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Como está seu “rego”, Santinha?


Todos os alunos daquela classe achavam a dona Eurácia uma velha muito chata, e chata de fato ela o era. Não era já uma velhinha, mas uma mulher amargurada que, com uma idade já avançada, vivia uma vida solitária e cheia de preconceitos. Seus alunos, todos jovens adolescentes cheios de vida, adoravam fazer chacota e brincadeiras na aula dela. Eles a chamavam de “a Coruja Velha”.
Pouco antes de começar a aula, naquele dia, alguns alunos estavam na cantina á espera do sinal. Entre eles se encontravam a conversar o Jojô, a Santinha e o Felipe. Eles comentavam que a primeira aula ia ser com a dona Eurácia e planejavam o que iam aprontar naquele dia:

- Puxa gente, logo na primeira aula nós vamos ter e agüentar a “coruja velha”. Vai ser a maior chatice, a Santinha dizia em tom de reclamação.

- É, toda aula com a velha é o maior “pé no saco”, o Felipe comentou em concordância com a insatisfação da amiga.

- Eu também concordo com vocês, mas a gente podia fazer algo para animar a aula, o Jojô falou com um jeito bem peralta.

- O que, por exemplo, o Felipe perguntou?

- Isso depende da Santinha topar.

- De mim? O que você está querendo aprontar Jojô?

- Só estava pensando em chegar á aula e...



A classe estava em silêncio. Os alunos, quietos e compenetrados faziam os cálculos que a professora tinha passado, enquanto ela corrigia algumas provas, quando o Jojô perguntou pra Santinha numa altura de voz que todos poderiam ouvir:

- Santinha, como é que está o seu rego?

- Está melhor. Um pouco inchado ainda, mas melhorou bastante e você não precisa se preocupar com ele, ela respondeu.

Entre os muitos risinhos abafados que os outros alunos deram a professora, com a cabeça abaixada, olhou por cima dos óculos de lentes pequeninas e muito grossas, e falou:

- Que conversa é essa de vocês, já falei que não quero que fiquem falando bobagem em minha aula!

- A gente não está falando bobagem não professora, o Jojô só está preocupado comigo.

- Ta bom, ta bom. Agora façam o calculo que eu mandei em silêncio, a “coruja velha” falou para não levar aquela conversa mais longe.

Todos voltaram ao que estava fazendo e alguns instantes depois a voz do Felipe foi ouvida, bem baixinha, mas numa altura que dava para a professora e o resto dos colegas escutarem:

- Seu rego estava inchado, Santinha?

- Ontem estava bastante, mas com aplicação de bastante salmoura está quase bom, a menina respondeu na mesma altura de voz que o rapaz havia falado, como se quisesse que a conversa fosse só entre eles.

- Estava inchado pra burro cara, eu vi quando fui a casa dela ontem, o Jojô falou para o Felipe, se intrometendo na conversa dos dois, como se estivesse com pena dela.

A professora, com muita irritação na voz, falou para eles:

- Vocês três querem fazer o favor de pararem com essa conversa absurda e terem mais respeito dentro da sala de aula. Quando já se viu ficar falando essas bobagens em minha frente e na dos seus colegas!

- Ninguém esta falando bobagem não professora, nós só estamos preocupados com a Santinha, que é muito nossa amiga, o Jojô respondeu com a maior “cara de pau”.

- Só que isso não é conversa para se ter em público. Quando já se viu ficar falando essas besteiras na frente de todo mundo!

- Então a senhora acha que se preocupar com uma amiga é bobagem, o Felipe perguntou cheio de sarcasmo?

- Não, não acho. Só que o assunto em que vocês estavam falando é muito feio e uma grande falta de respeito de vocês.

- Feio por que Professora, a Santinha perguntou expressando uma inocência fingida na voz? Eles só perguntaram se ainda estava inchado como ontem, quando o Jojô viu.

As risadas entre os colegas de aula foram contidas com muito custo. Os rapazes no fundo da classe colocavam os seus rostos atrás dos cadernos, para esconderem a vontade de rir, e as garotas tampavam suas bocas com as mãos para segurar o riso que morria de vontade de se soltar. Dona Eurídece estava ficando apopléctica com o rumo da conversa. Seus olhos piscavam sem parar, atrás de seus óculos, e sua voz tremia quando falou:

- E isso é pergunta que seja feita em uma sala de aula: - “Se o seu... O seu... Ainda está inchado?”. É muito descaramento. Vou suspender os três por uma semana e deixá-los sem nota este mês.

- Não estou entendendo à senhora, dona Eurídice. Vai nos punir só por isso, o Jojô perguntou com o maior descaramento?

- Vou sim. E vou ter uma conversa com os pais de vocês três ainda hoje.

- Com o meu pai e com o do Jojô a senhora pode até falar professora, o Felipe disse para dona Eurídice. Só que o pai da Santinha a senhora vai ter de esperar até ele ficar bom e se eu fosse à senhora nem falava pra ele não ficar chateado ao saber que foi a causa disto tudo.

- Como assim menino? O que você está falando?

- A senhora sabe o nome todo da Santinha, não sabe?

- Claro que sei. É Santinha Guimarães do Rego.

- E a também conhece o pai dela, não é?

- É claro que conheço, ele está sempre presente em todas as reuniões da escola.

- Então a senhora também sabe como ele é conhecido, não sabe.

- Sim, todos o chamam de senhor Rego.

Então professora. A nossa preocupação era com o pai dela que estava com um dente inflamado e com á cara toda inchada quando estive na casa dela ontem, o Jojô falou segurando-se para não rir. Eu e o Felipe só estávamos preocupados com o pai da Santinha e por isso perguntamos se ele estava melhor, ou a senhora estava pensando que nós estávamos falando de outro “rego”?

- Que mente podre a senhora tem professora, a Santinha comentou cheia de admiração e de uma maneira muito séria, também segurando o seu riso.

A classe toda, não se agüentando mais, caiu numa enorme gargalhada e a pobre dona Eurídice, “a Coruja Velha”, ficou muito vermelha e sem jeito, não sabendo o que falava para aqueles pestinhas naquele momento.

CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 17/09/2007
Código do texto: T655895

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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