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Atada Morte

Este é um dia de significados dolorosos para os seres humanos. Dia de celebração daqueles que tocados foram pela Transição. Daqueles que na Terra e em outros mundos habitados pelas outras Humanidades deixaram parentes e amigos, feitos e marcas, construções e destruições. Mundos Baixos cultuam oa que eles denominam como "mortos". Nos Mundos Altos, sabe-se conviver lado a lado com os espíritos, pois Tudo No Alto É Espírito. Rondei a Terra inúmeras vezes em todos os Dias Dos Mortos e apenas vi o vazio da cultuação daqueles que não mais residem na Matéria. Vazio porque cultuar os Verdadeiros Vivos é erro. Na Matéria todos estão mortos. Humanos, mortos materialmente. Anjos Caídos, mortos materialmente. Seria uma comédia no Alto o fato dos Seres Elevados verem o que se pratica com relação aos tocados pela Transição se tal prática de cultuação não fosse no Alto vista com pesar.

Hoje não percorro nenhum cemitério. As mesmas coisas eu veria, as mesmas que já vi antes neles neste Dia Dos Mortos. Percorro um dos Vales Do Éter. O Vale Da Morte. Tan A Tos está sentada, pensativa, no alto da Montanha Das Passagens, um dos Portais que guiam os tocados pela Transição para os respectivos Vales que lhes são destinados. A Foice repousa à direita Dela. Eu caminho e me sento ao lado da Foice. Eu e Tan A Tos visualizamos A Grande Lagoa Das Viagens Dos Espíritos Aos Vales, a abrir-se como uma Ponte para a Montanha. Espíritos chegam. Espíritos vão para os seus respectivos Vales. A tristeza das Passagens é-me dantesca. A tristeza da Senhora Da Morte é-me conhecida.

- Encontrastes finalmente a tua Verdade Caída, Asin, Vi-O abandonar aquele sonho com aquela mulher de sonhos.
- Deixemos o passado, Tan A Tos, nas Esferas Das Brumas Temporais.
- Vosso "Amor Verdadeiro" acabou-se tão rápido...
- E o Vosso Amor Verdadeiro Por Empunhar A Foice?
- Ah, meu Amor! Meu doce Amor!
- Amargura em ti, Tan A Tos?
- Que amargura na Morte poderia ser a mais contrária à sua primazia do que reinar por sobre todos os Seres Materiais sem ser reconhecida como A Grande Aliviadora Dos Seres Materiais Mais Sofredores?
- Tu queres mais o quê em vosso Reino, Tan A Tos?
- Não quero mais nada, Asin, não serei um Anjo Caído a caminhar com a minha Foice pela Criação e a Ver uma Irmã Elevada minha, uma de minhas Anjos Mensageiros, em meu lugar como O Anjo Guardião Da Morte Moldada Pelo Nosso Pai Em Sopro. Não quero mais nada, apenas mais reconhecimento pelo meu Grande Trabalho, efetuado não apenas em prol dos Sofredores, mas também Daqueles Que Começam A Subir Uma Das Escadas Das Ascensões Evolutivas. Do que adianta receber apenas dos poetas e dos escritores mais a mim ligados as homenagens que aprecio e inspiro-lhes a serem no papel materializadas? Do que adianta Ordens Ocultísticas e Ordens Místicas reconhecerem que eu não sou A Maligna Indesejável, Ser que a tolice humana em todas as Esferas Baixas moldou? Sou chamada de Deusa por poucos... Queria ser chamada de Deusa por todos...
- Os Anjos Elevados e a sua vaidade...
- Tu também, Asin, tivestes vaidade quando batias as tuas asas pelos Recantos Altos Da Vida Alta No Alto.
- Tive, mas jamais me senti como tu te sentes, ambicionando altares de venerações e orações de amor a ti.
- Altares E Orações São Para Deuses Mortos. Eu Sou A Verdadeira Vida, Asin, Aqueles Que Eu Toco Desde O Apenas Início São Os Que Sempre Me Verão Como Cadavérica Ou Como A Grande Libertadora Da Matéria. Não quero altares. Não quero orações. Sento-me à mesa de todos os almoços. Sento-me à mesa de todos os lanches. Sento-me à mesa de todos os jantares. Estou ao lado de todos em suas moradas. Estou ao lado de todos em seus trabalhos. Estou ao lado de todos em seus fracassos. Estou ao lado de todos em suas vitórias. Adormeço ao sopé do leito de todos quando adormecem. Desperto na cabeceira dos leitos de todos quando despertam. Sou A Mãe Da Matéria, pois Tudo Está Morto Na Matéria. Concedem à minha Irmã Elevada Vida todas as honrarias. A mim concedem cemitérios, funerais, enterros, lágrimas e xingamentos.
- A Morte É Um Cemitério. A Morte É Um Funeral. A Morte É Um Enterro. A Morte É Uma Lágrima. Tan A Tos, tu és A Lágrima Atada À Vossa Foice Desde O Apenas Início. Tu pedes reconhecimento. Tu pedes amor. Amor Verdadeiro, eu o Sei. Mas, como poderás ser reconhecida e amada por todos os Seres Materiais se estes, em sua maioria, são ignorantes da Riqueza Real Alta Que Tu És?
- A ignorância deles é o que me faz chorar, Asin. Eles morrem todos os dias nos Dias Materiais. Encarnados, são todos meus, pois, ao mero Toque Da Foice, no Éter estão. No entanto, me renegam... Acreditam que sou uma tirana... Não Há Tiranos No Alto... Sou tirana para todos aqueles com os quais convivo a todos os momentos... Tirana... Má... Sou um Ser Elevado, um Ser Do Alto, mas choro... Chorei muito nesta Montanha desde que minha Foice Tocou A Linha Da Encarnação de um ser humano em uma Esfera Baixa... Chorei aqui, sozinha, Asin... Nunca viram-me chorar, Asin... Tu, agora, serás o primeiro a ver O Choro Da Morte... O Meu Mais Doloroso Choro...

Frias lágrimas caem do frio rosto de minha Irmã Elevada.

Lágrimas mortas.

Lágrimas vivas.

Lágrimas de uma Deusa Não-Reconhecida.

Deusa que é A Deusa Maior De Todos.

Ela nunca esquece daqueles na Matéria aos quais sempre ao lado permanece.

Ela ouve os pedidos dos dolorosos em bruta agonia.

Ela atende a tais pedidos.

Ela maneja a Foice de forma impiedosa contra fracos e fortes.

E Ela também chora.

O Choro Dela não é um choro idêntico ao choro humano.

O Choro Dela é o de um Anjo Elevado.

Anjos Elevados Choram, assim como os Anjos Caídos.

O Choro Dela é o de uma Deusa Viva.

A Única Deusa Viva Da Criação Chora.

A Foice obtém um momento de repouso.

Pela Criação, toda morte é interrompida.

Tan A Tos Morre Neste Morto Inominável Dia De Seu Mais Doloroso Choro.






Texto originalmente publicado em meu blog Asas Inomináveis De Um Anjo Noturno Inominável (http://asinduannoin.blogspot.com) em 02/11/06.
Inominável Ser
Enviado por Inominável Ser em 03/11/2006
Reeditado em 03/11/2006
Código do texto: T280699

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Sobre o autor
Inominável Ser
São João de Meriti - Rio de Janeiro - Brasil, 40 anos
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