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O RATO DO CAMPO E O DA CIDADE


                       O RATO DO CAMPO E O DA CIDADE


O rato do campo, numa das últimas noites teve um sonho e achou por bem levá-lo à letra. Sonhou então que se achava desgostoso de viver no campo e ir viver para a cidade é que era…Dizia que os seus congéneres da cidade, naturalmente seriam mais felizes por estarem num meio mais desenvolvido, de gente “fina” e culta e que isso por si só lhe daria garantias de melhor e mais qualidade de vida, ao contrário do campo, onde nada disso encontrava.
Este sonho acabou por se tornar ideia fixa e enquanto não teve a experiência de cidade não mais descansou.
      Um dia resolveu despedir-se dos seus pais e irmãos, fez as malas com todas as suas parcas trouxas e lá abalou para a cidade. Não conhecia nenhum comparsa que iria encontrar e nem assim se intimidou. Estava seguro de que a sua simpatia de rato simples depressa faria criar amizades entre iguais. Na verdade a sua receptividade não foi difícil e lá encontrou um rato das sarjetas que se havia de tornar seu grande e inseparável amigo e que muito contribuiu à sua integração na medida do possível na nova e grande sociedade urbana, onde os ratos são às centenas de milhares e em muitos casos aos milhões. A princípio sentiu algumas saudades da família e dificuldades à nova vida. Ter de viver durante o dia nas canalizações dos esgotos e respirar cheiros nauseabundos ou então em galerias onde nem a luz do sol chegava, para só sair á noite, não foi fácil. Ainda assim, acredita que melhores dias virão…além de que não quer dar uma de frustração, qual filho pródigo.
Na verdade, encontrou na cidade alimentos que nunca tinha visto no campo, e isto fazia-o sentir-se de algum modo feliz, com a opção/cidade, tais como: flocos de cereais, iogurtes, queijo de várias marcas, chocolates, bolachas recheadas, cremes de barrar pão e até bebia Coca-Cola e sumos de frutos. Enfim, era um fausto e aquela barriga era um arrotar à fartura…
Um dia, mirou-se num pedaço de espelho que encontrou e os seus vinte e cinco gramas de peso que trazia do campo, já tinha duplicado. Com garbo remirava-se e por entre os dentes dizia: os meus irmãos se me vissem, ficariam invejosos. Eles uns magricelas… e eu aqui que nem um nababo…
Ao fim de algum tempo sentiu desejo de conhecer outras zonas da cidade e combinou com o amigo rato das sarjetas, para uma saída à noite, pelas ruas centrais, ao que o indefectível amigo se prontificou a fazer-lhe companhia. Ah, o rato do campo vivia numa das ruas antigas da cidade, na chamada zona histórica, onde a dita civilização urbana ainda não tinha avançado por razões que se prendem com aspectos de preservação do património.
Muito naturalmente, o desejo de incursão à zona chique, onde proliferam as boas casas de comércio, os melhores restaurantes, cinemas, teatros, bares nocturnos e discotecas, tiveram no leal amigo, uma preciosa companhia.
Combinaram sair no sossego da noite. A temperatura estava óptima e convidativa e lá avançaram rua atrás de rua. Num cruzamento, em que o trânsito é regulado por semáforos, o rato das sarjetas respeitou o sinal e o rato do campo ou porque desconhecesse esse método de regulação ou porque não sabia as cores, avançou e levou uma panada de um carro que circulava com sinal aberto e ficou gravemente ferido numa perna, tendo recebido aí apoio do amigo, que o trouxe às costas até casa, onde ficaria a convalescer alguns dias, acabando por ficar com uma perna mais curta que a outra.
Durante esses dias pensou maduramente na sua vida e teve um sonho, que tal como o primeiro, desejou materializar. O sonho preconizava-lhe o regresso ao campo. Este sonho tornou-se ideia fixa e passou-o à prática. Ainda antes de tomar o destino como regresso, deixou uma carta ao amigo, que dizia o seguinte: Meu caro, amigo rato das sarjetas anuncio-te o meu regresso às origens, donde nunca deveria ter saído. Tudo o que levo, é uma perna mais curta que a outra e sempre que a olho me fará sentir que nem todos os sonhos se devem materializar sem que haja boa ponderação, que é coisa que não fiz, tendo sido traído pela ilusão de vida fácil. Levo também, para minha desgraça uma enorme barriga, que muito terá contribuído para eu não ter fugido lesto do perigo e quem sabe, cheia de doença, com os valores do colesterol e glicémia bem elevados de tantos chocolates, bolachas e Coca-Cola. Também, enquanto vivi aí, nunca vi a luz do sol que eu tanto apreciava num final de almoço, dormindo uma sesta de barriguinha para o ar. Por tudo o que fizeste por mim, um sincero obrigado.

Moral da história:
Tomar atenção aos sonhos e navegar neles só depois de ponderados os ganhos e perdas, para que depois não haja frustração como pano de fundo.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 05/10/2007
Código do texto: T682095

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 62 anos
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Povo Lusitano