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Entre Penhascos

Entre Penhascos

De tubinho verde desceu do jipe. Andava ligeiro até o cerrado. Uma nuvem de poeira marrom ficava pra trás.
   Não sei pra que estas cercas. Meu mundo é aqui...
Galhos e algumas folhas ásperas grudavam na roupa e no céu o sol vermelho se escondia.
Lígia atirou as sandálias pra longe e se debruçou no lago. Olhava fixamente seu rosto. Reparou nos olhos. Brilhavam. Jogou o vestido no arbusto... Parecia pequena entre os penhascos.
    Espero não maltratar esta flor linda e estranha. Tão branca e tão grande. Saudade...
Banhava-se.
    Por quantos anos trabalhei naquela repartição fazendo parte de processos sem fim? Era tudo um engano, nada havia concluído. Equívoco das duas partes. Quero afastar da minha cabeça aquele dia. Fica no passado.
A água parecia estar fria; o lago era raso. A paisagem era quase irreal. Pequenas árvores e troncos retorcidos, lembrando corpos inertes. Silenciosos espectadores.
   Deus, que cheiro de frutas! A maldita mala irá apodrecer na escada. Alguém pega e fica com ela; será útil, espero. Irei massagear meus pés com esta pedra.
Ela chorava. Ela ria. Não percebeu que já escurecera.
    Que loucura, nem um bilhete. Irão pensar que fui seqüestrada. Mas Lindinha irá saber; falei pra ela no dia do aniversário. Ainda bem.
Mergulhou.
    Quantos copos caíram?  Feia a cicatriz na mão. Acho que foram uns cinco, seis copos.
As gaivotas voltavam ao ninho, ou estavam perdidas. Faziam muito estardalhaço. Talvez uma festa...
Lígia começou a tremer. Estava pálida.
   O pequeno apartamento girava e me oprimia o peito – como se não houvesse ar. Rasguei todas as fotos e todas as gravatas e muitas camisas. Deixei algumas roupas. Não tenho o instinto tão mal... Mas deveria ter deixado tudo como estava. Agi por impulso; tolice. As marcas estavam em mim ainda. Já se passaram quatro anos.
   Que delícia este lugar...
Vestiu-se rápido. Sorriu. Olhava para cima.
    Ele já fez o fogo.
A fumaça saía pela chaminé. Caminhou devagar.
    Quero sentir cada instante dessa espera. Estou toda amarrotada. Pela primeira vez estou inteira. Será que ele ainda gosta dos meus cabelos? Estão molhados...
    O céu é meu – ele me disse naquele dia...As estrelas, as estrelas, as estrelas!
Abriu a porta da cabana e o abraçou ali mesmo, na rede.



   


Verônica Aroucha
Enviado por Verônica Aroucha em 13/10/2005
Código do texto: T59389

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Sobre a autora
Verônica Aroucha
Recife - Pernambuco - Brasil
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Verônica Aroucha