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Asilo “SANTA CARMELA” (adotem uma mãe)

- Olá, minha doce santinha. Como vai a minha velhinha, está tudo bem com a senhora por ai?

É sempre fazendo uso de tratamentos carinhosos, como esses que citei, que eu a comprimento toda manhã, quando passo a caminho do trabalho diário. Ela está sempre apoiada na grade de ferro, gasto e corroído da varanda do velho casarão em que vive, sorridente a brincar com as pessoas que passam apressadas. Sempre a olhar feliz o dia que começa, ela mostra uma alma leve e suave através dos seus olhos cansados que testemunham mais um doce clarear.
Todas as vezes que a vejo é muito penoso testemunhar a canseira da vida que o seu rosto reflete. Uma velhinha tão delicada; uma pessoinha tão inocente e só.
Na velha placa descascada, que identifica o casarão, lê-se:


                              ASILO “SANTA CARMELA”
                     ABRIGO PARA VELHOS DESAMPARADOS


- Oi, tudo bem, ela responde alegremente com a sua voz baixinha e cansada. E as crianças “tão” boas?

Perguntas como essa ela me faz todos os dias quando eu passo sem me deter, pois a minha pressa me impede de parar e dar algum tempo para ela. Não há nada que ela me cobre. De nada é capaz além de se dar em sua amarga velhice; expande a exigüidade do seu corpo de mulher pequenininha, que é ainda mais mirrado pela velhice, através de uma aura de sabedoria criada por sua essência cansada.
Logo após, com os meus paços fugazes e na verdade fugidios, eu viro a esquina e os meus olhos procuram o chão como se, com esse gesto de covardia, eu protegesse o meu inconsciente envergonhado. A aparência da minha face se transfigura, e passa a ser uma imagem de desespero, ao ver-me dominado por pensamentos que trazem sempre as mesmas indagações:

“Será ela dependente de alguém... De uma pessoa que não a ama e por isso com ela não se preocupa, a largando ai?”.

“Quem sabe não é só mais uma pessoa que chegou a velhice sozinha, em sua solidão calma e trágica, e o destino conduziu seus passos trôpegos e vacilantes para dentro das paredes de um asilo?”.

“Que divindade cruel deixou isso acontecer com ela, viver o final de sua vida em um lugar tão amargo?”.

“Quem transformou o seu ar carmelita, retirando dele o brilho da vitória que acompanha o descanso sagrado de uma pessoa que tem o coração velho, sábio e bondoso?”.



Essa senhora que todo dia eu vejo alegre na porta do asilo é tão tosca e humilde em sua velhice sadia e bela; é por isso que eu me envergonho em não assumir o que o meu coração manda, a sua adoção. Sim, é essa a verdade minha querida santinha.
Assim como eu há milhões de pessoas que não tem e sentem falta de uma mãe; não tem ninguém nessa vida para dar o amor que emana de si e por isso vivem sozinhos e tristes. Estão sempre macambúzios porque não confessam a si próprios que precisam dessa mãe.
Ficarão sozinhos e sentirão o peso da solidão e da saudade até o dia em que baterem na porta de um desses asilos – que geralmente tem o nome de uma santa – e pedirem em nome de Deus que os deixem adotar uma mãe.

CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 21/09/2007
Reeditado em 21/09/2007
Código do texto: T661770

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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