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Moinhos da Holanda - capítulo I

 O inverno de Esther

Sobre os joelhos, trajando um antigo vestido tão querido, Esther, arrancava as ervas daninhas do seu santuário, um jardim de tulipas vermelhas com pontas brancas; ela extirpava as ervas daninhas e os sonhos, e jogava fora grãos de terra com ilusões, como quem varre vidro estilhaçado. De joelhos, seu vestido bege com enormes trevos de quatro folhas esverdeados bordados, um lenço amarelo claro sobre os cabelos grisalhos, longos, bonitos, eram fustigados pelos ventos fortes que sopravam dos campos. “Chora campo, chora ou clama pela minha alma” pensou ela. Enfim ergueu-se com dificuldade, e olhou para frente, onde três guardiões a espreitavam ao longo de quase 64 anos de belas primaveras. Ela deixou para trás então as ervas daninhas, os sonhos e as ilusões e atravessou seu santuário indo rumo a um portãozinho, branquinho como floco de nuvem preguiçosa; a cerca era também pintada de branco, de madeira nobre, norueguesa. Ela atravessou o campo rumo ao terreno dos moinhos, em mais ou menos cem passos, lentos e cansados, e pôs-se diante de seus guardiões.
Dispostos ao longo do terreno como as pontas de um triângulo isósceles, três enormes moinhos, majestosos, rangiam suas hélices com soberba ao sabor dos mensageiros ventos. Eles estavam ali desde que Esther conseguia lembrar-se, desde as primeiras brincadeiras de infância quando corria inocente pelos campos floridos daquela outrora abençoada terra. Com suas faces voltadas para o nascer do sol, aqueles moinhos ali já estavam há quase um século e meio, e haviam zelado pela existência de Esther. Até batizados, em sua adolescência, eles eram por ela; Hugo, Homero e Hélio.
Esther caminhou até o maior deles, passando pelos dois, Hugo do lado de seu coração, e Homero. Pôs-se diante de Hélio, lindo, majestoso, o mais velho dentre todos e o mais rebelde, pois suas hélices “eram teimosas, sempre foram!” (lembrava de seu saudoso pai dizendo-lhe isso quando ela ainda era a sardentazinha miudinha de sete anos com os sonhos dourados nos cabelos e esperança tingida nos olhos). “Hélio, o que me reserva hoje meu amigo? O que estes ventos querem dizer meu velho?” perguntava ela ao reclamante moinho que parecia ameaçador com suas hélices vagueando aos ventos.
Ela olhou para trás, a face plangente, em direção à sua casa silenciosa lá distante, dentro daquelas cerquinhas alvas; seu lar, seu diário abstrato de pensamentos, sombras, calor, abrigo e solidão. Pouco lhe restava a não ser capitanear velhos retratos amarelados e embaçadas lembranças. Pensou nos filhos distantes, náufragos em suas vidas na busca do sucesso, e nos netos que bebiam as frustrações de sua geração, mas com um aromatizante de tecnologia. A vida em si, os caminhos que eles seguiam apenas estavam pintados numa tela de mofada existência com textura de novas idéias que ela já conhecia muito bem. Enfim, Esther voltou sua face para Hélio, e sorriu, deixou a impressão do semblante triste para trás de si e seguiu como se fosse enfrentar o velho guardião. Passou, como sempre o fizera, num descuido intuitivo pelas suas hélices, mas já fizera tanto aquilo, tantas vezes, era automático, e não mais pensava no risco de ser atingida por uma das pás e simplesmente transformar seu nobre guardião em um indiferente carrasco. Mas não... Ela passara, sorrira como a menininha sardenta de outrora e adentrou no corpo de Hélio; este guardava em seu espírito uma atmosfera de sonhos, o cheiro da madeira umedecida, o ranger dos mecanismos, “um ronco gostoso” pensava ela, encantador, tão aprazível quanto os gemidos de seu companheiro de orgasmos que alimentou os mais belos dias de suas primaveras há muito anos passados. Ela ainda conseguia ouvir a voz dele em sua mente, sussurrando: “Você é linda! Você é linda demais Thezinha”. Aquele moinho era testemunha disso. Passados mais de 40 primaveras Hélio sabia sim o quanto ela tinha sido feliz ali, frutos de momentos furtados de uma vida infeliz ao lado de um marido ausente e acoólatra, do seu casal de filhos apáticos; uma família que fingia sonhar ser feliz e normal nos horários do café, do almoço, do jantar, das orações a um silencioso Deus. Nos jantares regulares, ela recebia a visita de um velho amigo e confidente, o Lord O’ Nora Hiono, que citava Voltaire, onde este dizia “que Deus havia criado tudo, menos a Holanda, que era criação dos holandeses”. Esse seu amigo amava aquelas terras, dizia que elas haviam saído de seu mundo de sonhos, e guardava os segredos da infelicidade de Esther, com bons conselhos, ousados quase sempre; era mais que um irmão para ela.
