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O MEU GATO RI


                                   O MEU GATO RI



No meu lar habita um gato que foi baptizado pelo delfim da casa, com o nome de Lucas. Trata-se de gato resultado de um longo e apaixonado namoro de uma gata preta dos telhados e de um fidalgo siamês. Da paixão ardentemente nascida nos corações destes dois felinos, haveria de nascer, de entre outros, o Lucas, que se haveria de parecer geneticamente com o seu progenitor na coloração da pelagem. Quanto ao resto nada sei ou saberei. Tudo o que sei sobre os seus ascendentes é tão básico que se resume no facto de serem meus vizinhos, sendo que cada um tem o seu lar. A mãe do Lucas, da qual não sei o nome, nem sei se tem, é da D. Glória, senhora que acolhe tudo o que é gato. O pai, é um dos que habita os moinhos do Zé Moleiro e que este acolhe com o intuito de afugentar os ratos que procuram o milho ou a farinha para sobreviverem faustosamente.
Em Fevereiro passado, o siamês perdeu-se de amores com a gata preta da D. Glória e julga-se que não soube o que era rato durante duas semanas, tal a magreza que exibia, resultado de noites mal dormidas, que aliada à paixão e a uma sexualidade activa, fazia dele, porventura o gato mais magro que alguma vez conheci. Adianto que foi por uma boa causa.
Posto que, a sua função de macho se esgotasse, a gata preta haveria de carregar com uma gravidez, a ousadia de se não ter sabido precaver com os mais seguros anticoncepcionais do mercado. Dessa gravidez, haveria de nascer o Lucas. Ao fim de quase dois meses e em fase que já admitia desmame, o Jorge pediu-o à D. Glória, que o ofereceu com recomendação de o tratar bem, aliás nem precisava…
Quando veio para nossa casa, depressa se apercebeu que teria batido à porta certa para receber carinho e conforto. O nome terá sido das primeiras coisas a aprender. Não ficou por aqui o seu aprendizado. Algum tempo depois, já sabia interpretar algumas frases tais como: vem cá, vai lá para fora, sai daí, pega… entre outras palavras ou frases. Quero até acreditar, que se aprendeu tudo isso em português, também o teria aprendido noutras línguas e hoje eu teria um gato poliglota…
No que a brio diz respeito, era uma referência. Cuidava-se esmeradamente e não só lavava a cara como o fazia com os braços, pernas, peito, barriga e até as costas. Com a cauda fazia piruetas diabólicas deitado ora na passadeira da cozinha ora em qualquer, fosse nos corredores da casa ou na sala. Nunca subia para as camas e adorava “bater” uma soneca no sofá. Tudo isto me parece normal a qualquer gato. Com os cães da casa, praticava uma amizade singular. Comiam juntos, juntos dormiam a maioria das vezes e para sentir mais conforto procurava a Bélinha, uma cadela farta de pêlo e dormia-lhe no regaço. Estes, desenvolveram uma inusitada amizade que fruíam, brincando incansavelmente, tendo mesmo recriado brigas, ganhas por um ou por outro. Era um momento verdadeiramente hilariante ver estas diabruras e muito especialmente a forma como o Lucas sapateava a Bélinha na cara. Agilidade extrema. O Lucas também praticava desporto e não raro era vê-lo a correr, subir aos cedros, descer dos cedros e por aí… Corrida e mais corrida. Sempre muito activo e atento, observava a natureza. Sentava-se e acompanhava com os olhos para cá e para lá o esvoaçar dos passaritos que escolheram por habitat, as árvores do meu jardim. Junto ao lago passava também longo tempo a olhar para as carpas que ininterruptamente e indiferentes, nadavam em todas as direcções e que a rutilância dos seus olhos fazia adivinhar êxtase. O Lucas é um exímio, atento e inofensivo observador. O mesmo comportamento tinha com os animais de “cativeiro”. Quando está na sala, gosta de se colocar junto do aquário a olhar os movimentos dos pequenos peixes e nem por uma só vez esboçou qualquer gesto para capturar algum. Muito respeitador pelas outras espécies, apenas os devorava com os olhos, contemplando-os minuciosamente. Com os passarinhos que o Jorge, meu filho mais novo, tem em gaiola, o Lucas também “perdia” algum do seu tempo, sem que, qualquer arremesso de captura alguma vez fosse perpetrado. Até mesmo com os Hamsters, que tanto se parecem com os ratos, ele esboçou alguma investida. Antes pelo contrário, ocupava muito do seu tempo a vê-los na roldana a fazerem habilidades circenses. Nunca, nunca o Lucas usou da sua superior capacidade física para atentar contra a vida dos peixinhos, passarinhos ou hamsters. Um dia, foi posto na barraca onde se guardam as ferramentas para afugentar ou exterminar os pequenos ratos que ali habitavam e nem assim ele revelou instinto malévolo. Até os ratos ele gostava de contemplar a subir e a descer as paredes e de uma única vez que capturou um, brincou tanto com ele que após se sentir cansado o deixou ir à sua vida.
Por regra, dormia na companhia dos cães e de manhã ao abrir a porta da cozinha, lá estava ele para me cumprimentar com um sonoro bom-dia na forma de “miau” e um gestual cumprimento de roçar nas minhas pernas, a que eu lhe respondia, tratando-o respeitosamente pelo nome e a correr partia para as minhas tarefas rotineiras de banho, fazer a barba, acordar filhos para a escola, cuidar da roupa para o dia, limpar sapatos, pequeno-almoço tomado a correr e a correr lavar os dentes, cuidar dos animais domésticos…tudo isto em trinta e tal minutos de correria, para mais um dia igual aos outros. Sair de casa em correria para chegar a tempo à primeira aula da manhã, no meio de um trânsito também de gente apressada e que julgo, como eu têm também barba para fazer, banho e pequeno-almoço, dentes para lavar, filhos para a escola…Chegar ao trabalho e corresponder às obrigações profissionais para no final do dia ir buscar os filhos à escola, quiçá fazer algumas compras e fazer o regresso a casa cerca das 20 horas. No outro dia tudo volta à estaca zero e a rotina segue seu estreito caminho, do qual quase nada se pode desviar.
Não contemplei a natureza, não observei os passarinhos nem os peixes, nem tão pouco tive quase tempo para me olhar…
Um dia dei-me ao cuidado de fitar bem o Lucas e apercebi-me que ele se ria, só não sabia de que se ria. Ele, além de rir também era irónico e a sua ironia levou-me a reflectir sobre a “pessoa” dele.
Conclui que se ria de mim e de todos os que, como eu, levamos vida stressada e sem arranjarmos tempo para olharmos e contemplarmos a natureza e lhe dar o merecido valor, no respeito pela diferença das espécies, ainda que lhes sejamos superiormente mais fortes.


POR ISSO, O MEU GATO RI, e COMO…
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 04/10/2007
Código do texto: T680700

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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