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Fim de uma família


É certo dizer que ele era uma pessoa sem maldade, mas que era difícil ficar perto daquele velho era. Seus netos, não é que não gostavam dele, odiavam ficar perto do avô e seus pais ficavam tristes com a situação, mas nada podiam fazer. A mãe de alguns deles, que era filha daquele velho, não podia dizer nada para as suas crianças, pois ela mesma evitava ter muito contato com o pai.
Aquela era uma família comum e na verdade bastante unida.
Os irmãos eram muito próximos e nunca deixavam de passar o seu fim de semana na casa dos pais. A mãe deles, dona Eufrásia, fazia do domingo um dia de festa e nele preparava a macarronada com carinho, assava a carne, que temperava com antecedência, deixando ela no ponto e sempre deixava a geladeira cheia de cervejas para regalar o dia de folga dos seus filhos.
Para os netos ela tinha um pote de vidro, sempre cheio de caramelos, puxa puxa e bombons, punha também na geladeira bastante refrigerante e nunca deixava de fazer o bolo de milho que todas elas adoravam. Com os genros e as noras ela era delicada e carinhosa, tanto que todos eles a chamavam e tratavam como mãe.
Aquela seria uma família modelo não fosse o velho Assunção ali pra atrapalhar.



Praga de velho irritante. Ele era cheio de manias e maus costumes que incomodavam,irritavam deixavam nervosa a pessoa que estivesse perto dele. Não tinha bons modos, falava o que não devia sempre na hora errada e o pior de tudo era o comportamento dele. Quando estava na mesa, no meio de uma refeição, ele tirava a dentadura e coçava o céu da boca pra depois dar um sorriso com a boca banguela.
A família, que parava de comer, com os garfos suspensos no ar, o olhava incrédula. Ele via a censura no olhar de todos e dizia:

- Que é que tem gente? Se ta coçando o que é que vocês querem que eu faça?

Punha a dentadura de novo e voltava a comer como se nada tivesse acontecido.
O almoço havia terminado. Levantavam da mesa, um a um, dizendo estar satisfeito, que havia tomado café tarde e que estava sem fome ou dando qualquer outra desculpa para deixar a comida no prato.
Os pratos ficavam sempre quase cheios e grande parte da comida que dona Eufrásia preparava, com tanto carinho, era jogada fora.
As crianças iam pro quintal brincar e os pais para a sala conversar sobre a semana que tinham tido.
O velho se esticava no sofá, fazendo os filhos trazerem cadeiras da cozinha para terem onde sentar e quando a conversa deles começava a ficar animada ele pegava no sono. Logo estava roncando alto e atrapalhando a conversa. Os filhos iam se levantando e dizendo-se cansados iam ler um livro, dormir um pouco ou fazer qualquer outra coisa longe dali.
O velho dormia um longo sono e quando acordava ia pro quintal brincar com os netos. Alguns minutos depois eles estavam todos na frente da televisão e tinham desistido de suas brincadeiras.
Se um dos filhos tinha de levar o velho até algum lugar, coisa que só faziam por obrigação e muito contra a vontade, com certeza ficaria contrariado com ele que o deixaria em situações constrangedoras.
Quando o velho chegava em um ponto de ônibus cheio de gente, sempre enfiava a mão nas calças e começava a coçar o saco. Dentro de um elevador lotado dava um peido estrondoso e dizia:

- É a feijoada que comi. Ela sempre faz isso comigo. Não da pra segurar.

Nunca deixava, sempre que saia de casa, de fazer a pessoa que estava com ele passar por situações constrangedoras e por isso nunca o levavam a lugar nenhum.



Teve uma hora em que não dava mais. Os filhos se reuniram para discutir o que fazer com o pai, que a cada dia se tornava um problema maior, e foi unânime a decisão que tomaram. Ele foi colocado em um asilo.
Dona Eufrásia, mesmo sendo contra a idéia dos filhos, teve que aceitá-la, pois sabia que eles não podiam mais aturar as manias do pai.
Ela foi viver com uma das filhas. Mesmo sendo muito bem tratada e tendo a companhia dos netos, que amenizava o seu sentimento de solidão, nada substituia a presença do seu velho marido. Sentia falta de sua companhia, que sempre teve durante muitos anos de sua vida, e poucos meses depois a pobre velha faleceu. Todos diziam que tinha morrido de velhice, mas na verdade o que a levou foi a grande tristeza com que foi atingida pela ausência do seu querido companheiro de toda uma vida.
O velho pai foi esquecido no asilo até que também chegou há sua hora. Seus filhos aos poucos foram se vendo cada vez menos e hoje já não existe aquela linda família.
As crianças cresceram afastadas, uma das outras, e agora que são adultas nem se conhecem mais.




"Uma história triste, mas comum que sempre acontece quando os filhos se esquecem do amor e de tudo que seus pais lhe deram. Não tem amor o suficiente para agradecer por tudo o que receberam, aceitarem como são aqueles que deveriam ver como pessoas sagradas e colocam o pobre pai, ou mãe, em um asilo no fim de sua vida.
Não pode haver família que sobreviva, e continue unida, depois de uma prova tão grande de tanta falta de amor".

 
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 14/09/2007
Código do texto: T651666

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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