Mas Esther nunca conhecera a Holanda. Ali, naquele belo pedaço do paraíso na terra, distante demais das Terras Baixas, a Holanda se materializara pelas mãos de seus avós. E de seus pais. Mas agora tudo eram apenas reminiscências. Até mesmo seus filhos e netos, vivos, belos e bem-sucedidos, eram vagas recordações, como se cada minuto passado ou presente tangível caísse num abismo de banalidade e entorpecimento. Pesadelos porém mesmo eram as lembranças de seu extinto companheiro, morto miseravelmente longe de casa, quase enterrado como um indigente, que vivia com a alma, o espírito e o corpo sempre ébrios. Seu atropelamento tinha sido uma daquelas tragédias, epopéicas das quais se sente a dor sem saber o verdadeiro sabor das lágrimas. E Esther ali estava, dentro do coração de Hélio ,cercada, emaranhada, invadida por todas essas imagens e emoções, trançadas como numa teia de aranha, sutilmente trabalhada para ter um sentido na vida. Mas, “qual o sentido da vida?” pensara ali naquele instante. E caminhou por entre aquele grande e espaçoso cômodo, e podia rever-se nua, no frescor dos seus 20 anos, sendo chamada de “minha Mona Lisa”, “Meu arco-íris”, “Magia do meu olhar”; sim ela podia ainda ouvir a voz de Matheus, seu amor secreto, lhe dizendo tudo isso. E como depois de lambuzarem-se de amor, terra e perfume de madeira, ela se lavava na fita de água que corria na levada dos desvios internos de Hélio.  E lembrava-se de suas corridas pelos campos, afoita, para encontrar seu amor, usando seus vestidos floridos, os cabelos soltos da cor dos girassóis, com seus recantos íntimos desprotegidos para surpreender e incendiar os desejos do seu amado, ao uivo dos ventos que sempre anunciavam a hora de sua chegada.
Esther sentou-se ali num antigo compartimento, um banco em madeira escura que ela vira seu velho pai lustrar. E passou as mãos sobre ele, como se sentisse toda a energia que aquela madeira pudesse ter guardado, de tudo o que se passara ali no coração daquele moinho. O recanto de terra onde as sementes ela deixava germinar, que sua mãe lhe ensinara, e que tantas vezes fora seu leito de amor. Ela levantou-se e abriu com dificuldade uma janela de correr, de trilhos, que dava vistas para um declive do campo, por onde entrava a luz do sol poente, que nutria as sementes das tulipas que ela cultivava. Toda uma vida. Desde antes de sua primeira menstruação. Mas agora, tudo não passava de doces e saudosas reminiscências.
Subitamente ela percebeu que um silêncio rasgou o ar... Esther vira que o vento silenciara-se. Seu rosto ruborizou-se e ela sentiu-se tonta. Passou as mãos na fita de água que o moinho fazia correr em suas artérias e molhou a face. Apressou-se para sair dali, passou pela porta pesada do cômodo, pôs-se fora do moinho e, na caminhada súbita, sentiu um forte baque nos ombros e na cabeça. Foi projetada longe e ao chão. Um calor. Uma dor forte. De repente, apenas podia olhar o céu cinzento, os ventos silenciando-se e o moinho com suas hélices girando. Esther balbuciou algo, inerte no chão com algo melado e morno correndo em sua face:
- Hélio... Tem sangue em sua hélice...



                                                                                                                                                                       CONTINUA
Ronaldo Honorio
Enviado por Ronaldo Honorio em 13/10/2007
Reeditado em 17/10/2007
Código do texto: T692361
Classificação de conteúdo: seguro

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Ronaldo Honorio
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