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ESTE BRUXO ADIVINHA SEMPRE O PASSADO E NUNCA O FUTURO


     ESTE BRUXO ADIVINHA SEMPRE O PASSADO, NUNCA O FUTURO


Numa aldeia perdida no sopé da Serra de Stª Isabel, onde não chegam os ecos da civilização, reside um bruxo, conhecido pelo Milagreiro de Stª Isabel. Até aqui tudo normal, só que este bruxo tem o condão de adivinhar sempre o passado e nunca o futuro.
Não raro o dia, reunia junto de sua casa uma fila interminável de pessoas que o procuravam para remover situações malfadadas da vida. Os que o procuravam, eram provenientes dos mais diversos estratos sócio-culturais e também diferentes estratos etários, sendo que a grande maioria era proveniente de pessoas da faixa periférica e vinham até de terras longínquas, onde chegava o rumor das suas premonições.
Estava criada uma cadeia de informações tal, que a difusão se fez mais rápida que a velocidade da luz. Não aconteceu por acaso e antes de ser um bruxo de créditos firmados, era primeiro um homem super esperto, que soube como ninguém tirar dividendos da crise social e cultural e de todas as enfermidades que gravitam em torno das pessoas, tais como: a saúde, infertilidade, amor, felicidade, atracção…
Este bruxo, outrora artesão de calçado rústico, que fabricava tamancos, chancas, socos, socas e solipas e que viu o seu trabalho definhar com o crescimento da indústria de calçado, encontrou na sua própria superstição o móbil que haveria de desenvolver para fazer face à sua própria sobrevivência e do seu agregado familiar. Tomando isto por princípio, o Milagreiro de Stª Isabel desenvolveu os seus saberes e leu tudo o que lhe vinha à mão, sobre bruxaria ou feitiçaria.
Ao fim de algum tempo, já seguro e confiante, montou “banca” de bruxo e toda uma logística que haveria de fazer dele renomado bruxo, que adivinhava sempre o passado e nunca o futuro.
Inicialmente desempenhava a actividade num barracão, outrora sua oficina de tamanqueiro que adaptou. Dividiu-o em diversas salas, entre as quais a sala da feitiçaria, a sala de audição, a recepção com recepcionista que registava as pessoas pela ordem de chegada, entregando-lhe uma senha numerada, para a chamada e uma sala de escuta, que através de um postigo estabelecia contacto com o bruxo. Sala esta que é o centro nevrálgico de toda a bem urdida vigarice. Na sala de feitiçaria havia um altar, um incensório, velas e óleos. Tudo muito básico. Foi este o “material” que o levaria a fazer “carreira” fulgurante.
A esta carreira, não se pode dissociar o nome de um taxista conhecido pelo Espanhol, o qual recebeu este alcunha por em jovem ter fugido para Espanha, em fuga ao serviço militar e que regressou depois de uma amnistia geral. Este taxista encarregava-se de publicitar as virtualidades do feiticeiro e deste modo garantia trabalho permanente para si e para o Milagreiro bruxo.
O bruxo antes de questionar as pessoas e de exercer o seu “ofício”, falava-lhes do seu passado e de acontecimentos que ocorreram nas suas vidas tais como: mortes trágicas, das doenças havidas, de desavenças familiares ou de vizinhança, de morte de animais domésticos (porcos, vacas, galinhas…), de amantes que maridos ou esposas tinham, separações, divórcios, acidentes de viação, desemprego, dívidas e toda uma panóplia de coisas a que as pessoa estão sujeitas.
Sem dúvida, que o bruxo acertava sempre nestes acontecimentos e era com base nestas certezas confirmadas, que o capital de confiança depositado nele se afirmava. Às pessoas, fazia espécie tanta adivinhação, só não sabiam que o taxista durante a viagem os “confessava” e que depois de identificado o “cliente” pelo número que a recepcionista lhes entregava para a chamada, o taxista entrava na salinha da escuta, pela retaguarda, a tal sala por onde passa a bem urdida vigarice e aí passava ao bruxo todo o “confesso” feito durante a viagem aos “clientes”.
Assim, também eu adivinhava o passado, mas o futuro, o bruxo ainda anda à procura do modo de o adivinhar, tal como eu.

Para quem tão bem adivinhava o passado, até de adivinhar o futuro já se estava dispensado.

Na verdade, gente simples cai nestas vigarices e a impunidade continua a proteger aqueles que ardilosamente tramoiam os incautos. Pergunta-se, até quando?


A fantasia deste conto, tem contornos reais em qualquer canto do mundo.
Povo Lusitano
Enviado por Povo Lusitano em 15/10/2007
Código do texto: T695594

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Sobre o autor
Povo Lusitano
Portugal, 61 anos
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Povo Lusitano