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Texto

A ampulheta


                   Após mais uma vez ter escapado por algum milagre da morte o pai obrigou a menina a irem visitar o frágil avô.Por trás das cortinas era para parecer que eram uma ilusória perfeita feliz completa família e dar algum conforto ao velho que não tinha mais saída.
                   Chegado ao destino após as bençãos acabou que a menina foi conduzida à dispensa.Era tão velha quanto o exterior e talvez o interior do avô.Ao ir vasculhando os velhos objetos empoeirados acabou que a luz da tarde que entrava pela janela conduziu os olhos para pontinhos brilhantes que se movimentavam de um jeito muito imprevisível.Por trás deles uma ampulheta se revelou.Sem pensar a menina correu ao encontro daquele estranho objeto que nunca vira e virou-o rasgando as incontáveis teias de aranha, derrubando a aranha morta presa em sua própria teia para ver o que acontecia.Nada.Espera um pouco...só isso?!Que sem graça.Pelo orifício que ligava os dois extremos de dois tempos distintos saía tão pouca areia fina que parecia que a parte de um nunca mudava.Desistiu de encarar o objeto por muito tempo e foi tentar achar outras coisas mais interessantes.Achou jornais mofados que dentro escodiam revistas de mulheres peladas também mofadas.Que nojo!, foi o que pensou e derrubou tudo no chão.Achou latas enferrujadas que dentro guardavam bolas de vidro.Havia muitas!Para que tantas bolas?Para que serviam?Livros com buracos e folhas bem amareladas vasculhou e viu que não entendia uma só palavra!Que palavras esquisitas!E se coçou em seguida.Logo ela que era a melhor aluna de português da sala.Até medalha tinha ganhado semana passada.Motivo de orgulho para seu pai...e mãe.Voltou a olhar o objeto.Nenhuma mudança.Haja paciência!Tentou ver o que havia pela janela, mas a janela era muito alta...ou será que ela que precisava crescer um pouquinho mais?Ainda esperava pelo dia que sua mãe chegaria de viagem.Que viagem tão demorada era essa?Seu pai ficava furioso sempre que ela fazia essa pergunta e depois de receber broncas ouvia pela porta do quarto de seus pais um choro abafado.Parecia que agora só eram os dois.Três com o avô, apesar de perceber que seu pai não se entendia muito com seu avô.Não tinha muitas recordações de sua mãe...a não ser um esboço que parecia uma voz distante...voltou a olhar o objeto e nada havia mudado.
                   Cansada resolveu voltar onde seu pai se encontrava momentos antes.Encontrou-o ditando frases com um vocabulário demasiadamente prolixo que ela e o avô não conseguiam compreender.Aquela por inexperiência e este pela velhice que afetava suas faculdades mentais e pela surdez de um de seus ouvidos que até hoje não sabia qual.A diferença era que o último recebia gritos ao tentar perguntar e assim apenas escrevia com sua trêmula mão no papel branco.O pai ao perceber que a pequena menina via tudo aquilo apenas falou:
                   -Minha pequena!Há quanto tempo você está aqui?
                   A filha segurou as lágrimas que pesavam em sair de seus olhos.Como queria usar óculos.Um de seus professores usava um durante a aplicação de provas por achar que seria mais seguro à visão...tinha um amigo também inteligente que usava óculos.Como ele era bonito, apesar de não saber o que...ainda iria contar para ele o que ela sentia.
                   Não podia ver o avô totalmente de onde estava pois ele estava sentado numa fedorenta poltrona que cheirava a urina situada na sua frente a não ser uma mão cheia de pregas, de traços e um pouco deformada e uma perna coberta por uma calça aconchegante.Pelo barulho incontrolável do avô podia-se claramente perceber que tentava em vão esconder o seu choro.Homem não chora!Sempre falara isso...se bem que não era mais homem e sim um inútil velho...
                   A menina apenas correu deixando uma trilha de lágrimas pela casa que conduziam à dispensa agora trancada.Havia entrado e trancado a porta.Derramava pela face pureza que se convertia em sujeira no chão.Percebeu que o chão de repente tinha muitos bichos.Uns vivos, outros não.Assustada se pôs a gritar.Tinha medo e um nojo tremendo por insetos.Subiu numa cadeira e olhou para a janela.Podia escapar por ela já que a porta estava muito longe e além do mais parecia que seu pai não tinha ouvido os berros.Porém a janela estava muito longe.Desesperada viu que em cima da cadeira estava segura e olhou para o objeto.Como em um passe de mágica a areia se encontrava quase toda no extremo mais próximo da mesa de madeira.Enquanto pensava a areia toda passou pelo orifício.Não teve tempo suficiente.Nisso seu pai gritou de uma forma tão estrondosa que conseguiu ouvir claramente:
                   -Não!Meu querido pai!
                   Seguiu-se um silêncio.A menina tomou coragem e correu até a porta passando pelo chão totalmente coberto de insetos.Como havia aparecido tantos insetos de uma vez nem sequer apareceu na cabeça da menina.Abriu a porta e saiu da dispensa.Sentia um cheiro de terra e grama molhada e tinha a impressão de que a dispensa se dissolvia a medida que se afastava.Não tinha coragem para olhar para trás.
                   Encontrou o avô falecido.Sua face estava como distorcida e irreconhecível.Os olhos revirados e da boca saía um incontrolável jorro de baba e espuma que inevitavelmente manchou o papel não escrito totalemente.O pai berrava e chorava.
                   A menina ouvia a reconhecível voz de sua mãe.
Victor Ricardo
Enviado por Victor Ricardo em 21/12/2012
Código do texto: T4046883
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Sobre o autor
Victor Ricardo
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 96 anos
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