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Dark Angel - Prólogo

Sentindo o tédio tornar-se predominante, levantei meu queixo para olhar o relógio que estava na parede. Eram dez e trinta e quatro da noite. Faltava pouco para a meia-noite, quando eu deixaria aquela forma frágil, vaidosa e… humana.

Suspirei aliviada por nenhuma notícia desagradável ter chegado aos meus ouvidos na última semana. Tornar-me fraca nesse tempo me faria sentir-me mais inútil do que realmente sou. Afinal de contas, qual é o verdadeiro sentido de eu estar aqui? Eu só vejo tragédias e fico acorrentada pelo medo de todos ao meu redor, incapacitada de fazer qualquer bem…

Sentindo-me sem escolha, fui ao meu quarto. Minha irmã estava deitada na cama, de olhos fechados. Ótima hora para ficar frente a frente com meu melhor amigo…

Pus-me de frente ao espelho. Ele era tão grande que podia ver-me de corpo inteiro com perfeição. E eu podia notar sem mesmo olhar meu reflexo o quão rapidamente eu estava mudando.

Sem medo de ser surpreendida, retirei minhas vestes, uma a uma, calmamente. E quando encontrei minha imagem completamente nua, senti-me mais alegre. Virei-me e observei minhas costas. Minhas omoplatas estavam visivelmente crescidas, e ao redor delas a área escurecia aos poucos. Que consolo, minhas asas logo renasceriam…

Colocando-me de frente outra vez, deslizei minha mão suavemente a partir de meu pescoço, passando por um de meus seios e chegando até a curva de meus quadris. Podia parecer estupidamente estético, mas eu me sentia bem mais bela e sensual quando voltava a ser quem eu realmente sou. Sangrar me tornava tão vazia, tão feia, tão sem charme…

Aproximei-me mais de meu amigo, mirando meu foco para meus olhos. Olhando no fundo deles, percebi que minhas pupilas estavam restaurando aquele aspecto avermelhado, que combinavam deliciosamente com minhas íris castanho-escuras. Ignorando aquela peça de cristal por um instante, ri por dentro por ver que minhas unhas estavam acinzentadas, recuperando o aspecto que teriam predominantemente pelo próximo mês.

Satisfeita em ver que tudo corria normalmente, tornei a me vestir. Colocando minha peça íntima e, por fim, apenas aquela camisola de seda preta, vi através do espelho que minha irmã estava acordando de seu cochilo. Sem me importar com isso, continuei a me admirar.

Mas eu não pude conter minha visão periférica, e percebi que ela me observava, intrigada. “Perdeu alguma coisa no espelho?”, ouvi-a dizer.

Sorri, divertida com a situação. “Não está reparando nada de diferente em mim?”, perguntei, como se estivesse me sentindo insatisfeita com minha transformação. Minha querida irmã caçula deixava as palavras fugirem de sua boca, como se quisesse me consolar: “Do que está falando, Kathy? Você continua a mesma de sempre…” Mas ela acabou me irritando sem querer.

Quantas vezes eu já havia dito e cansado de dizer “Katherine, sou Katherine! Não Kathy!” para ela? Perdi a conta e a paciência de tentar fazer com que ela parasse de me chamar por aquele apelido horroroso, que mais parecia nome de uma cadelinha. Mas dessa vez ela estava com sorte, porque nada iria tirar o meu bom humor naquela noite.

– Você sempre faz essa pergunta quando se olha no espelho. – disse minha irmã, aproximando-se de mim. – Por quê?

– Nada de mais. – eu disse, ainda sorrindo. – Apenas me sinto melhor comigo mesma...

Pobre e ingênua Edwiges! Outra pertencente a essa raça que nada pode ver! Minha irmã é apenas uma humana e não pode ver o que acontece comigo, uma sombria transformada! Nem ela nem ninguém ao meu redor poderiam. Apenas eu! E por isso o espelho era o meu melhor amigo. Graças a ele, eu posso ver minha imagem que tanto adoro, que tanto admiro.

– Se serve de consolo, posso dizer que você apenas está mais narcisista do que eu! Desde que chegou não sai da frente do espelho. – disse Edwiges, tentando me provocar.

– Seu consolo me ajudou bastante. – respondi à altura, virando meu rosto irônico a ela, fitando-a concentrada. – Por que não volta a dormir?

Vencida e sem escolhas, minha irmã voltou à cama e deitou-se. Ao fechar seus olhos, soprei seu rosto e ela adormeceu. Eram onze e oito da noite, minhas forças sobrenaturais já estavam um tanto normalizadas.

Olhando Edwiges com carinho, desliguei as luzes, fechei a porta e retornei à sala.

Ao sentar-me no sofá, senti o tédio voltar. Eu poderia voltar ao quarto e assistir no espelho minha transformação lenta se concretizar, até porque Edwiges não me incomodaria mais, mas eu queria aproveitar meus últimos minutos como uma normal, por mais incrível que isso possa parecer.

