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LEVANDO HIROSHITO PRA CASA


      A história é uma cicatriz na pele negra. Emanuel sabia disso, afinal, conhecia como ninguém as dificuldades que um jovem preto, como ele, tinha para conseguir seus objetivos. Mas nem mesmo ele poderia prever o que aconteceria naquela fatídica noite.
Era uma sexta-feira quando Emanuel decidiu sair para beber. Naquelas noites frias, o bar do Osiris era a melhor opção: além de bebida barata, poderia acompanhar alguns estripes que aconteciam na madrugada e, quiçá, encontrar alguma menina que lhe servisse de cobertor-de-orelha. Contudo, Emanuel encontrou apenas um homem cabisbaixo, sentado em uma mesa do canto e que nem reparava as dançarinas que teimavam em exibir-se naquele pub semivazio. Aproximando-se lentamente, Emanuel sentou-se, pediu um vinho e fez um daqueles breves comentários que se faz a um desconhecido:
- Noite fria hoje, não?
- É mesmo? Se você não fala eu nem teria percebido. – comentou ironicamente Hiroshito.
         Fez-se um silêncio circunstancial, daqueles breves silêncios que se faz quando um desconhecido responde ironicamente a um breve comentário. Depois de algum tempo, entre uma dose e outra, Emanuel já suportava bem o mau humor de seu novo futuro ex-amigo Hiroshito. Ao som do gelo no fundo do copo ou do vinho, que saía da jarra e transbordava àquelas sedentas almas que vagavam as noites em silêncio, à procura de qualquer lógica na vida, mesmo que momentânea, Hiroshito e Emanuel formulavam teorias sobre a vida, contavam histórias de seus passados e faziam prognósticos para todo o planeta, dentro daquele minúsculo bar, entre a fumaça dos cigarros que desenhava formas que, assim como as dançarinas no palco, passavam desapercebidas.
         Após os longos discursos que houve naquele lugarejo, que sucederam o breve silêncio circunstancial que, por sua vez, sucedeu o comentário irônico do desconhecido que, por ora, havia sucedido um daqueles breves comentários que se faz a um desconhecido numa noite fria, ocorreu um novo silêncio. Mais longo do que o primeiro, o novo silêncio trazia em si uma tristeza contida: Hiroshito estava deprimido, além de bêbado, e aquela era a noite em que decidira pôr um fim a todas as suas angústias. Se Emanuel soubesse, com certeza não teria convidado seu companheiro de copo, por assim dizer, para pernoitar em sua casa, a duas quadras do Osiris. Abraçados, saíram os dois a ziguezaguear pelas ruas escuras, a horas em que só distantes sirenes e miado de gatos os faziam companhia, até chegarem ao apartamento de Emanuel. Hiroshito dormiu no sofá, enquanto seu hospedeiro adormeceu na cama, sem sequer tirar os sapatos, e acordou no outro dia, às cinco horas da tarde, na mesma posição em que havia se deitado.
        O mundo já tinha parado de girar, embora sua cabeça ainda doesse, quando Emanuel foi chamar Hiroshito. Antes, contudo, fora à cozinha preparar um chá para ambos, já que provavelmente o japonês também acordasse atordoado. Mas, por pior que poderia parecer, Hiroshito nem acordou. Havia se enforcado junto à mesa da sala.
Emanuel poderia até ficar surpreso, se não tivesse ficado apavorado. Como ele, um jovem negro num país racista, desempregado e pobre poderia explicar aquele cadáver, ali, no meio da sua casa, branco, rico, inerte e teso? E era exatamente o cheiro de complicação que Emanuel sentia no ar: buscara ajudar um desconhecido angustiado e agora a angústia lhe tomara conta por um futuro incógnito que o aguardava e que trazia estampado na cara um sorriso de injustiça. Mas ele não estava disposto a pagar preço algum por aquele cadáver branquela: decidiu jogá-lo, amarrado a uma pedra, no lago da praça central, rumo ao esquecimento e à barriga das carpas húngaras que por ali nadavam. Porém, para isso, teria que atravessar a cidade com um homem morto nos braços, pois não tinha carro e os táxis poderiam ser seus algozes.
         Emanuel esperou a noite cair. Hiroshito já estava começando a feder e seus membros já estavam endurecidos quando Emanuel o vestiu um casaco, uma manta, um chapéu e uns óculos escuros para disfarçar a ausência de vida contida naquele nipônico corpo. Abraçou-se ao finado e saiu de casa assim como chegou: ziguezagueando pelas ruelas.
- Boa noite, Emanuer?
- Boa noite, dona Maria.
- Tá tudo bem cô seu amigo?
- Tá sim, senhora. Ele só bebeu um pouco além da conta.
        Além da conta de dona Maria, sua vizinha na Cohab, estava a verdade, que Emanuel enterraria, ou melhor, afogaria no lago central. Na outra quadra, com a mão de Hiroshito, Emanuel fez sinal ao lotação: talvez o ônibus 476 o levaria mais rapidamente ao centro.
- Tudo bem com seu amigo?
- Tudo, senhor cobrador!
- Ele tá parecendo meio “branco”?!
- Impressão sua... É que ele é oriental. Eu tô levando ele pra casa. Ele... ele saiu agora do hospital...
- Mas como é que deram alta pro rapaz? Ele não está se sentindo mal não?
- Não, não. É que ele é meio quieto, sabe como é.
         Finalmente, depois de uma longa hora de peregrinação com sua cruz, Emanuel chegou à praça. Agora bastava atravessar a ponte, encontrar uma pedra, grande o suficiente para afundar aquele ‘peso flutuante’, e lançar Hiroshito ao esquecimento. Exausto, no meio da ponte, Emanuel viu, repentinamente, aproximar-se um caminhão. Muito veloz, o motorista só teve tempo de tocar sua buzina (uma daquelas sutis buzinas que são peculiares às jamantas) e sentiu abalroar em algo. Emanuel, por sua vez, pulou para o lado e, largando o corpo de Hiroshito, rolou pela estrada.
        Assustado, levantou-se, ainda se limpando da queda, e pôs-se a procurar o cadáver sofrível do japonês, arrastado pelo caminhão que, em fuga, disparara pela perpendicular. Mas, mesmo que sua falta-de-religião não o permitisse acreditar, Emanuel viu Hiroshito em pé, caminhando em sua direção, como se houvesse ressuscitado.
- Hiro... Hiro... Hiroshito? Você por aqui?
- Não, Emanuel... Você por aqui. O caminhão lhe atropelou também.
Duda Keiber
Enviado por Duda Keiber em 13/11/2006
Código do texto: T290123
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Sobre o autor
Duda Keiber
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
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Duda Keiber