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Ao fundo do sonho (Cap I)

A porta pequena da casa pequena estava ali. Na orla do bosque, defronte de mim. Enquanto o silêncio é interrompido uma e outra vez pelo piar longínquo, agudo e arrepiante da águia, minha vista constata que sou a base de suporte dos calções de tecido aos quadrados vermelhos e brancos que os suspensórios - dois - prendem. Esfrego os olhos. Que raio faço eu com esta roupa ridícula?

Na porta, a frase "Bem Vindo", escrita com letras de um dourado claro, convida-me. Provavelmente a opção de entrar e enfrentar o desconhecido será preferível a ficar cá fora suportando o frio do desfiar da noite, longa, passada ao relento.

Devagar, com cautela, dou um passo em frente e preparo-me para bater. A mão direita avança e não encontra outra resistência que não a do vazio pois o rectângulo de madeira recua automáticamente deixando espaço suficiente para a minha entrada. Sou inundado pela torrente de luz.

A sala está impecávelmente arrumada. O que não é tarefa difícil devido ao pequeno número de items que contém. Nada mais que uma mesa de centro em tosco de madeira e respectivas cadeiras, um armário de canto com prateleiras cheias de livros, dois candeeiros de parede e ah... ao fundo uma outra porta ainda mais pequena. Fechada. No centro da mesa está um livro grande, grosso cuja capa castanha não exibe qualquer imagem. Nenhuma imagem de capa. Apenas a frase
     
              Sê bem vindo ao teu sonho.

Já se imaginaram numa situação como esta? Invadindo assim de repente um espaço desconhecido de um outrém? No meu caso o temor de ser descoberto como intruso foi rápidamente ultrapassado por outro sentir mais forte: o da solidão, o de querer estabelecer contacto com quem mantinha de forma tão eficiente a arrumação daquele espaço entre quatro paredes, aquela casa. De modo que dou por mim gritando - Está aí alguém? - sem qualquer resposta. Apenas me responde, ao longe o piar do bicho. Uma e outra vez. E sinto medo.

Os segundos passam desfilando em parada, troçando com o meu nervoso miudinho. Penso o que devo fazer em seguida. Ao fundo, a porta espera, solícita. Que segredos se esconderão por detrás? Avanço e descubro rápidamente quão impotentes somos perante um dispositivo como aquele, uma vez fechado e na ausência de posse da respectiva chave. Tento uma e outra vez arrombar, de encontrão, o pequeno obstáculo de madeira. Sem sucesso. Resignado, volto a minha atenção para o livro. Sento-me. A minha mão direita pega na capa grossa e puxa-a. Começo a ler.

A primeira página contém a capa interior e mais não faz que reproduzir em anémico descolorido branco e preto a mensagem já antes expressa pela frase do título.

A página seguinte é mais interessante. Mostra um pequeno personagem vestido de forma bem ridícula. Os calções vermelhos e brancos estão sentados perto do topo do penhasco. Barba mal aparada e aspecto cansado, olhar fixo, não tira os olhos do livro. Parece intrigado. É de noite e só a pequena lamparina forneçe a luz necessária para a leitura. Por baixo da figura, em letras grandes, garrafais, uma única frase

       Ponto de partida

Nessa altura levanto o olhar. As paredes à minha volta desapareceram como que por magia, cedendo o lugar àquele paisagem montanhosa, agreste. Ao meu lado, junto às rochas a águia faz ouvir o seu piar.














 
José Espírito Santo
Enviado por José Espírito Santo em 02/09/2007
Reeditado em 05/09/2007
Código do texto: T635369

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Sobre o autor
José Espírito Santo
Portugal, 51 anos
155 textos (7495 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/10/17 04:02)