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O BARCO DE VIDRO

Para se atingir a ilha eram necessárias duas horas de travessia pelo Mar Pequeno numa balsa velha e pouco confiável. A casa de tia Marina ficava no alto do Morro da Espia. Vista do mar, a casa era bastante curiosa: toda revestida em vidros, seu aspecto lembrava um barco a vapor, daqueles que faziam a navegação de cabotagem no século XIX.

– Está gostando da viagem, Ricardo? – tia Marina percebeu a minha satisfação em viajar naquele mar imenso e notou o brilho nos meus olhos quando avistei a sua casa. Apenas maneei afirmativamente a cabeça, esboçando um sorriso de contentamento.

Anoitecia.

A casa estava bem iluminada e, naquele instante, o mar batendo nas rochas dava a impressão de que o imóvel de tia Marina era mesmo um barco de vidro que navegava tranqüilamente sobre as águas revoltas.
Toda a casa era circundada por um jardim amplo e bem cuidado. Ao lado do alpendre, postava-se um tigre esculpido em jade japonês, do qual tia Marina falava tanto. Fora presente de um cônsul do Japão, seu amigo, que herdara de seus antepassados, cuja origem ele afiançava ser divina.

A estatua parecia ter vida própria; seus olhos faiscavam na noite que, aos poucos, ia caindo sobre a ilha. Enquanto tia Marina subia as escadas para ver como estavam as coisas na casa, fiquei no jardim sentado ao lado daquele animal tão bem representado no jade. Sua posição era como de ataque, prestes a dar um salto dentro do mar, que, lá embaixo, rugia forte e batia com violência nas pedras.

– Seria bom se você fosse mesmo de verdade – eu disse, perdido em pensamentos, na medida em que alisava a sua pata. – Mas você não passa de um tigre de jade que tia Marina colocou de enfeite no jardim.
Continuei a alisar a pata da estátua e a conversar com ela. Até que, num certo momento, escutei uma vozinha muito fina que vinha não sei de onde. Bastante assustado, olhei em volta para me certificar qual a procedência daquela voz tão misteriosa.

– Não tenha medo – disse a voz, como se estivesse falando comigo.

– Quem está ai? – perguntei, imaginando logo que fosse o mordomo. – É você, Onofre?

– Estou aqui ao seu lado. Não está me vendo?

Olhei e constatei, estupefato, que a voz vinha da estátua. Um calafrio percorreu todo o meu corpo.

– Sou o seu tigre de jade – continuou a voz, enquanto meus olhos arregalavam e quase saltavam das órbitas. – Qual o espanto? Um tigre não pode falar?

– Um tigre de jade é impossível! – respondi, bastante perturbado. – Quem é você, afinal?

– Eu sou um tigre encantado. E você descobriu como me fazer falar, bastando alisar a minha pata. Mas não se espante, não quero lhe fazer nenhum mal. Ao contrário, quero apenas a sua amizade.
Diante de minha estupefação, o tigre continuou falando:
– Durante o reinado de um grande imperador, eu era um tigre livre que vivia pelos bosques verdejantes do Japão. Pertencia ao imperador e cuidava da sua proteção. Era o tigre preferido do Filho do Sol. Essa preferência causou a inveja do Conselheiro do Império, um homem ganancioso, que também lidava com ciências ocultas. Foi o suficiente para que ele, usando de seus poderes malévolos, me transformasse numa estátua de jade. Desde então, por muitos séculos, fiquei como enfeite no palácio imperial, até que o cônsul amigo de sua tia, que também era herdeiro do império, me presenteou a ela, e aqui estou.

– Que história fantástica! – Por mais que tentasse não conseguia esconder o meu espanto. Seria mesmo realidade tudo aquilo que estava se passando?

– Você é um rapaz puro, Ricardo – prosseguiu o tigre. – Somente alguém como você poderia me devolver à vida. Olhe para mim e veja: voltei a ser aquele mesmo tigre robusto de mil anos atrás.

Meu Deus! Que coisa incrível! Seria tudo um sonho? Estaria enlouquecendo? Belisquei-me e a dor me fez ter a certeza que existia mesmo um tigre de verdade do meu lado, que até há poucos instantes não passava de uma peça inanimada de jade.

– Quero que saiba algo: você tem um dom muito especial…

– ???

– O dom de concretizar seus pensamentos. Tudo o que você pensar, infalivelmente poderá se realizar, desde que assim o deseje. Depende de você. Sei que você é muito triste. Uma grande tristeza aprisiona todo o seu ser, algo que lhe impede de ser feliz. Isso é muito mal, pois você tem o mundo em suas mãos. Dentro de você mora um Deus infinito, capaz de realizar coisas fantásticas. Esse Deus é você. Você tem o poder. Tudo está em sua mente. Saiba que tudo pode ser concretizado com o poder do seu pensamento. A mente é força criadora. Basta pensar, e fazer isso com convicção, que o mundo todo será seu amigo. Não tenha medo de enfrentar a vida. A vida não é um castigo. Ao contrário, é uma experiência maravilhosa, que deve ser vivida intensamente. Cada momento, bom ou mal, concorre para a sua evolução espiritual. Lembre-se sempre disso…

O tigre tinha razão.

Mas como sabia de tantas coisas a meu respeito? Seria ele um tigre mágico? Bem, ao menos deveria ser encantado já que voltou à vida depois de mil anos.

