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Rirone - Ato 3

Soldado de Fe-ho Parte 3

Já são quase duas horas sentados diante dos portões do palácio governamental, Ícaro e Lili não trocaram mais palavras. Impaciente, a garota batia com os joelhos sem parar, o que deixava Ícaro muito incomodado, mas apesar disso ele não se pronunciou.

Todos aqueles jovens pareciam tão desanimados quanto eles. Era costume de o exército ser extremamente preciso em matéria de pontualidade e a sensação era de que os novatos não estavam recebendo a atenção que mereciam. Alguns desses iniciantes chegaram a desistir da cerimônia, não um número elevado, mas o bastante para preocupar o guarda que já estava de prontidão desde a noite passada. Se aproximando do mesmo, Ícaro não pode suportar a curiosidade de saber o que se passava:

- Senhor, me desculpe, mas... O que houve?

- Não se preocupe menino. Volte para seu banquinho e aguarde com paciência.

- Mas senhor eu só... Ah, deixa pra lá.

Enquanto retornava para o banquinho, Ícaro se assustou com um estrondo vindo do palácio. Era um barulho alto e longo, como um desabamento. Nesse instante, todos os que se encontravam na parte externa do palácio se voltaram para os portões. Vozes de cochichos ressoavam pelo pátio e o guarda que ali estava até então, correu para dentro.

Apesar do barulho, não houve qualquer tipo de tremor, o que era motivo para manter os que estavam presentes mais calmos.

- Deve ter sido o palanque que despencou. – Comentou um menino que se encontrava sentado ao lado de Lili.

- Oi, desculpe, nem vi você aí. – Respondeu a garota que realmente estava surpresa com a presença do desconhecido.

- Ah, tudo bem, isso acontece o tempo todo! – Sorriu o menino enquanto coçava a nuca.

- Pelo menos alguém que me entende então. – Completou Ícaro imitando o gesto.

- Prazer, eu sou Rufus!

- Oi, eu sou Lili e esse é meu amigo Ícaro.

Rufus era um menino gordinho, um tanto nanico, com o cabelo aparentemente penteado por sua mãe. Ele aparentava ser bem mais jovem do que exigia o exército para a iniciação militar e suas sardas marcavam um rosto risonho, como o de alguém que passou toda a vida comendo doces (uma coisa que completamente fora da realidade em Fe-ho).

- Acho que temos uma equipe! – Exclamou Rufus com sorriso triunfante.
- Equipe? Como assim Rufus? – Indagou Lili.

- Acho que ele quer dizer que somos um time agora. – Respondeu Ícaro, que mau podia esconder a ansiedade por uma resposta positiva da parte dela.

Enquanto subia no banquinho com sutil dificuldade, Rufus falava com voz de campeão aos seus novos amigos:

- Meu pai, Rufus II, filho de Rufus Sufur, me ensinou tudo o que era necessário sobre os militares. Quando ele morreu, fui morar com minha avó, e por pouco não me dei mal nos testes para o exército.

- Isso faz de você Rufus III, certo? - Perguntou Lili com tom de deboche.

- Certíssima minha cara Lili.

Por mais idiota que fossem os movimentos feitos por Rufus enquanto falava e por mais debochadas que fossem as perguntas de Lili, Ícaro estava se sentindo muito feliz com a interação dos dois. Ele não escondia um sorriso suave no rosto, e prestava atenção em cada palavra proferida pelo novo amigo. Tudo o que Rufus dizia em relação aos militares condizia com as palavras de seu mestre Shugal.

“Os militares de Fe-ho são como as máquinas que eles constroem: invencíveis se guiados da forma certa”

Algum tempo após a suposta queda do palanque, os portões foram abertos e o recruta que vigiava o portão finalmente guiava os iniciantes para dentro. Uma enorme fila conduzia-os para um pátio interno ao palácio, passando por uma ponte de pedra sob um rio de águas escuras. As paredes do palácio eram úmidas e revestidas de lodo. Nada que causasse surpresa nos jovens. O acesso ao palácio não era permitido aos civis, mas qualquer um que conhecesse a cidade era capaz de imaginar como seria o interior do lugar. O ar quente que jazia do chão incomodava bastante e fazia com que eles transpirassem.

Depois de se assentarem no pátio, mais alguns minutos de espera e então finalmente foram ouvidos os passos de marcha militar vindos do fundo. Uma pequena tropa com cerca de trinta homens marcavam um passo forte e traziam consigo uma espada afiada na cintura cada um. Suas roupas eram de um tecido grosso e resistente, com cores escuras que lembravam bastante o lodo nas paredes e estavam equipados com as armaduras de infantaria. Isso sim era algo raro de se ver.

Ansiosos com uma recepção, os iniciantes se decepcionaram ao assistirem os soldados passando direto por eles e subindo rumo à cidade sem sequer olharem para os lados. Logo depois, um soldado aparentemente mais graduado pediu para que os iniciantes abrissem caminho, se quisessem não correr o risco de se machucar. Logo em seguida, um barulho de motor vinha do mesmo ponto de onde antes vieram os soldados. Oito Tigers-25 (veículos de exploração em terrenos selvagens) atravessarem o pátio em disparada, seguidos por mais um pelotão com vinte homens.

- Ícaro, eu acho que eles estão partindo para uma missão de resgate – Disse Rufus cochichando.

- Resgate? Quem poderia ter desaparecido do palácio? – Perguntou Ícaro com a mesma sutileza de Rufus – Aliás, quem entraria aqui para pegar alguma coisa?! Esse lugar me dá arrepios!

- Não seja cagão Ícaro – Resmungou Lili que estava concentrada no ambiente.

Depois de mais espera, uma mulher com voz firme anunciou aos iniciantes que eles não teriam cerimônia simbólica esse ano, somente haveria o registro e entrega dos equipamentos e uniformes para eles. Após um tumulto que não durou mais de cinco segundos, a mulher apareceu entre os iniciantes, o silêncio reinou.
Rodrigo McTusk
Enviado por Rodrigo McTusk em 09/09/2007
Código do texto: T644619

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Sobre o autor
Rodrigo McTusk
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 31 anos
8 textos (109 leituras)
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Rodrigo McTusk