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O moço que via os anjos chorarem


O dia tinha amanhecido escuro, coberto com nuvens negras e nele caia uma garoa muito forte que chegava a ser quase uma chuva fina. Em dias assim a alma daquele moço se enchia de depressão e se entristecia atingida por uma forte melancolia. A sensação que ele tinha, nos dias de chuva. era a de ficar exposto e aberto para as coisas feias da vida e por isso neles sentia com clareza todas as dores da humanidade.
Esse moço era dono de uma sensibilidade apurada e muito forte. Ele sentia necessidade da luz do sol, do calor dos seus raios, da energia que ele lhe proporcionava e da força que dele extraia para se sentir forte e cheio de vida.
Quando as gotas geladas de uma chuva o atingiam lhe causam ardência, ele tinha a sensação de ser queimado por elas e nessa hora sempre visualizava o céu e via nele milhares de anjos, todos possuídos de uma dor imensa, tão grande como aquela que dominava a sua alma nessa hora. O rosto dos anjos que ele via, e que eram criaturas puras que lembravam crianças belas e inocentes, eles estavam marcados por um grande sofrimento.
Os anjos choravam porque tinham pena dos homens que largaram da mão de Deus e, por livre arbítrio, desprezaram a proteção da guarda deles.
Cada gota de chuva, que caia do céu, era para aquele moço uma lágrima que via escorrer pelo rosto de um dos anjos e cair sobre a terra.
Ele e sua alma viviam a angústia desse momento quando uma forte trovoada retumbou no céu e, como que ocasionado por ela, um grande aguaceiro caiu sobre o lugar que ele estava. Nessa hora ele se escondeu sob o beiral de uma casa, para evitar a torrente de água que caia, e ali permaneceu com a sua alma angustiada e amarga até a chuva passar.
Ela durou poucos minutos. Assim que só algumas gotas esparsas ainda caiam e ele ia seguir o seu caminho, a porta da casa em que sob o beiral dela ele tinha se escondido se abriu e duas crianças saíram por ela saltitando alegres e cheias de vida. Uma delas trazia um barquinho de papel, que elas tinham feito enquanto a chuva caia, e foram brincar na água que corria no escoamento que beirava a calçada e formava um riacho caudaloso.
As crianças soltaram o barquinho na corrente d"água, que o levou, e com seus pés descalços correram atrás dele jogando água pra todo lado.
Dando gargalhadas sonoras elas o alcançaram, o pegaram e tornaram a soltá-lo para repetir a brincadeira.
O moço ficou olhando as crianças brincarem. Isso foi deixando a alma dele leve e ele foi ficando possuído de um grande encantamento, enquanto via aquele menininho de cabelos curtos e espetados, que tinha o rosto cheio de sardas, junto da menininha possuidora de um sorriso encantador e engraçado, por causa da falta de um dos seus dentes da frente, saltando na água que tinha caído da chuva e gritando de prazer. Aquelas crianças estavam entregues a uma grande felicidade enquanto brincavam com o seu barquinho de papel.
As crianças espirraram água nele, mas quando foi atingida por ela a sensação que teve foi totalmente contrária daquela causada quando a água da chuva caia sobre ele. A água que as crianças salpicavam tinha calor e lavavam as dores que esteve sentindo.
Nesse momento um rasgão se abriu na couraça negra que cobria o céu e os raios do sol que invadiram através dele, cortaram o ar cheio de umidade que envolvia a Terra e atingiram os rostos das crianças. O moço ficou maravilhado e nessa hora olhou para o céu. Viu então que os anjos que a pouco choravam estavam sorrindo para ele. Eles estavam alegres com a felicidade que presenciavam como ele, na beleza daquelas crianças brincando.
Ouviu então um cantar mágico ecoar pelos céus e transpassar a sua alma.
Eram os anjos que cantavam e ele viu que nas crianças estavam ás esperanças do mundo. Que elas mantinham as suas mãozinhas agarradas à mão de Deus e que os seus anjos da guarda eram fortes, que olhariam por elas e que por causa delas o mundo ainda seria um mundo melhor.
O moço então caminhou até onde as crianças estavam brincando, deu um beijo no rosto de cada uma delas e se foi embora com o seu coração repleto de felicidade, sentindo a sua alma leve e cheia de uma doce esperança. Ele tinha certeza de que haveria um dia em que não veria mais os anjos chorarem.

CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 30/09/2007
Código do texto: T674387

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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