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JOSÉ E SEU REBANHO

     Aquele dia não mostrava nada de incomum. José levantou cedo e preparou-se, como de costume, para ministrar o culto de sua igreja. Sua mãe sempre lhe dizia que José era um nome bíblico, inspirado no do pai (ou padrasto) de Jesus. Assim, desde pequeno já tinha o objetivo de ser um religioso quando crescesse. Mais: virou pastor.
      Na verdade, José era duplamente pastor: criava ovelhas nos campos do interior da França, num distrito de Nantes. Enquanto fumava, na noite passada, observava as estrelas e tentava resolver seus problemas do cotidiano. O certo era que ele não sabia o que era mais difícil de pastorear: os fiéis, no caminho do paraíso, ou as ovelhas, no caminho da roça. Os primeiros eram rodeados pelo pecado, por pensamentos e atitudes nefastas e mentes poluídas. Já as segundas eram ameaçadas por lobos. Dezenas de lobos que habitavam as matas da região e apareciam, costumeiramente, para lanchar o rebanho de José.
       Rezou, lavou o rosto, orou, tomou um café e foi à igreja. Entrou, ajoelhou-se e rezou, e foi rezar. Prestou seu sermão aos que não prestavam. Condenou as ninfetas da primeira fila, censurou os pão-duros do comércio, acusou as mães não-prenhes, advertiu as velhas pintadas, repreendeu os que faltaram na semana passada, enfim, escaldou todos aqueles que apresentassem alguma forma de ofensa ou ameaça ao governo justo e democrático de Deus. Depois de duas horas, José convocou os seus (que não eram as ovelhas) ao confessionário: todos deveriam contar ao pastor seus pecados (e as mães ainda advertiam seus filhos: "diga a verdade") e receber - de Deus, via José - as penitências necessárias e devidas.
        Aos poucos os fiéis iam saindo e José, ao final daquela sagrada manhã, estava novamente em casa. Sentia-se, como geralmente se sentia após seus cultos, cheio de luz, afinal, não era fácil mostrar as verdades e soluções, que teimavam em não entrar na cabeça dos comuns e eram de suma importância para que Deus lhes aceitasse no céu, num futuro próximo.
        Como sua missão geralmente lhe deixava faminto e o cheiro de comida que vinha da cozinha lhe entorpecia, José gritou com a mulher para que apressasse o almoço. E como ela muito lhe obedecia, assim o fez. Guloso, empanturrou-se de tal forma que até de rezar esqueceu-se. Foi dormir e pediu que lhe acordassem logo, pois havia de buscar o rebanho que campeava solto nas pastagens outonais. E foi isso que aconteceu naquela tarde: como sempre, José acordou mal-humorado, botou a calça, calçou a bota e saiu para o campo, a buscar seus carneiros.
        Pôs-se, então, a andar pela estrada, sem tirar os olhos de sua Bíblia de bolso. Passando em frente à casa dos Rochefort, viu a bela Brigith, a encerar o chão da varanda. Sua posição fazia ressaltar suas fortes coxas e seus peitos muito balançavam com seu esforço laborial. Suas mãos - cheias de dedos - depositavam pensamentos pecaminosos à mente de José, que, em sinal da cruz, afastou-se de vereda.
        Já no campo, José decidiu lavar o rosto e tomar um pouco d´água, a fim de exorcizar o demônio do mau hálito que assombrava sua boca. Na beira do riacho, lembrou-se de Brigith: o cheiro de mato e o gosto da solidão lhe deixavam excitado, tenro e ereto. E era tamanho seu êxtase que parecia que seu corpo iria disparar sua genitália tal como um canhão dispara seu projétil. Inevitável: José plantou na terra o pecado que dele saíra, namorando consigo durante rápidos segundos.
        Orou, lavou-se e foi, agora sim, resgatar suas ovelhas. Mas o descuido fê-lo esquecer seu cajado na mata e, enquanto andava no campo, notou-se vigiado por uma pequena alcatéia, que o seguia no silêncio. Tentou correr, mas o instinto de caça dos lobos o embrenhou entre as pedras. Exausto, jogou-se ao chão e passou a observar a aproximação dos famintos creófagos. Pensou alto, consigo, entre o uivo da bicharada: "será que Deus está me punindo? Será que minhas obras não são maiores que meus pecados?" Mas os lobos aproximaram-se, ganindo e babando, certamente com o intuito de lhe comer. Levantando as mãos ao céu e encarando as nuvens, clamou:
- Oh, Senhor! Dê sentimentos cristãos a estes lobos.
De imediato o céu se abriu e um forte raio de sol incidiu sobre a matilha. Mas ao contrário do que o pastor esperava, todos os lobos, em círculo ao redor de José, ajoelharam-se, deram-se as patas e rezaram em agradecimento pela merenda circunstancial que ali se apresentava. Depois, serviram-se impetuosamente da carne de José: a voracidade era tal que até a Bíblia do religioso foi comida. Os lobos deitaram sob a longa sombra de um cipreste, perto da ossada do pastor, e descansaram por alguns minutos para melhor digerir a farta refeição. Alguns ainda arrotavam e outros regurgitavam seu animalesco excesso.
       Horas depois, a preocupação levou alguns fiéis ao campo para procurar José, a pedido da mulher. Encontraram, junto de umas peças de roupa rasgadas, um esqueleto que supuseram ser de José. Perto, notaram as marcas dos lobos junto a pedaços de carne vomitados. E foi aí que tiveram certeza tratar-se de José: em meio ao vômito havia apenas um pedaço de página da Bíblia do pastor. O fiel aproximou-se e, sob a baba vomitada, ainda pôde ler: - Apocalipse 10,10: 'Tomei o livrinho da mão do anjo, e o comi; e na minha boca era doce como mel; mas depois que o comi, o meu ventre ficou amargo'.
       E lhes ficou subentendido que o livro não era tão fácil de engolir.
Duda Keiber
Enviado por Duda Keiber em 21/11/2006
Código do texto: T297255
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Sobre o autor
Duda Keiber
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
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Duda Keiber