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O PERIGO DA TIMIDEZ




    – O que o Sr. está me dizendo é um insulto! Um ultraje, um absurdo! O Sr. terá coragem de falar isso na presença do Delegado de Polícia?
    O homem que proferia tais palavras passou a mão no gogó... tossiu e, olhando-se no espelho pela sétima ou oitava vez, recomeçou o que estava a fazer...
   – Não admito ser tratado desta maneira; sou um cliente, e como cliente, a Lei me dá todo direito, e é esse mesmo direito que eu estou a exigir.
   – Não, não está bom – pensou em voz alta.
Mudou de estratégia...
   Contorceu o rosto com o objetivo de mostrar que era mau; esboçou um olhar mais sério que antes; olhar de severidade que ele mesmo se assustou, mas continuou:
   – Sou um homem probo. Um homem de moral ilibada e não mereço ser tratado com tal indiferença. Não estou aqui lhe pedindo favor. Estou sim, exigindo o que me é de direito. Estou exigindo meu direito de cidadão.
Sentindo-se satisfeito, dirigiu-se até o órgão onde iria resolver o problema. Ao aproximar-se do balcão fez cara feia e, quando se preparou, como fizera frente ao espelho...
   – Pois não, senhor, em que posso lhe ser útil? – Interrogou-lhe uma bela e carismática jovem que estava detrás do balcão.
   Ele, que já se preparava para retaliar aos insultos que imaginava receber na repartição pública, engoliu a seco, e com surpresa nada respondeu a jovem. Afastou-se, decepcionado, enquanto a balconista, sem entender a reação do homem, ficou a olhá-lo enquanto ele se distanciava.
Já em sua casa...
   – Droga! Não foi aquilo que eu esperei. Agora o melhor que eu devo fazer é voltar lá e pedir desculpas. Não que a tenha maltratado. Desculpa por deixá-la confusa; sem lhe dar uma explicação.
   A partir daquele instante a reação seria outra, pois, seria algo diferente...
Confrontando-se mais uma, dentre tantas vezes com o espelho...
   – Bom dia. Como vai, tudo bem? Espero que sim, bela e fascinante jovem.
Percebeu que a sua tez estava contraída, como das vezes anteriores quando encarara o espelho.
   – Meu Deus... eu não posso mostrar essa cara incholenta. Se vou encarar uma bela e simpática jovem, devo sim, mostrar face alegre, face jovial.
Continuou a cada instante a melhorar o sorriso.
   – Agora, sim. Agora está excelente. Seu semblante demonstrou satisfação, reação totalmente contrária à reação inicial.
   Ao adentrar no recinto, ainda com ar jovial e a sorrir, nem mesmo olhou quem estava por trás do balcão ...
   – Bom dia, colega...como vai, tudo bem?
   – Olha, agora que você chegou, com tais galanteios mina, melhorou, pois o dia estava muito sem graça. – respondeu um homem com maquiagem feminina que começou a sorrir, e com uma das mãos alquebrada, a sustentar o queixo, falou:
  – Olha, Bete, eu não te disse que todos os homens, no fim são umas doçuras...



   Este trabalho está registrado na Biblioteca Nacional-RJ
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 28/11/2006
Código do texto: T303771
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
102 textos (5965 leituras)
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carlos Carregoza