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Sonhos de outrora

Ele avançava... apesar de todos os ferimentos, avançava resoluto. A seta ainda cravada no ombro esquerdo, da qual apenas quebrara a haste para não deixar-se sangrar demais, se a arrancassem de sua carne. Não sabia mais dizer o quanto do que sentia escorrer pela armadura lanhada e sobre a pele era suor, seu sangue ou o sangue daqueles seres vis. Mas começara a correr e, pelos instantes que se seguiram, seus músculos esqueceram toda a dor. A espada, apesar da habilidade e força dos artesões que a tinham forjado, jamais deveria ter suportado tanto. Ainda brilhava, com uma resiliência que refletia a dos olhos do guerreiro furioso... a ponta do aço, já com algumas ranhuras, ameaçava ir rachando-se a cada novo golpe.

Ele urrava, espantando a dor. As muralhas daquele pátio ensangüentado ecoando sua voz, dando-lhe impulso para cada novo golpe. Tudo parecia reverberar, da armadura às pedras que formavam o chão... desafiava cada novo inimigo com o olhar feroz, mas aqueles jamais recuariam em medo. Não conheciam aquele sentimento na pele, pois era dele que alimentavam-se. O corpo cansado que avançava em meio a eles, já tendo abandonado pedaços da armadura antes mesmo de alcançar os portões. Aquele homem arfava, sentindo a morte tão de perto, mas não nutria aqueles seres por um segundo sequer. Seus olhos não traziam medo, apenas aquela fúria, alimentada por um amor que tais demônios desconheciam. Nem seus Mestres lembravam-se de tê-lo visto, até aquele momento... não sabiam quem era aquele que cruzara o pátio deixando atrás de si um rastro de seus serviçais e das flechas que ainda resvalavam no que restava de sua armadura e escudo. Do alto da torre, após tanto tempo, aqueles olhos cruéis temeram o brilho de uma lâmina.

O estrondo do grande portal interno de madeira abrindo-se e estilhaçando contra as paredes, como se um imenso aríete abrisse caminho para aquele olhar resoluto. Uma multidão daqueles serviçais sombrios, de dedos afiados como navalhas, jogando-se sobre ele, rasgando-lhe a pele, carne e músculos. O homem gritava, caindo de joelhos em meio ao imenso salão, enquanto a lâmina atravessava dois daqueles seres, pelo pescoço do primeiro e até o peito do segundo... seus risos parecendo feri-lo quase tanto quanto as garras. As narinas incendiadas, em uma febre causada pela dor e fúria.

- NÃÃÃO!!!!!!! NÃO DEIXAREI ESTE LUGAR... SEM ELA!!!!!!

Urrava alto, fazendo todos aqueles seres hesitarem por tempo o suficiente para colocar-se de pé e girar a lâmina ao redor, indo de encontro a eles. Girava o corpo, jogando longe o escudo e agora segurando a grande lâmina com as duas mãos. A ponta já quebrada, em uma investida mais violenta a um daqueles crânios... mas a espada resistia. Não o deixaria, em sua missão. Ela já era parte dele, daquele amor intenso que o movia e não deixava o corpo sentir demais aqueles golpes... por todo o imenso castelo, sua dor e sua fúria ecoavam... mesmo até os profundos calabouços... um soluçar baixo era interrompido por aquela voz distante, tão estranhamente familiar.

- NÃO POSSO!!!!!! NÃO FALHAREI!!!!!!

Os corredores manchando-se daquele sangue... do suor. Das lágrimas daquele homem, que deixava a dor tornar-se parte de cada golpe. Como fôra estúpido, em demorar a entender aqueles sonhos... aquela busca que teria de fazer... que percebera tarde demais. Agora ela sofria, ele sequer sabia desde quanto tempo. Sofria, nas entranhas daquela fortaleza. Ele transpunha cada corredor, cada salão com dificuldade. As escadarias punindo suas pernas feridas e cansadas. De um tropeço, rolara por boa parte dos últimos degraus, sem saber onde sua espada fôra parar, em meio à escuridão. Seu olhos ali, tentando acostumar-se à pouca luz. As mãos tateando o chão ensangüentado... era o seu sangue. Agora sim, sentia a dor. Nada ouvia, o corredor estava vazio. E os passos se tornaram tão pesados quanto aquele ar... cambaleava, de encontro às paredes, rumo a uma porta escura. Manchando a pedra com o sangue quente... sentindo o corpo esfriar. As lágrimas correndo de dor e, agora sim, medo.