****************************************************

Fui ao quarto de minha mãe, que estava vazio. Lá, abri o armário e escolhi algumas roupas. Definitivamente, eu estava vestida como minha vaidosíssima irmã. Coloquei uma regata cor-de-rosa, um short curto e um boné da mesma cor da regata.

Desci para a garagem do apartamento onde moro, sem esperança de que houvesse alguém por lá. Por sorte, meus pensamentos foram frustrados quando meus olhos encontraram a anatomia de Paul, um dos meus bons amigos aqui.

Percebi o olhar curioso com que ele me fitou. Quando o abracei e me afastei, ele sorriu.

– Você está diferente... – ele disse.

Eu sorri, pela ambigüidade da frase.

– Está falando das roupas, não é? – perguntei.

– E de que mais eu poderia estar falando?

Sem denotar qualquer tipo de desapontamento, peguei a mão de Paul e o levei até o portão. Eu precisava ver pessoas, por mais perigoso que isso pudesse ser àquela hora.

Paul era incrível. Me entendia, ou fingia entender. Nas semanas em que eu sangrava, minha fragilidade era perceptível, e ele sempre me confortava. Aos maliciosos, isso nunca era amizade. E realmente não foi um dia. Eu já havia provado dos lábios de Paul, mas o gosto me trazia lembranças tão insuportáveis que não tivemos como continuar. Hoje, o sentimento é tão fraternal que não me vejo sem os conselhos dele.

Conversávamos, e ele ria de tudo o que tinha de cômico em minhas palavras.

Mas, de repente, o silêncio se instaurou quando ele viu alguém se aproximando.

– É o Dyrck… – disse ele, olhando-me com uma expressão demonstrando lamúria, colocando um pé para além do portão.

Meu coração acelerou diante daquele nome. Dyrck era um garoto amigo de Paul e de mais alguns garotos que moravam no prédio. Eu o conheci quando ele estava namorando, mas isso não havia me impedido de estar nos braços dele, pressionar minha boca na dele… Enfim, não me proibiu de ajudá-lo a ser infiel.

Com o passar do tempo, os erros que cometi com ele foram tantos que cresceu uma muralha entre nós dois, onde só ouvir o nome um do outro nos alterava! E meu orgulho mostrava-se intacto… Pensava que nunca iria pedir desculpas a ele por todas as merdas que fiz.

Dyrck se aproximou. Percebendo quem eu era, dirigiu-se a Paul.

– Lewison está aí, Paul?

– Está. Na casa dele…

Paul abriu caminho para que Dyrck entrasse. Antes de entrar, ele me fitou, com uma expressão que eu não soube definir. Eu não abaixei a cabeça e nossos olhares se encontraram por um milésimo de segundo, até ele se afastar.

Paul me olhou preocupado. Naquele instante, senti minhas forças se exaurirem. Então, abaixei minha cabeça.

– Você está bem? – perguntou Paul, aproximando-se de mim.

– Apenas minha consciência que pesou… – respondi, levantando meu rosto para Paul.

Quando voltei minha vista para a garagem, algum tempo depois, vi Dyrck e Lewison descendo as escadas e sentando-se em um banco não muito longe dali. Suspirei e retornei minha vista para Paul.

A forma como Paul leu meus olhos só me fez ver o quanto ele era incrível.

– Você vai fazer o que eu acho que vai fazer? – perguntou ele.

Eu respondi com um sorriso. Naquele momento, senti que ele preocupou-se, mas não me importei. Andei para dentro do prédio, e ele já sabia em direção a quem. Vinha logo atrás de mim, me seguindo.

– Pense melhor! – disse Paul, tentando me segurar. – Ao invés de perdoar você, ele pode acabar discutindo.

– Não me importo! – murmurei, acelerando meu passo. – Preciso fazer isso ainda hoje.

Olhei o relógio em meu pulso e vi que faltavam dezessete minutos para a meia-noite.

À medida que me aproximava de Lewison e Dyrck, meu coração acelerava. Cheguei ao extremo quando Dyrck voltou sua vista para mim, com a mesma expressão com que me olhara minutos atrás. Estava me segurando para não ler o que realmente ele sentia naquele instante.

Parei diante de Dyrck. Olhando para Lewison, cumprimentei-o, e ele correspondeu ao cumprimento. Paul fez o mesmo.

Um delicioso silêncio, que parecia mostrar que haveria violência, tomou conta do ambiente. Senti-me ainda mais desconfortável.

Eu jamais havia me sentido tão estranha quanto me sentia naquele instante. Estava disposta a fazer o que fora fazer ali, mas não sabia como começar… Mas eu precisava fazer, o tempo estava se esgotando! Deus que me desse forças!

Sem idéias, estendi minha mão a Dyrck. Ele a olhou e depois olhou nos meus olhos. Sem entender nada, o fiz entender.

