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Corre Bruno!

Bruno quase nunca sonha ou não se lembra do que sonha. Naquela noite fria de inverno, vestiu seu pijama, deitou logo cedo. Mal fechou os olhos, acabou dormindo.
E assim seguia, naquele sono gostoso, quando sentiu um friozinho nos pés. Procurou o lençol, mas não o achou.
Abriu um dos olhos, preguiçoso, para ver onde houvera de estar o bendito.
Foi então que algo muito, muito impossível aconteceu...
– Estou voando! Eu... Estou... Voando!
Não é que Bruno estava mesmo voando. Afinal, se conseguia ver sua casa, a rua, a cidade e nada o prendia... Nem um cabo amarrado nas costas, nem um ultraleve ou coisa assim, só podia estar voando.
No começo, o susto. Balançou, em desespero os braços, para cima e para baixo, como um pardal. Mas logo percebeu que continuava subindo. E era tão... Fácil!
– Ai, meu Deus! E agora? Como faço para descer?
Bruno era só aflição. De tanto tremer, não notou que há alguns metros dele, uma garotinha também flutuava no espaço. Quando viu o menino, ela gritou:
– Ei, vizinho! Eeeiii! O que está fazendo no meu sonho?
Bruno espantou-se ao ver a vizinha, Carolina, voando no céu aberto. Mas não muito, pois voar já era por si só impressionante e ele também voava.

– Como assim, “seu sonho”?- Perguntou confuso.
– Não percebeu que isso tudo é um sonho, seu boboca?!
Ele achou a garotinha um tanto abusada. Sem falar que ela mal acabara de chegar. Quem lhe dera o direito de chamá-lo de boboca?! Abriu os braços e girou o corpo para ficar bem de frente para a irritada vizinha. O vento soprou nas costas e o levou para pertinho dela. Então protestou:
– Ora, Carolina! Se isso é um sonho, é o meu. Você é que está no sonho errado.
Os dois ficaram parados ali, no ar, um de frente para o outro, com as mãozinhas na cintura e cara emburrada.
Ela não se conformou. Defendeu seu protesto. Pois se o sonho era dela, o abelhudo do Bruno não cabia ali. Ergueu o dedinho indicador da mão direita e reclamou:

– Não, não, não! Vou mostrar a você que este sonho é meu. Quer ver?
– Carolina fechou os olhos, pôs as mãos na testa e do nada surgiram dois touros enormes e muito zangados. Soltando fumaça pelas narinas e, sem aviso, abriram carreira em direção ao menino.
– Ei, isso é covardia!

A ressalva de Bruno de nada adiantou. Ele voou o mais rápido que pôde para escapar dali.
Ele olhou para trás, com os olhos quase pulando de tão grandes e ficou ainda mais aflito ao perceber que os touros voavam mais e mais ligeiro atrás dele.

– Calma, Bruno – disse para si mesmo. Enquanto mordia a língua de tanto medo.
Carolina, ao longe, era uma figura quase microscópica, quando Bruno sentiu dois chifres pontiagudos furarem seu bumbum.
– Aaiii! Isso doeu!

Nesta ocasião, Bruno percebeu que já voltara repentinamente ao interior de seu quarto. Arregalou bem os olhos. Coçou-os. E só então suspirou aliviado. Jogou-se ao chão num salto e correu para a porta.
Queria o colo da mãe. Dormir no quarto dos seus pais era a sua salvação naquela noite. Mas, quando abriu a porta, quase que desmaiava...
A casa estava flutuando no meio do espaço. Era estrela para todo o lado, planetas. Um monte de luas e coisas assim. Sua casa ou o que sobrou dela, estava espalhada por todo o universo. Era telha para cá, pia para lá, fogão com panela e tudo girando sem direção. Ele recobrou sua coragem e esticou a vista á procura dos pais. Eram os melhores pais que um menino poderia ter. Tinha de saber onde eles estavam.
– Mãããee! Paaiii! – gritou desesperado. Mas só voltou o eco.
Bruno encheu os olhos de lágrimas. Depois engoliu seco. Chorar não era coisa de menino. E ele era quase um homenzinho.
Para sua surpresa, uma bisnaga de creme dental gigante flutuava ali por perto e o gorducho menino não tardou a pular do quarto para a bisnaga, pois entendeu que sua capacidade de voar tinha sumido junto com os touros e a vizinha encrenqueira.
Enquanto flutuava sentado na bisnaga, ele observou:
– Essa, não! Os peixes do meu aquário estão flutuando no espaço!
Havia bolinhas de água por toda parte, mas nem sinal do aquário com água.
– Quero acordar! – Tentou o menino, esfregando fortemente seus olhos. Mas de nada adiantou.

