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Matemática poética

Era uma vez, um singelo rapaz amante da poesia e fascinado pela viagem sem destino e sem propósito, em sua vida havia um só objetivo: Viver.
Durante toda a sua vida, conheceu cidades e pessoas, pode provar de vinhos e queijos que em troca destes, dedicava poesias paras os anfitriões, poesias repletas de sonhos e desejos e todas deixavam claro que não tinham um fim.
Certa vez, ele chegou na cidade de Ábaco. Diferente das outras, os habitantes pareciam assustados e observavam o forasteiro de longe, temendo talvez ser um bandido. Munido de caneta e papel, o jovem poeta aproximou-se e sugeriu uma troca, poesia por comida, mas as pessoas se escondiam ou fechavam as portas. O nosso poeta, já estava quase sem forças, tinha viajado longos quilômetros e o cansaço era visível.
Percebendo falta de hospitalidade daquela cidade, o jovem poeta decidiu partir e entrou na floresta que rodeava a cidade procurando um atalho e quem sabe, algo para comer. Alguns metros depois, ele foi surpreendido por uma mulher, linda, perfumada, deslumbrante e estonteante... por alguns minutos a fome passou, o cansaço pareceu distante. Sem saber o que dizer, o surpreso poeta balbuciou algumas palavras, mas foi interrompido pela fantástica mulher, perguntando se estava com fome e cansado. Meio desnorteado com a beleza que estava em sua frente, ele respondeu que sim.
A mulher saiu em direção ao centro da floresta e o poeta a seguiu. Uma suave música que parecia sair das árvores tocava seus ouvidos e ele entrava em uma espécie de transe, seus pés quase não sentiam o chão, e sentia aquela música penetrar em sua alma. Minutos depois, ele se deparou com uma casa diferente de qualquer casa que já tinha visto antes, a porta era em formato do número quatro, as janelas tinham a forma do número oito, o jardim tinha flores em formato do número um. O poeta ficou bestificado, sem palavras, quase sem ar. A linda mulher chamou alguém que tinha o nome de Porcentagem. Curioso em conhecer a pessoa, o poeta esticou o olhar para a porta de onde saiu uma mulher com um vestido repleto de números e sinais matemáticos trazendo em uma das mãos um pijama igual ao vestido que usava, em seguida, a anfitriã chamou outra pessoa de nome Dezena, e como era de se imaginar, saiu de detrás da casa outra mulher montada em uma bicicleta que tinha o formato do sinal de subtração, em sua garupa ela trazia uma cesta cheia de frutas. O faminto poeta já esquecera da beleza de sua anfitriã, a fome falava mais alto e o cansaço voltara. Sem perder tempo estirou o braço em direção a cesta, mas foi interrompido com a misteriosa mulher que o convidou a entrar.
Naquela altura, o nosso jovem poeta já não sabia o que pensar, aquilo tudo era estranho, haja vista que não fora bem recebido pelos moradores. Mas quem era aquela mulher? Em alguns momentos cantava uma música que dizia: “tenho três catetos no deserto da centena, que irei desmontar... já tirei a raiz quadrada e a soma do primeiro quero ver se subtraio o cubo do segundo que está no terceiro...” ? Nada respondia sua pergunta e não lhe restava alternativa a não ser entrar em sua casa.
Como é deslumbrante! - pensou o poeta – a fome já não mais trazia em seu corpo, aliás, seu raciocino lhe sumira, agora aquelas fórmulas escritas nas paredes, números e mais números impressos em vários quadros negros, algumas outras pessoas escrevendo cálculos invadira seu mundo e o deixará inerte, como era fascinante... antes de mais nada, nosso poeta perguntou a sua anfitriã o que era tudo aquilo, para que tantas cálculos e fórmulas, sem perder o ar misterioso, a mulher lhe respondeu: “eu sou a feiticeira Álgebra, este é o meu mundo, o mundo dos números, o mundo dos cálculos, e tudo o que existir referente a eles, sou eu quem resolve. E agora você será meu escravo.” Assustado, - o agora desesperado poeta – olha-a com um semblante repleto de medo, associa o medo que os habitantes da cidade demonstrou  ao comportamento da feiticeira, e sem demorar tenta fugir, mas é impedido por longas cordas trigonométricas que saiam das mãos de Porcentagem, fugindo para o outro lado, Dezena atira grampos geométricos que imobilizam o encurralado poeta. Álgebra se aproxima e olhando no fundo dos seus olhos lhe dá duas alternativas: “Ou você se une a mim ou será transformado em uma raiz quadra para sempre”. O poeta estava desnorteado, e perguntou: “como poderia juntar-se a ela se ele nada sabia de cálculos?” A verdade é que a feiticeira queria introduzir sua magia na poesia do poeta e enfeitiçar a todos.
Pobre do nosso poeta! Estava encurralado naquela casa estranha e ainda tinha em seu encalço uma poderosa feiticeira, não lhe restava nada além de juntar-se àquela criatura, em compensação ela é linda – pensou o poeta -.
Anos se passaram e o poeta – obrigado – camuflava as fórmulas da feiticeira em suas poesias e assim, a feiticeira ia conquistando o mundo. Em meio a todo este processo, o poeta descobriu que estava amando. Como posso amar aquela criatura? – indagou o poeta – mesmo com toda aquele desejo de conquistar o mundo, o poeta descobriu que a feiticeira tinha coração e era capaz de amar. E já estava amando. Em meio todo este questionamento e análise, ele descobriu que a feiticeira estava amando, e amando ele.
Era só festa, o poeta antes triste, agora vivia cantarolando e sorridente, seu astral contagiou a casa e todos já não mais o tratava como escravo e sim como membro. Certo dia, o poeta fez uma poesia para a amada – já não mais feiticeira – repleta de carinho e afeição, todo o seu coração foi derramado naquele papel e lembro-me de uma frase que dizia o seguinte: “... o que me consola é a certeza de que um dia terei você em meus braços...” A sua musa ficou enfurecida quando leu a poesia, disse que era ousadia da parte dele direcionar aquelas palavras envenenadas contra sua ama... o poeta entristeceu-se e questionou: “mas você me ama” e com um olhar frio respondeu: “amo as suas poesias,. Que juntas com o meu feitiço, me dão poder.” A feiticeira já tinha dominado todo o mundo, e percebendo a inutilidade do poeta, transformou-o em um sinal de infinito, e contam que até hoje o poeta sofre de amor pela feiticeira.
Michel Leal
Enviado por Michel Leal em 24/10/2005
Reeditado em 19/02/2016
Código do texto: T63017
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Michel Leal
Salvador - Bahia - Brasil
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