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O Artista


     Eu sempre tive meu coração e também minha mente voltados para as artes, muito embora nossa relação não se pudesse considerar um idílico romance. Muito pelo contrário – era eu um ser completamente apaixonado, conquanto não soubesse, em nenhum tempo de minha vida, a qual das sete devesse devotar o meu amor. Eu nasci para as artes – era uma certeza desde o princípio! – e as amava, profundamente... Mas me faltava o discernimento ou a iluminação que me indicasse a qual delas acenderia o fogo sagrado no altar de minha alma sedenta. Eu amava a todas – porém, todas me ignoravam...
     Não é minha intenção agora impingir um tom lamentoso em minha digressão sobre minhas paixões não-correspondidas e, por isto, amealhar compaixão por meus penares. Não é verdade! Não lamento minha vida e não busco expurgá-la de minha lembrança. Antes, quero manter estes sentimentos à luz da razão para que compreenda com nitidez de alma cada passo dado em minha tortuosa jornada pela inexistência. Talvez seja paradoxal dizer que tenha inexistido enquanto vivesse e não lamentar nem um nem outro, mas todos nós assumimos posturas conflitantes às vezes – e carecemos o aprendizado que acarretam estas posturas. Talvez seja obra do destino. Talvez alguém ainda me responda às dúvidas que fervilham no interior de minha essência... Mas deixemos disso! Tivesse eu ao menos o dom da palavra – e clareza de idéia – e não estaria cá dando voltar e voltas, sem me ater ao principal que é narrar, sem delongas, as peripécias deste amor...
     Bem! Eu amava as artes, desde o primeiro instante em que tivera consciência de mim mesmo. Talvez mesmo antes de aprender a falar eu já o sentisse. E por toda a vida persegui o sonho – e foram muitas as tentativas, mas todas se revelaram infrutíferas ao longo dos anos. E foram muitos anos!Se foram! Mas desde menino – logo nos primeiros anos – eu ansiava do fundo de meu coração aplacar a vontade que me corroia por dentro, embora não soubesse exatamente o que me acontecia. Vinha-me do mais íntimo de meu coração e aflorava, determinando meu caminho e nada havia que eu pudesse fazer. Deixava-me conduzir e pronto!
     E assim foi, tanto que nos primeiros anos de escola eu estava sempre disposto a colaborar nas apresentações de alunos em comemorações de datas cívicas. Era sempre o primeiro voluntário para subir ao palco da escola e declamar, o primeiro a me oferecer para este ou aquele papel no teatro – e o primeiro a fazer com que minhas professoras se questionassem se haviam mesmo escolhido a profissão certa. Entretanto, a cada tentativa eu me revelava um fragoroso desastre com as artes cênicas, sempre provocando reações contrárias ao desejado. Quando eu queria fazer rir, choravam! Quando o ato era solene eu arrancava risos. Isso quando eu não causava tragédias físicas como cair ou derrubar alguém do tablado, quando não fazia os cenários de papelão pintado desabarem ao menor toque... Até que em uma dessas tragicômicas apresentações minha professora do terceiro ano – não sei se por amor a mim ou se às artes – baniu-me definitivamente dos palcos. E daquele dia em diante eu me tornei apenas um taciturno espectador, escondido na última fila da platéia. Tivesse ela um pouco mais de paciência e talvez eu viesse a ser um ator. Ou pelo menos poderia me transformar em um orador razoável. Perdi a carreira e a chance de ser político...
     Tal fato não me suscitou a revolta e não desanimei. Um clamor dentro de mim ainda falava mais alto. Pus-me a garatujar e a rabiscar o que eu chamava de meus primeiros desenhos – embora outros dessem outros nomes. No início era difícil expressar a arte que eu transpirava – parecia mais tendente ao cubismo, dadas as estranhas criaturas que eu retratava, mas consegui firmeza no traço e comecei a dar um contorno definido nos desenhos, de modo que – com certo esforço – as pessoas os compreendessem. Não durou muito esta paz, porque fui apanhado em plena sala de aula exemplificando o uso das partes menos conhecidas da anatomia humana. Traçava, de memória, o que fora um encontro proibido entre a empregada do vizinho com o marido da outra vizinha. Minha mente infantil precisava eternizar as impressões nela gravadas. Não havia nada de errado! – eu pensava. E desenhava com preciosos detalhes, tamanha fora minha excitação e atenção ao proibido encontro ao qual presenciei sem ser convidado. O problema talvez tenha sido o caderno de português. Tivesse eu escolhido o caderno de artes... Mas foi exatamente aí que a mão da professora se fez sentir mais uma vez – literalmente – quando, compreendendo o que eu tentava representar, agarrou-me pela orelha e conduziu-me para a sala da diretoria, arrastando-me escada abaixo com uma mão e na outra levando a prova de minha agressão à sagrada gramática. E neste dia eu quase me tornei o novo Van Gogh... Quase!
