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SOLDADO FREITAS E CABO VERDE

       Não havia dúvida de que o capitão ficara fulo com o soldado Freitas e o cabo Verde, afinal, não era comum que dois policiais fossem assaltados em plena luz do dia e perdessem as armas e a viatura.
Freitas era novo na corporação. Na verdade, não era novo apenas na corporação: era novo também na vida. Tinha vinte anos e, devido à sua inexperiência, fora designado como auxiliar do cabo Verde.
       Cabo Verde, por sua vez, era um sujeito muito estranho. Seu pai havia vindo de Cabo Verde, país do ocidente africano, vizinho de Senegal, e lhe colocara o nome de um guerreiro local: Matumba. Logo que entrou na corporação, o soldado Matumba sofria com as piadas dos colegas e decidiu que ia se chamar soldado Cabo Verde, em referência à sua terra natal. Soldado Cabo Verde, sim senhor! Mas após sua promoção a cabo, achou repetitivo demais ser chamado de cabo Cabo Verde, fez, então, a elipse do primeiro cabo e virou o cabo Verde. Apenas cabo Verde.
       Perfumado era o apelido do neguinho Luís Paulo, que morava numa favela dos arredores. Seu codinome lhe foi atribuído pelo fato de Luís gostar e abusar do uso de água-de-cheiro. Atualmente desempregado, Perfumado ficava andando a esmo pela vila, fazendo seus trambiques e ajudando a mãe, a qual costumava tratar por Chefe, devido à liderança que ela exercia naquela família sem pai.
E foi num verão que o destino de Perfumado se cruzou com os de soldado Freitas e cabo Verde. Soldado Freitas e cabo Verde há pouco haviam perdido a viatura e suas armas, furtadas pela quadrilha do Zeca Olho, poderoso cabeça da máfia local. Para se redimirem, os policiais resolveram montar um esquema de investigação para a captura de Zeca Olho e a recuperação das armas, do carro, da honra e do prestígio dentro do Batalhão.
        Soldado Freitas ligou, numa manhã de domingo, e contou a cabo Verde que descobrira o paradeiro de Zeca Olho: favela do Pau-pega, rua Dos enforcados, número 90. Àquela hora, uma escuta telefônica ilegal e clandestina ajudaria muito Freitas e cabo Verde a descobrir pistas dos delitos da marginália.
        Justamente o que foi feito, mas com um pequeno porém: os gendarmes grampearam, por engano, o telefone da casa de Izalita, a mãe do Perfumado, vizinha de Zeca Olho. Com muita dedicação, passavam horas e horas escutando os telefonemas de Izalita sem compreender um diálogo sequer. Mas persistiam... Haviam chego à conclusão de que os mafiosos estavam usando algum código para ocultarem suas operações.
- Nós temos que pensar como eles, Freitas. Temos que pensar como eles... - sussurrou cabo Verde.
- Mas como, senhor?
- O que você anotou do último diálogo, Freitas? - Aqui, senhor. - Freitas referiu-se às ligações daquela manhã - Diz assim:
- Alô!?
- E aí, Chefe? É o Perfumado. Tá tudo bem aí? Ta precisando de alguma coisa aí?
- Preste atenção, Freitas. O traficante ligou para esta mulher, que deve ser a chefona. Talvez o nome Zeca Olho seja apenas para disfarçar... Ou a líder não pode ser uma mulher?
- Pode sim, senhor - concordou, de pronto, Freitas.
- Prossiga, soldado. O que mais tem aí nessa fita?
- Perfumado!? Vai ter uma festinha aqui na casa do vizinho, seu Jão, e é procê trazê uns branquinho lá da rua 8. Fala co patrão lá que é pro aniversário do muleque e diz que depois eu acerto o que devo.
- Não sei se ele vai querer liberar os branquinho não, chefe. Ele ainda tem 'as penduras' que a senhora fez no mês passado.
- Mas pelo menos tenta cunsigui um fardo de Coca. Diz que é pra festinha que ele libera. Explica pra ele que depois eu acerto o que devo. Já aproveita e traz o chá que o Tiago gosta.
- Olha aí, Freitas. Olha aí... Festinha no vizinho... Isto deve significar que a droga vai rolar. Os 'branquinho' que a chefe se refere deve ser o crack. Fardo de coca deve ser o carregamento esperado de cocaína. Agora tudo faz sentido.
- Cabo Verde!? Ela ainda pede o 'chá que o Diabo gosta'. Isto deve ser a maconha, não é chefe.
- É claro, Freitas. Muito bem... Está claro... - respondeu, convicto, o cabo Verde.
Depois desta escuta, apenas uma coisa era certa: a máfia iria agir. E assim como ela, cabo Verde e soldado Freitas também iriam. Armaram-se e esperaram o momento certo, à paisana, em frente à casa de dona Izalita. Lá dentro, as crianças corriam ao redor das mesas enquanto os adultos fumavam suas singelas cigarrilhas e bebiam cerveja em copos de requeijão. Os assuntos, dos mais variados, abordavam a vida da vizinhança. E enquanto as cuecas secavam atrás da geladeira velha, cabo Verde e soldado Freitas aguardavam o melhor momento para "abordar os elementos criminosos".
       Alguns minutos depois do Parabéns a você, chegou o Perfumado. Entrou com um embrulho onde trazia os branquinhos requisitados pela Chefe, o chá do Tiaguinho e a nota fiscal das dívidas arroladas no bar do Jão. Mas para Freitas e Matumba, aquilo era o 'corpo do delito'. Carregaram, então, as armas e entraram na casa com o sutil gesto de arrombar a porta e gritar palavras de ordem. Matumba e Freitas, Freitas e Matumba. Atiravam em tudo o que se mexia: crianças, gato, cachorro, Izalita e Perfumado, com um louco desejo de matar o vivo, de parar o móvel, de limpar o sujo, que era sujo pelo simples fato de ser pobre.
        Depois de depararem com todos os corpos pelo chão e com um grande número de crianças, jovens e adultos aniquilados, apenas repetiam, roboticamente:
- Estrito cumprimento do dever legal...
- Estrito cumprimento do dever legal...
        Do outro lado da parede, na casa ao lado, Zeca Olho acordou com o barulho das balas. Ligou, de seu telefone desgrampeado e ordenou que o local 'fosse limpo' por seus comparsas. Em poucos minutos, a máfia de Zeca Olho fugiu. Levou consigo a viatura que era guardada na garagem e as drogas do porão. Carregaram os armamentos e todos os indícios de seus crimes para uma favela distante. Definitivamente a Pau-pega não era um local seguro para os negócios.
Duda Keiber
Enviado por Duda Keiber em 21/11/2006
Código do texto: T297258
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Sobre o autor
Duda Keiber
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
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Duda Keiber