Do outro lado da porta, aqueles homens esguios, encapuzados, senhores daquele castelo, soltavam os grilhões que prendiam-na. O corpo dela, maltratado, dolorido, fraco, tombando ao chão. Diziam-lhe que sofreria até a morte, que aquela voz furiosa já fôra contida... que ninguém mais viria. Condenavam-na à solidão e murmuravam mantras de uma tristeza vil, sádica. A menina chorava, entregando-se àquelas ameaças... sentindo tudo escurecer. A solidão tomando seus olhos, sua mente, seus temores... ela voltava a soluçar... perdia-se em meio àquelas palavras e levava as mãos a cabeça. Um gesto de misericórdia... um dos Mestres jogava-lhe ao chão uma adaga de lâmina negra e o calabouço ficava novamente vazio. Todos desapareciam em meio à escuridão. Ela estava realmente só... mesmo a respiração que vinha, arfada, do outro lado daquela porta parecia não alcançar a bela dama élfica. Perdida ali, entre pesadelos, tomou a adaga nas mãos... prostrando-se de joelhos, de costas para a porta.

- Eu estou condenada à solidão... a não encontrá-lo... eu...

A ponta da adaga encostada contra os trapos que lhe faziam vestimenta... à altura do peito. Suava, mas a respiração era calma. A decisão não lhe trazia dúvida palpável, ainda que parte dela duvidasse das próprias palavras. Respirava fundo, repetindo para si os mantras vis que aquelas sombras lhe disseram... a voz cada vez mais firme, na certeza do que repetia. Não ouviu a porta abrindo-se com um estrondo, atrás de si... o homem novamente com o olhar resoluto. Enfrentara as sombras daquele último corredor escuro, forçando o corpo a ignorar cada corte que pulsava e a cabeça latejando. Viu-a ali, prostrada. Sim, era ela. A mulher de seus sonhos, de tantas outras vidas suas. Uma nobre elfa, uma fada Sidhe. Os cabelos escorrendo pelos ombros, enquanto os braços fechavam-se, trazendo a adaga contra o peito. Ela buscava aquela última dor, que a livraria de tudo o mais. Sentiu a ponta da adaga ferindo a pele, um fio de sangue correndo-lhe a pele, escorrendo.

Mas a lâmina negra não chegou a perfurá-la mais do que isso. Sentia sobre si o peso daquele corpo enorme. Aquelas mãos imensas segurando seus pulsos, por trás. A pele azulada... os dedos melados de sangue e suor, mas ainda assim conseguindo segurá-la ali... ela soltava a adaga, ao sentir lágrimas quentes tocarem seu ombro. O imenso Troll ainda temendo soltar-lhe os pulsos. Vendo aquela lâmina cruel no chão, começando a desfazer-se. As lágrimas da elfa misturando-se às dele, no chão de pedras frias... ficara ali, naquele castelo, em um canto esquecido do Sonho, desde que ele se fôra, há séculos, morto pelas mãos daqueles mesmos Mestres que agora haviam deixado o lugar, temendo tamanha força. Ele não era o mesmo Troll... voltara em um novo corpo mortal. Mas ela sabia. Soube no momento que sentiu suas mãos impedindo-a daquele último ato. Até o calor era o mesmo... deixava-se abraçar por aquele ser imenso, que tremia de dor e angústia, mas chorava de felicidade incontida... de uma admiração profunda à sua bela dama Sidhe. Daquele amor que levara-o até ali em fúria e agora prostrava-o em servidão.
Addam
Enviado por Addam em 01/10/2007
Código do texto: T676648

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Sobre o autor
Addam
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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