     De uma só vez fui desestimulado de várias artes. Pela incompreensão daquela mulher cruel eu não dei um único passo no caminho da arquitetura. Para ser arquiteto eu deveria desenhar e isso me apavorava. Gravura então, nem pensar!
     Fiquei sem muitas opções. O tempo passava e eu não me sabia artista, mas me sentia um. E já com a juventude fluindo à revelia da vontade, atingi a idade em que os poetas nascem. Os poetas surgem com a primeira grande paixão – e comigo não foi diferente! Apaixonei-me e desandei a fazer versos... Creio que desandar talvez seja o verbo que melhor exemplifique a ação, no sentido mais intestinal da palavra... Meus versos não tinham apenas um pé quebrado. Pior que isso, eles eram a própria encarnação de Quasímodo, tantas eram suas deformidades. As rimas não eram pobres – já nasceram pedintes! Contudo, as moças adoravam versos e, desta forma, perdoavam os deslizes de linguagem – uns diriam avalanches – a ponto de eu próprio me acreditar poeta. Admito até que ao longo dos anos e das paixões eu tenha conseguido superar os desastres iniciais e escrever coisas razoáveis – mas jamais algo que pudesse fazer Camões piscar um olho. E centenas de poemas depois eu me dei conta desta verdade e abandonei a pretensão da imortalidade.
     Tendo aquietado a alma dos poetas – que muito me agradeceriam se pudessem – resolvi fazer uma incursão em outra das artes e descobri a música... A princípio eu cantava no banheiro. A intimidade do banheiro não foi suficiente para poupar meu espírito cantante de outros ataques. Não escapei da crítica doméstica e por dezenas de vezes fui vítima da falta de energia elétrica – obviamente provocada, mas que sempre causava um profundo efeito... O repentino esfriamento da água me calava as cordas vocais. Esta medida não era punitiva, visto que assim poupavam-se as janelas do banheiro, vez por outra atingidas por uma pedra atirada da rua ou pelos vizinhos descontentes com meu gosto musical. Tantas foram as críticas que levei em consideração algumas coisas e mudei – ainda insistindo na música – para a execução de instrumentos. Executar depois, torturar antes! – era o que me diziam os amigos. Eu os ignorava a todos e por isso me presenteei com um velho violão. Era um velho pinho com trastes já escavados por unhas duras e sujas, arranhado aqui e ali. Um violão bem surrado, mas que tinha muita sonoridade. Isso tinha! Pelo menos antes que eu lhe pusesse as mãos, porque daí em diante eu passava à categoria de carrasco do Santo Ofício aos ouvidos de qualquer ser vivente – incluindo cães, gatos e até ratos – num raio de cem metros. Alheio, como sempre, eu ignorava tudo. Não me faltava persistência. Só mesmo o talento! E continuava a dedilhar as seis cordas até conseguir algum resultado. Resolvi compor e consegui algumas vezes colocar melodias simples nas velhas poesias. Eram canções simples que eu fazia por gosto – e por desgosto dos outros que não suportavam ouvir...  Numa certa feita resolvi fazer uma serenata para uma jovem para uma jovem muito bela e que me arrancava muitos suspiros. Escolhi minha melhor canção e me postei diante da sacada. Mal comecei e a moça surgiu deslumbrante na sacada florida, sob a luz de um luar maravilhoso... Lembro-me muito bem daquela noite. Só não me recordo exatamente de com o que ela me presenteou, mas guardo com carinhos os dezessete pontos e um ligeiro afundamento craniano. O violão, infelizmente, não sobreviveu à serenata...
     Certos lapsos em minha mente talvez se justifiquem por estes pequenos incidentes, mas acabo me recordando de tudo, como agora me volta à lembrança o tempo em que tentei ser dançarino. Era um anseio remanescente do tempo em que via os filmes de Hollywood e me deixava sonhar com os grandes musicais. Minha tentativa de aprender a dançar se revelou um pouco desastrosa, mais que as outras incursões artísticas, embora pouco se acredite... Mas cheguei mesmo a conjeturar tal possibilidade. E só desisti após as incontáveis cirurgias que eu realizei durante os bailes, com pisadas milimétricas, com as quais arranquei muitos calos e unhas encravadas. Nem levo em consideração o maxilar de alguém – não me recordo de quem foi – que quebrei imitando os astros do cinema. Não! Claro que eu não imitava gangsteres ou lutadores! Era mesmo o Fred Astaire, dançando com Ginger – acreditem ou não! Por esta e outras, a carreira acabou dançando...