Quando começou a ver seus brinquedos: ursos de pelúcia, robôs de combate, jogadores de futebol, tigres dente-de-sabre e super-heróis passando por ele, achou realmente que estava maluco.
Bruno apertou a bisnaga que lhe servia de transporte com as pernas, isso o fez voar mais rápido. Enquanto o creme era empurrado para fora pensava aflito:

– Onde se meteu a minha mãe uma hora dessas.
Desenfreou-se a gritar com o que lhe restava de voz.
– Mãããeee! Onde está você? Mãããeee!
Súbito, surgiu a sua frente, uma gigantesca figura. Tinha assim, uns 30 andares. Era sua mãe. Mas nunca pensou que ela pudesse ficar tão grande. Bruno ficou abobalhado, de boca aberta um bom tempo.
– O que você quer menino! Pare de gritar, que eu não sou surda!
– É. Pensou Bruno. – Isso não é um sonho. É um terrível pesadelo!
Sua mãe gigante pôs o enorme dedo em seu peito e berrou:
– Escovou os dentes, Bruninho? Lavou os pés antes de dormir? Fez as tarefas da escola?
– Mas mãe é... Uma emergência! Prometo fazer isso assim quer sair deste sonho!
– Que sonho que nada! – Respondeu a mãe gigante – você é muito é preguiçoso.
Então pegou o menino pela gola do pijama, abriu sua enorme boca e o pendurou bem em cima.
– Vou comê-lo, agora! Assim nunca mais vai mentir para sua mãe.

Soltou o desesperado menino garganta abaixo.
Bruno gritava como um maluco, enquanto escorregava pelo estômago. Girou, bateu, quicou, rolou, só então chegou ao fim do estômago.
Logo encontrou por ali uma caixa de fósforos, acendeu um palito para iluminar a escuridão.
Olhou em volta e o que viu foi, nas extremidades, um monte de vermes. Seus olhos brilhavam de tanta fome. Alguns se lambiam ao olhar o suculento garotinho.
Bruno apagou o fósforo e fez a única coisa que poderia: gritou.
...
Mas, antes que fosse devorado pelos cistosomas famintos, uma mão forte o agarrou pela gola do pijama, o alçou, rumo ao alto, balançando-o preso a uma corda!
Bruno, apavorado, sequer quis olhar para cima para descobrir quem era seu suposto salvador. Logo estavam seguros, numa fenda da parede gástrica.
Bruno, então, abriu bem os olhos, virou a cabeça bem devagar, quase que em câmera-lenta...
Era seu pai, seu Geraldo, que o olhava com ar de paciência.

– Pai?! Como conseguiu chegar aqui? Indagou com espanto.
Ora, Bruno. Do mesmo jeito que você! Sabe como sua mãe fica uma fera, quando esqueço de comprar o pão.
O menino só então observou que o pai estava vestido com um traje espacial, daqueles que a gente só vê nos filmes e quis saber o porquê.
– Onde conseguiu esta roupa de astronauta, pai? Está se parecendo com o Dartevader, de guerra nas estrelas!
O homem não titubeou:
– É o traje especial para missões ultramegahiper complexas!
Bruno não discutiu mais o assunto. Sossegou um pouco e quis saber como iriam sair dali. O pai puxou do bolso um tipo de controle remoto, apontou para um ponto á frente e gritou:
– A mim... minha nave!
E mais rápido do que nós possamos dizer: imediatamente, uma nave super futurista surgiu, voando lá do esôfago, planou aos seus pés.
– Vamos, Bruno! Bradou o pai, decidido. – Temos que sair antes do jantar!

Voaram bem depressa dali, com a ajuda dos jatos propulsores da nave “ultramegahiper futurista” ou coisa assim.
Como a enorme boca da mãe estava sempre abrindo e fechando, de tanto que ela reclamava com seus irmãos, Bruno e o pai não tiveram dificuldades para sair. Passaram rapidamente pela sala, e dirigiram-se para o quarto. Bruno notou um movimento estranho, esticou o pescoço olhando para baixo.
Blau, o gato da família, acompanhava com certa inquietação cada movimento e acrobacia da nave, que para ele, era tão pequenininha quanto uma barata. Blau adorava comer baratas. Bruno sentiu um frio na espinha e engoliu seco. Escapar do estômago da mãe, dos touros enfurecidos e dos vermes famintos já oferecia, por si só, problemas suficientes.
– Pai! Paiiêêê! O Blau está perseguindo a gente!- Gritou, tentando alertar o pai. Mas ele não o ouvia de tão concentrado no volante.
-ZÁPPTT!
O gato, num salto, atirou sua pata contra a nave e a fez quicar por todo o corredor. Por sorte, acabaram indo parar, embaixo do armário da cozinha. O pai, de tanto ziguezaguear, estava meio tonto. Bruno o segurou por um dos braços:

– Corra! O Blau está no nosso encalço, pai!
– Estou correndo!
Ambos abandonaram a nave quebrada e, mais que ligeiro, procuraram abrigo entrando pelas frestas e misturando-se aos cereais na dispensa.
Ufa! Que susto. Com este, já eram quatro.
– Como vamos voltar ao normal? Estamos menores que pulgas? – quis saber o Bruno.
– Se conseguirmos chegar à garagem, conseguiremos voltar ao tamanho normal, filho.
– Como?... Não sei nem como fiquei deste tamanhinho! Duvidou.
– É que lá na garagem tem o meu “ultramegagigahiper conversor de tamanho pluricelular”. É só apontar para nós dois e... Pimba! Voltamos ao normal.

Bruno não quis ao menos repetir o nome da coisa, mas aceitou a afirmação do pai. Porém, como fariam para chegar à garagem? Que na atual situação estava a uns mil quilômetros de distância.

Ficaram ali, pensando, pensando... Tentando encontrar uma solução. Quando se viram cercados por uma verdadeira frota de formigas. E elas eram muito maiores que eles. Uma delas aproximou-se de Bruno e o reconheceu.

- Você é o filhote de gente grande, que chamam de Bruno?
- Sim, sou eu! – Bruno estava surpreso, mas não amoleceu.
- Puxa! Como você encolheu, menino?
- Eu sou a formiga Néli. Sou chefe das operárias, cuido da locomoção dos alimentos ao nosso formigueiro.
- Onde fica o formigueiro, Srta. Néli? – Bruno perguntou.
- No fundo do quintal, próximo a cerca. Por quê?
- Se não for engano, vocês cavam túneis e transportam seus alimentos através deles, não é?
-Sim. É isso mesmo.

O menino calculou que conseguiria chegar à garagem onde estava a engenhoca de nome esquisito, mais rápido e sem ser devorado, pelo gato, caso fossem pelos túneis construídos pelas formigas. Era como usar um atalho. Leu em um livro que as formigas construíam túneis de muitos metros em volta do formigueiro. Isso seria sua salvação. O pai sem nada entender não deu uma única palavra.

-Dona formiga. Estou disposto a fazer um acordo de cavalheiro com a Srta., caso nos ajude a chegar à garagem.
A formiga ficou curiosa. Ouviu atentamente o valente garotinho:
...

Bruno prometeu esconder da mãe, todos os formicidas que encontrasse, para que ela não os usasse para aniquilar as pequenas formiguinhas, além de sempre colocar um punhado de açúcar mais perto do formigueiro, vez ou outra, para ajudar as formigas. Em troca, elas os levariam a garagem para que fizessem o desejado.
Tudo acertado. Bruno e seu Geraldo subiram nas formigas e seguiram viagem. Quando já estavam perto da entrada do túnel que ficava próximo ao cantinho do banheiro, aconteceu o inesperado:
Alexandre, irmão mais velho de Bruno, estava saindo do banheiro e sem olhar para baixo, pisou um monte de formiguinhas.
Foi um caos total! Era formiga correndo por todo lado, caindo, berrando, com as patinhas na cabeça... Bruno e seu pai eram os últimos da fila das formigas. Até que tentaram correr, mas o pé era mesmo muito grande e não puderam. Bruno olhou para cima e esperou o pior.
E assim foi o seu fim. De dezenas de formigas e do seu amado pai.
...


- Bruno! Bruno! – era a voz da mãe – acorda, menino. Olha a hora da escola.
Ele não se moveu por alguns instantes. Abriu o olho direito... Varreu o quarto, pairando a vista sobre o olhar curioso da mãe.
- Você está se sentindo bem, Bruno?- Nem respondeu.
Deu um salto, largou os lençóis e pulou no colo da mãe. Num abraço tão forte que ele estranhou.
- Mãe! A senhora não é mais gigante! E é tão legal!
Sapecou-lhe um beijo no rosto e correu para a sala onde encontrou o pai, sentado assistindo TV, com o jornal mão. Jogou-se no colo do homem e embaralhou todo o jornal:
- Paizão! Que bom que o senhor tá normal! Normal! Que bom.

O pai não entendeu aquilo, mas achou que era coisa de criança. O menino gorduchinho não cabia em felicidade e alívio. Foi ao quintal e olhou as árvores e a grama.
Parou próximo ao formigueiro e sorriu.
Ele acreditou que aquele sonho não acabaria nunca. E em alguns momentos, quase duvidou que fosse um sonho. E olha que ele quase nunca sonha... Já imaginou se resolve sonhar todos os dias?! Bruno prefere não pensar nesta terrível possibilidade.



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Wam Nick
Enviado por Wam Nick em 16/10/2007
Código do texto: T696736

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Recife - Pernambuco - Brasil, 43 anos
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