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Beleza

Mergulhada no lago de almofadas fofas e felpudas do suntuoso Salão dos Travesseiros, a rainha chorava. Mandara esconder todos os espelhos do castelo e se enfurnara lá, sob uma pilha de almofadinhas arco-íris. Estava desesperadamente triste e, por isso, terrivelmente chorosa. Não queria saber de nada e nem de ninguém. Nenhuma palavra podia ser dita a ela, sem que lhe provocasse um torvelinho de soluços, lágrimas e lamentações. “Como estou feia!”

Somente a visita da Beleza poderia tirá-la daquele estado e antes que as coisas ficassem piores, trataram de convidá-la. Ela chegou quando a tarde estava preste a acabar, naquele instante em que as cores esmaecem e tudo parece estar desbotando, rumo ao cinza onipresente. Ela veio em sua carruagem finamente decorada com orquídeas e pedras preciosas, apenas diamantes e rubis. O cocheiro, um homem jovem de olhos azuis, vestia um uniforme impecável e mantinha-se concentrado na tarefa de guiar as dezenas de gatos pardos que puxavam a carruagem.

Dois serviçais vieram abrir a porta da cabine no instante em que a carruagem parou e, por ela, a Beleza saiu. Primeiro, um aroma podre de egoísmo, depois, uma silhueta hedionda e deformada, por último, o corpo horroroso, ulceroso e perverso. O rosto fúnebre, olhos esbugalhados, macabros e vesgos. Da ponta do nariz pingava alguma coisa nojenta, viscosa e venenosa. Os pés gordos, como os de um elefante, percorreram o tapete vermelho e continuaram até o interior da sala do trono.

A rainha de sua completa angustia lançou um olhar de esguelha para sua recém chegada convidada e correu desesperadamente até ela. Caiu de joelhos, como se nunca tivesse sido rainha, como uma súdita que suplica por atenção. Ainda não ousara olhar para o rosto da Beleza, ninguém ousava, a não ser que ela permitisse.

- Beleza, seja bem vinda! – a voz gritava sussurros urgentes, pedidos de socorro. - Sente-se em meu trono - a rainha estendeu um dos braços na direção do assento real. – Sua companhia preenche minha solidão, já me sinto mais feliz apenas com o seu retorno – ainda olhando para o chão, ela continuou. – Por sorte, a vossa majestade pôde ouvir o meu chamado.

Nenhuma resposta.

- Devolva a minha beleza, deixe que sua serva olhe para a senhora.

A rainha sentiu um toque viscoso em seu queixo. Vagarosamente, ela deixou que seus olhos, guiados por um par de mãos frias e mortas, encontrassem o rosto da Beleza. Quando seus olhos tocaram a feiúra da Beleza, uma nova ponta de alegria surgiu em seu coração. Descobrir que era mais bela do que a própria Beleza, devolveu-lhe a alegria desaparecida. A beleza da rainha era a feiúra dos outros. Talvez, toda a Beleza compartilhe desse dilema. “Olhe o quanto os outros são feios. Você é bela, veja só.” A beleza é a feiúra distante.


[esse conto foi inspirado em um poema escrito por mim e um amigo, Ross, durante um seminário inútil na faculdade]
Fillipe Evangelista
Enviado por Fillipe Evangelista em 06/10/2007
Reeditado em 06/12/2007
Código do texto: T683292
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Fillipe Evangelista
Divinópolis - Minas Gerais - Brasil, 32 anos
76 textos (5061 leituras)
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Fillipe Evangelista