Serelepe em 22/10/2006
Reeditado em 03/02/2007
Código do texto: T270719

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Sobre a autora
Serelepe
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