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Mascate


Todos os meses, mesma data. Dia dez chegava o mascate, para alegrar a pequena cidade do interior de Pernambuco: Gameleira.
Novidades trazidas de Recife.  panos e trecos. Vendia brilhantina, grampos, cadarços, perfumes e batons...
A festa era grande com a chegada de seu José. Nem parecia que era tão idoso; caminhava na chuva e no sol, carregando malas, com a ajuda de um carro de mão. Todos os meses, pedidos eram satisfeitos. População ávida de esperança – esperança de  ficar mais bonita, de combinar cheiros, misturando mato com perfumes.
Era muito paciente com todos, ajudava na escolha de marrafas, diademas, pentes de todos as cores e brilhos.
Eu ficava perto. Bem perto, sem tirar os olhos do meu desejo.
Queria-o tanto para mim. Mas minha avó só pensava em elásticos, bicos e fitas. Também, não estava com muito dinheiro. Mas daria para comprar o que eu tanto queria. Daria...
Eu pegava nele, cheirava, passava no rosto. Sentia um arrepio, de tão macio que era.
O mascate dizia sempre: guardo pra você, Feliciana. Verá que da próxima vez, você compra.
Mais um mês se passava e logo outra lua. Outro dia dez chegava.
Lá vinha o encanto de um teatro – colorido, perfumado e cheio de gente ao redor; cada um que segurasse a sua compra enfeitada de magia.  Pessoas iam e vinham; esqueciam de algo e compravam mais... E eu? O meu sonho acabaria voando! Só de pensar, dava um nó na garganta; não haveria de ser. Era só o que desejava para mim. Conseguiria, pensei.
Lembrei de repente, do meu cachorro. Sutão mancava da pata esquerda, era bonito e brincalhão. Grande e preto; manso e de doce olhar.
Fiz negócio com o vendedor: Trocar o animal pelo lenço. Lindo, fino, azul. Com ele chegava à imaginação da felicidade e poder - Ás pessoas iriam pensar que eu já era uma moça, e bonita. Teria valor!
Mas, minutos depois, me olhando no espelho, fui tomada de uma grande tristeza...
Corri, corri tanto a procura do homem, não importando o quanto doíam meus pés descalços...
Enfim, encontrei os dois. Peguei meu animal de estimação de volta; devolvi o lenço, sem a graça do encanto.
Com olhar interrogativo, ele me seguiu, com sua lealdade de sempre. Caminhei devagar para casa. Estava com muito sono. Só queria agora,voltar a pensar, amanhã.
Verônica Aroucha
Enviado por Verônica Aroucha em 27/07/2005
Código do texto: T38017

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Sobre a autora
Verônica Aroucha
Recife - Pernambuco - Brasil
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Verônica Aroucha