Realmente, sempre fui um rapaz triste, insatisfeito com a minha vida. Sempre tive de tudo para ser feliz: boa família, dinheiro, escolas particulares, boas amizades. Por que, então, esse vazio, essa ansiedade dentro de mim, como uma enorme cratera que  anseia por ser tapada?

Como estou de férias, vim passar uma temporada na ilha particular de minha tia Marina. Desde criança que não vinha aqui. Naquele tempo, a casa de titia ainda não era de vidro. Lembro-me que era um enorme casarão, daqueles com varanda, amplos aposentos, móveis antiqüíssimos e pesados, as paredes grossas e resistentes feitas de pedra e cal, tudo no mais perfeito estilo colonial do século XVIII. Pertenceu ao meu tataravô, que foi barão de alguma coisa, homem bastante rico e influente na época. Há alguns anos, porém, tia Marina, com sua mania de querer mudar o mundo, resolveu colocar tudo abaixo e construir a casa atual, toda revestida em vidros. Ficou bem melhor que a casa antiga, a qual parecia assombrada. Quantas vezes, ao dormir ali, não acordei no meio da noite, encharcado em suor, após terríveis pesadelos?

A casa nova se tornara mais interessante pelo formato que tia Marina lhe dera. Seria para eternizar o seu amor por aquele marinheiro que ela conhecera na mocidade e que a deixara sob o pretexto de que partiria para portos distantes e, um dia, voltaria para buscá-la? O certo é que aquele barco de vidro sempre enfeitiçou a minha imaginação.

– Ricardo!

A voz da tia Marina interrompeu meus pensamentos. Ela me chamava para o jantar. Olhei para o tigre, ele voltara a ser estátua. Entrei, ainda perturbado com aqueles acontecimentos.

No dia seguinte, tão logo acordei, corri ao jardim, detendo-me diante do tigre de jade. Alisei-lhe a pata, conversei com ele, mas nada acontecia: a estatua continuava inerte. Comecei a ficar decepcionado. Desejava muito conversar com o tigre. Precisava dele para extirpar a tristeza que estava aprisionada em meio peito. Acreditava que somente ele poderia me auxiliar. Pela conversa que tive com o tigre ontem, pude perceber que ele era sábio; com certeza, herdara a sua sabedoria de algum filósofo da corte do Imperador.

– Ah, meu tigre amigo… Preciso tanto conversar com você!… Por que não me atende? Já alisei a sua pata, mas você não torna à vida… Que devo fazer mais? Necessito com urgência da sua ajuda. Somente com suas sabias palavras encontrarei alento para destruir essa enorme tristeza que me tira o prazer pela vida… Vamos!… volte à vida! Converse comigo!

A estátua continuava imóvel, sem vida. Comecei a pensar que tudo o que ocorrera ontem não passara de uma brincadeira de meu subconsciente. Ora essa: um tigre de jade que, de repente, adquire vida e, ainda por cima, fala? Não seria mesmo um sonho? Estava em duvida quanto ao ocorrido. Mas eu não conversei com o tigre? Ele não me dissera palavras tão sábias, que nunca antes ouvira, palavras que me clarearam a mente? O tigre não me garantira, com toda convicção, que o segredo para a felicidade estava dentro de mim mesmo; que tudo é criado pela mente e tudo podemos concretizar desde que mentalizemos nesse sentido? Sim. Lembrava-me perfeitamente das palavras do tigre. Como poderia esquecer palavras tão sensatas e cheias de sabedoria? Nunca li nada parecido, nem num livro sobre o Japão que folheei certa vez. Portanto, isso era uma evidência que o tigre realmente conversara comigo.. Com toda a certeza. Louco não estava. Um louco não poderia entender aquelas palavras de grande profundidade.

Sentado na beira do penhasco, eu olhava para o mar. Lá em baixo, as águas batiam violentamente nas rochas, provocando um barulho ensurdecedor. Gostava daquele ambiente. Fazia-me muito bem. O contato direto com a natureza, aquele ar puro e saudável, o mar azul e agitado que se perdia de vista. Sentia que aquela harmonia toda diminuía um pouco a tristeza que carregava.

Num momento, fechei os olhos e imaginei a casa de vidro navegando dentro do mar. Concentrei-me o máximo que pude e consegui me ver como o comandante da embarcação; a tripulação era composta pela tia Marina, pelo seu amado marinheiro fugitivo e por toda a criadagem.
O mar estava revolto. Ondas gigantescas começavam a emborcar a nau de vidro. Mas a tripulação era destemida. Eu conduzia a embarcação com audácia como se fosse o mais experiente dos marinheiros.

Cada vez mais, eu mentalizava, concentradamente. Conseguia ver tudo claramente, dando a impressão que aquelas cenas estavam se passando num projetor.

De repente, um estrondo. O barco de vidro se chocara contra um recife. Rapidamente, o mar engoliu a embarcação e todos os seus tripulantes, inclusive o capitão.

Ao abrir os olhos, compreendi tudo. O tigre que morava no meu interior me fizera despertar para a verdade. Como um frágil barco de vidro que se despedaça ao colidir com um recife, todas as minhas inquietações se dissiparam quando compreendi que não era o tigre que me ajudaria a ser feliz: a resposta estava – sempre esteve – dentro de mim mesmo.

Com o barco de vidro afundaram também todas as minhas ilusões.
Roberto Fortes
Enviado por Roberto Fortes em 17/09/2007
Código do texto: T656948

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Roberto Fortes
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