     O tempo passou e nele me consolei de todos os fracassos anteriores. A experiência frustrada com desenhos na infância podia ter me afastado da pintura, mas as artes plásticas ainda poderiam me oferecer alguma coisa. E resolvi esculpir. Creio até que esculpir seja uma palavra excessivamente forte para definir o que eu fazia... Em minha autocrítica – que eu sempre possuí – acredito que as vacas e cães conseguiam deixar em seu caminho obras menos amorfas que as minhas... E ainda que eu tentasse lhes adjetivar como arte moderna, seria moderna demais! De vanguarda somente me aconselhavam uma parte do epíteto. Diziam-me sempre: “Guarda!” Já os mais íntimos insistiam para que eu escondesse... Acho até que foram insensíveis, porque vi esculturas muito estranhas além das minhas – e estavam expostas. Mas de qualquer modo, como sempre, acabei desistindo.
     Esquecendo – de propósito – outras incursões mal-sucedidas e com a absoluta falta de recursos, acabei por me empregar como lanterninha de cinema – profissão que nem existe mais – e me permiti envelhecerem os sonhos, filme após filme, dia após dia... A ilusão do cinema era minha própria ilusão, que eu abandonava aos poucos... Teria sido este emprego meu único contato com a mais jovem das artes – que uns dizem a sétima arte – se o destino não me sorrisse ao menos uma vez. Ele me reservara algo mais íntimo quando tudo parecia terminado. Quase por acaso fui escolhido para figurar em uma cena de batalha em um filme de verdade. Parecia sonho, mas não! Era a realidade. Certo diretor de cinema escolhera a cidadezinha do interior para as filmagens e arrebanhou parte da população para a figuração. Não havia pagamento, mas recebíamos as roupas e algumas instruções. Era a grande chance de minha vida e eu não poderia desperdiçá-la facilmente. Ansiava me colocar frente às câmeras e dar o melhor de mim. Percorria emocionado todo aquele cenário que era preparado, acompanhando o fervilhar de gente em torno dos últimos detalhes, antes que o diretor dissesse a palavra mágica: “Ação!”. E quando ele a disse, o mundo parecia ruir ao meu redor. Fiquei extasiado e executei com classe o meu pequeno papel. Participei ativamente da “batalha”, mas quis ficar próximo demais das câmeras... Acabei sendo atingido por um dos astros que vinha a cavalo e caí, mortalmente ferido, diante da câmera, que fechou em close. O final da cena foi editado e cortado do filme, porque deixei nos lábios um sorriso de extrema felicidade – o que não foi compreendido pelo diretor...
     Posto isto, São Pedro, e visto que não me conspurcaram pecados maiores que este meu inefável desejo pelas artes, termino minha confissão de vida e pleiteio uma vaga aqui no céu. Fico feliz, porque cá de fora já consigo ouvir o coro dos anjos e o som das harpas celestiais e gostaria de experimentar. Teria a eternidade inteira para aprender...
São Pedro olhou diretamente em meus olhos, com um olhar feroz. Era um olhar penetrante, que nem mesmo dois mil anos conseguiram amansar. Ele disse:
     — Filho! Conhecemos bem a história de cada um que aqui chega. É meu dever permitir que tu entres, porque enquanto viveste, ensinaste a muitos a paciência e a compaixão... Em tuas buscas foste um instrumento para o aprimoramento espiritual de muitos dos que aqui estão, bem como de outros que ainda virão depois de ti...
     — Obrigado! – respondi emocionado e quase gaguejando.
     Dito isto, quis me adiantar para adentrar pelos portões do Céu, mas São Pedro barrou-me com um gesto de mão e concluiu:
     — Espera! E escuta! Se o nosso amado Pai nos ordena, devemos transigir. Mas eu te advirto: Entrarás, mas antes vais me prometer que esquecerás esta coisa de artes aqui no Paraíso. Melhor que isto, tu vais me jurar por Deus! Porque do contrário eu mesmo te atiro de cabeça direto no inferno, para que tu aprendas lá embaixo a arte que eles praticam e devem saber ensinar muito bem...
     Tentei argumentar, mas ele só me olhou e me calei.
     Entrei, mas ainda pensando em quanto é longa a eternidade... Não me fariam mal umas aulas de harpa... E me adivinhando o pensamento ele me olhou pela última vez, enquanto eu me afastava dos portões e adentrava finalmente no paraíso...
Poeteiro
Enviado por Poeteiro em 09/10/2005
Código do texto: T58003
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Poeteiro
Santos Dumont - Minas Gerais - Brasil
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