– Eu fui uma idiota, Dyrck, você sabe disso! Sei que pode não ter nenhum valor agora, mas eu quero te pedir desculpas… – eu disse, meio encabulada e um tanto apressada. – Você aceita?
Atrás de mim, Paul parecia sentir medo no meu lugar, decidido a me defender se fosse preciso.

Dyrck levantou-se do banco em que estava sentado, e minha mão continuava estendida ali, diante dele. Lewison estava sem expressão alguma no rosto.

Naquele momento, senti meus olhos queimarem fracamente. Se o espelho estivesse ali, veria minhas pupilas extremamente avermelhadas e brilhantes.

Dyrck me deixou em uma situação de extrema confusão. Continuava a me olhar daquele jeito que eu não distinguia. E eu sentia cada vez mais o medo instaurado em Paul aumentar. Detestava sentir o mesmo que ele, isso me desesperava!

Num ímpeto, pensei em baixar a minha mão e sair dali correndo. Mas, do nada, um sorriso instalou-se na face de Dyrck e ele apertou minha mão gentilmente. O alívio que havia sentido naquele momento é indescritível!

Sorri, feliz por sentir a mão de Dyrck, que já havia feito tantos carinhos em mim, na minha.

– Acho que nós dois erramos… – disse ele, me abraçando. – Mas teremos muito tempo para recomeçar…

Aquelas últimas palavras fizeram-me sentir algo agradável que não soube interpretar o que era. Apenas encarei como uma autorização para corresponder àquele abraço.

Paul sentiu alívio também, sorrindo. Lewison olhou maliciosamente para mim e Dyrck, deixando-me envergonhada.

Dyrck sentou-se novamente e olhou sorrindo para Lewison. Ele estava feliz, mas naquela alegria havia malícia. Muita malícia… E eu não podia continuar ali para que ele tentasse fazer o que estava querendo.

– Eu preciso subir. – falei, abraçando Paul e logo depois Lewison.

Dyrck me olhava desapontado, eu sentia isso. E eu nem precisei ler seus pensamentos de novo para perceber…

– Está na minha hora. – encerrei, abraçando Dyrck, que se levantara para nossa sincera despedida.

Sem olhar para qualquer um dos três, subi as escadas correndo, de dois em dois degraus. Tropecei e quase caí no final, mas tive sorte de não fazer barulho.

****************************************************

Abri a porta de meu apartamento calmamente. Vi o relógio na parede e surpreendi-me ao ver que faltava apenas cinco minutos para um novo dia.

Corri para o banheiro, me despi e coloquei-me debaixo do chuveiro. Lavei meu corpo inteiro, desejando que minha forma humana pudesse descer pelo ralo. Pouco sangue escorria.

Enxugando-me rapidamente, coloquei-me nua diante do pequeno espelho que ficava em frente a pia.

A última gota de sangue foi ao chão e ouvi um pequeno bip, vindo do meu relógio que deixei sobre a pia. Isso me fez sorrir de forma demente, como se aquilo fosse alguma novidade.

Minhas pupilas vermelhas brilharam ainda mais quando minhas asas negras renasceram e se abriram. Minha pele clara e de aparência anêmica parecia deixar-me mais saudável por dentro.

Toda aquela espera havia me deixado exausta! Vesti uma nova peça íntima e a mesma camisola preta e fui ao meu quarto, apalpando as plumas de minhas asas. Sorri ao ver que Edwiges dormia como eu iria dormir eu alguns instantes…

Arrastei-me de quatro até ficar na posição em que gostava de dormir. Então, ajoelhei-me sobre o colchão e juntei minhas mãos. Orei baixo por mais um dia e por tudo ter ocorrido como devia ocorrer. Agradeci a Deus por também ter me permitido a chance de me resolver com Dyrck.

Ao pensar nele, meu corpo ficou sensível ao toque da camisola, como se as mãos dele estivessem em mim. Minhas asas se abriram novamente e com a agitação uma pena caiu da minha cama. Desconcentrei-me e olhei para ela, que desintegrou completamente ao tocar o chão.

Balançando minha cabeça, encerrei a oração com o sinal da cruz e deitei-me calmamente de bruços, cobrindo meu corpo com o lençol branquinho até a cintura.

Inclinei minha cabeça para o teto e assoprei, como se quisesse apagar uma vela. O quarto se iluminou com microscópicas partículas brancas, próximas umas das outras, que bateram no teto e desciam de forma vagarosa. Rapidamente, pousei minha cabeça sobre o travesseiro e fechei meus olhos.

Sentindo minhas asas descansando na curva de minha cintura, caí em sono profundo.
Luiza Araújo
Enviado por Luiza Araújo em 27/09/2007
Código do texto: T671000

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Sobre a autora
Luiza Araújo
Ananindeua - Pará - Brasil, 27 anos
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