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Erótico 1

Recebi, pelo telefone, uma encomenda do Gláucio, dono da editora e, teoricamente, meu patrão. Não vou transcrever a conversa, mas ele me exigiu um texto erótico, ainda hoje. Não vai sair com o meu nome, posso colocar um pseudônimo adequado, como, Brigite Bijou, ou Lili Palmer. Disse que eu sou o seu ghost-writer, e quer goste ou não, tenho um compromisso com ele. Prometeu enviar-me trezentos reais na segunda feira.

Conheço bem o Gláucio, ele deve ter pedido a mesma coisa pra três ou quatro escravos dele, eu inclusive, e vai escolhar o melhor. Então não é uma tragédia.

Estou tão mal, que acho que preciso de viagra até para escrever sobre isso. A minha próstata deve estar do tamanho de um abacaxí. Mas enfim, texto erótico bom é o da Brigite Bijou. Diziam que era o pseudônimo do Nelson Rodrigues, que escrevia para ganhar dinheiro. Eu me lembro, a graça está nos detalhes, nas metáforas.

Pensei em escrever sobre duas mulheres se acariciando, que coisa mais linda. Não há nada que produza mais tesão. Aqueles corpos nus, tão próximos, os seios se tocando, as carícias nos cabelos, os lábios entreabertos, e logo se beijam, um esbarrar leve dos lábios carnudos e vermelhos, e depois a sofreguidão do beijo, que impede a respiração, as mãos que deslizam pelos corpos, até o monte de Vênus, os corpos deixam-se cair sobre o leito, os olhos fechados, o sonho de todo marmanjo é participar de uma orgia dessas. Mas vá sonhando.

 Com o Romildo, aconteceu o oposto. Levou duas meninas para o motel, a menorzinha ficou escondida no banco de trás do carro, e quando estavam nas preliminares ele foi expulso da cama e teve que ficar olhando o sexo delas, um verdadeiro voyeur, enquanto comia um saco de batatas fritas. Taí, poderia ser esse o meu conto, um cara passa de carro por um ponto de ônibus, pega duas meninas, oferecendo carona, vai para um motel e pronto, feita a história.

Mas raios, que trabalho que dá descrever todos os pequenos detalhes para incendiar a imaginação de uns solitários! É muito mais fácil olhar foto de mulher pelada. Ou de homem pelado, se for o caso. Que graça tem um texto, palavras, letras que se unam como se fossem formigas andando pelas trilhas marcadas pro feromônios predeterminados por alguém? Bem, se for para ganhar aqueles trezentos reais vale a pena.

O telefone toca, é o Gláucio me cobrando a encomenda. Explico que estou pelo meio, uma história com um homem e duas mulheres, no motel. O ponto de ônibus, a noite chuvosa e um quarto aconchegante de motel, cama redonda, espelho no teto, filme de sacanagem na televisão, etc, etc. Escuto a voz do dono:

-Nada de duas mulheres, nada de motel vagabundo, é para uma revista de moda, tem que ser tudo muito elegante, fino e sutil. Ponto de ônibus nem pensar... No mínimo oitocentas palavras, hoje é sábado, tem que entregar segunda feira ‘às dez horas.

-Segunda feira sem falta. Vou fazer uma espécie de “De olhos bem fechados”. Deixa comigo, chefe.
Bom, agora ferrou. Acabou com minhas minguadas duzentas palavras já escritas. Lá se foi o ônibus, o motel e o fillet ‘à francesa que eu ia pedir após o ato... Agora é esperar o jantar e tomar um conhaque. Depois eu escrevo.

Zazá vem com um prato fumegante de macarrão.

- Poxa, Zazá, macarrão de novo!

-Macarrão tá muito bom. Olha aqui, duas esfihas que trouxe do Largo do Machado. Pode comer a minha. Quem ligou?

-O cara da editora. Quer um conto erótico pra segunda feira. Trezentos reais.

Comemos em silêncio. Ah, Zazá, bem que trocava esse maldito conto por você, nos bons tempos, quando ainda tínhamos todos os sonhos. Agora é isso, um conjugado na rua do Catete e macarrão.

-Vou lavar a louça, disse Zazá, e o senhor vá terminar o conto que precisamos da grana.

Condenado a escrever, fiquei sentado diante do monitor. Queria fazer o “De olhos bem fechados”, mas não escapava do “Iluminado”, repetindo, sempre a mesma palavra: erótico, erótico, erótico, pênis, vagina, penetração, monte de Vênus, pentelho, pentelho, pentelho... Os seus lábios carnudos tocaram de leve a suave pele desnuda da barriga, não, barriga não, de suas coxas, que se arrepiou despertada pelo desejo... Caramba, que sufôco...

Senti a respiração de Zazá na minha nuca. Estava atrás de mim lendo aquelas bobagens que escrevi. Acabei levantando angustiado.

-Ah, Zazá, não vou conseguir, não vou! Não estou inspirado, erótico é muito difícil!

Dei adeus ao dinheiro e deitei com o copo de conhaque na mão.

De repente escutei o doce toque do teclado e vi os dedos ágeis de Zazá, decididos e certeiros, num ritmo rápido, preenchendo a tela com minúsculas formigas escuras que incessantemente fluíam obedecendo a um poderoso instinto. Que mulherzinha valente.

 Escutei a suave música sendo digitada e confiante senti que estava tendo uma ereção.



Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 28/10/2006
Código do texto: T275821

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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