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Fábula do beija - flor.

Mais uma vez, como de costume, ele pegava nas extremidades com as duas patinhas uma folha de limoeiro, dava um mergulho no lago e seguia voando, carregado de água, em direção à floresta.
 Seus pulmõezinhos já estavam acostumados a puxar o ar dobrado, as asinhas também batiam mais depressa, mesmo assim, ele voava mais devagar, e os outros beija - flores caçoavam de sua lerdeza:
- Largue esta folha cheia de água e tu voarás como nós! Ou tu não queres chegar até o Jardim das Quimeras e provar o melhor néctar das flores?
- Querer eu quero! Mas acontece que há uma floresta pegando fogo nos separando do jardim.
- Mas se tu largares esta folha, voarás como eu, tão alto que não vais nem enxergar o incêndio! - Este era seu problema, o beija - florzinho não conseguia olvidar o incêndio. Ele não via graça em provar o néctar das mais maravilhosas flores, sabendo que o fogo cauterizava o canto das cigarras, apagava a luz dos pirilampos, queimava o ninho dos bem - te - vis, desorientava as formigas operárias, desabrigava antas, jaguatiricas, capivaras, etc. E, sem balbuciar um gemido de fadiga, ele ignorou os comentários do companheiro e seguiu voando raso.
Mas os sonhos voavam alto, pois ele queria que cada beija - flor encontrasse o seu jardim, que cada lambari encontrasse o seu riacho, que cada minhoca encontrasse a sua terra, sem se preocuparem com o fogo ateado pelos animais racionais.
No meio de toda esta divagação, o beija - florzinho se viu no meio da fumaceira, ele já não enxergava nada a sua frente, e já meio tonto foi cambaleando em direção ao chão. Antes de tocar a terra, as labaredas já haviam tocado suas penugens. Foi quando, sem força alguma, largou a folha cheia de água que apagou um pouquinho o fogo e possibilitou o seu pouso.
Sabendo que poucos minutos de vida lhe restavam, o beija - florzinho falou:
-És mais forte que eu, e esta é a minha penitência só por sonhar? Eu devia era ter voado alto para escapar de tuas chispas, eu poderia estar agora no jardim me deliciando com néctar das flores. Mas eu não sou lenha seca para  arder nas chamas, tenho alma! Queimarás o meu corpo, mas não queimarás os meus sonhos! - A folha já tinha sido consumida pelo fogo, a água já havia se evaporado, o oxigênio dava lugar ao monóxido de carbono e, num último olhar de renúncia a vida, que ele viu o milagre acontecer. Uma nova folha caindo em sua direção trazendo água para amenizar as chamas em sua volta.
Em meio a  fumaça e o calor, ele puxou pouco ar que ainda restava e voltou a bater suas asas. E já a salvo do incêndio ele perguntou ao nada:
- O que eu fiz para ganhar esta chance??? -Eis que insurge - se em sua frente uma bela beija - flor de olhinhos cintilantes e lhe responde:
-Por bater as asas mais depressa, por puxar o dobro de ar nos pulmões, o teu coração  não pulsou só o teu. E então, por isso, joguei a folha!
*E que o beija - flor estava fazendo a parte dele vocês já sabiam é claro!



Hermison Frazzon da Cunha
Enviado por Hermison Frazzon da Cunha em 30/09/2005
Código do texto: T55177
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Hermison Frazzon da Cunha
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 37 anos
103 textos (27010 leituras)
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Hermison Frazzon da Cunha