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Moinhos da Holanda - capítulo II

A Iluminação de Esther


Era uma noite daquelas em que um artista andarilho das estrelas pintara um tom prateado no tecido índigo do universo. Durante o dia, no fim da tarde, Esther presenciara uma cor afogueada no crepúsculo, um rosicler, como seu pai lhe ensinara, e, naqueles ares, ela sabia que a noite ia ser daquelas abrilhantadas. Estava com 22 anos, bela como uma orquídea. Já era mãe de Filipe, de três anos, e de Stefanie, de um ano. Seu marido tinha sido seu amiguinho de infância; mais que amigo. Foi com ele que Esther teve suas primeiras brincadeiras ousadas naquele mundo campestre, o primeiro toque, o primeiro beijo e o primeiro amor, assim ela sonhara.  Enfim, sem muitos recursos de conhecer outras pessoas, pois o povoado era tradicional demais, todos envolvidos em seus afazeres nos campos, e, apesar das muitas festas, ela nunca tivera muita liberdade; única filha entre três outros irmãos que sempre a trataram como uma empregada da casa. Culpa do pai; contribuição silenciosa da mãe. E o tempo foi moldando-a para ser apenas a esposa do seu amigo de infância. Até ao nascimento de Filipe tudo era felicidade, porém após o nascimento de Stefanie tudo mudou, como se o dia tivesse sido acobertado por nuvens cor de chumbo, e seu querido companheiro se tornou um ausente representante e vendedor de produtos agrícolas que muito viajava, entre vindas e idas de bebedeiras sem fim. O pequeno sonho de Esther acabara em menos de duas primaveras; o “felizes para sempre” tornara-se apenas uma fantasia.
Aquela era mais uma noite, uma noite prateada. E era aniversário de seu casamento: quatro anos de casada. Filipe e Stefanie dormiam profundamente. Seu marido? Em algum estado, distante, quem sabe embriagando-se e divertindo-se com sorridentes mulheres estranhas. E ela, ansiava por um único sorriso em sua própria face; desejava, ali nos seus dourados 22 anos, estar desacorrentada daquela escravidão que viera disfarçada como sonhos de uma família feliz. E, sentindo-se só, com as crianças dormindo, saiu. Passou pela varanda, pelo jardim de tulipas, pelo portão e foi em direção ao oceano da noite. Um vento gelado, ameaçando tornar-se mais forte, mas agradável, tocava sua face e preenchia seu vestido, um sensual trapézio verde-claro. Os cabelos longos ora sobre os ombros, ora esvoaçantes, acariciados pelos frios ventos. E, foi rumo aos moinhos. Pareciam sempre intimidativos no meio da noite, mas tal quais anjos com suas missões sagradas acima do bem e do mal, eles eram como guardiões para Esther. Ela os ladeava, brincava passando por entre suas hélices, e tocava seus corpos; fazia isso com Hugo, depois com Homero, e sempre se detinha diante de Hélio, o qual ela sempre tratava com carinho, e, naquela noite ela o tocou com tristeza. Pensara: “Hélio, meu amigo, expurgue essa tristeza do meu peito ou atravesse-me com suas hélices e me dê o descanso”. E chorou, ajoelhando-se diante dele como em prece, as palmas das mãos ao chão, as lágrimas chovendo em seu colo. Um lamento que nem os ventos abrandavam.
- Senhora... Senhora... o que houve? Uma voz atrás dela a assustou e Esther levantou-se de súbito pondo as costas no majestoso Moinho. Recompondo-se e olhando a figura diante de si, falou:
- Matheus... Matheus, o que fazes ainda na fazenda há essa hora, todos já se foram.
- Sua mãe senhora, sua mãe... Pediu-me que eu lhe trouxesse esse bolo de cenoura, ela me disse que a senhora pedira a ela mais cedo.
Esther caiu em si. Realmente mais cedo ela dissera à mãe que estava com saudades da velha receita do bolo de cenouras com frutas cristalizadas que somente as mulheres da família conseguiam fazer com um velho segredo que ela própria nunca havia ainda acertado a mão.
- Eu a vi saindo de casa senhora – continuou Matheus – e te encontro aqui chorando... Desculpe... aqui está o bolo. Tenho de ir. Amanhã pego cedo no plantio.
Esther estendeu as mãos e pegou a grande forma com o bolo, bem embrulhada, agradeceu e quando Matheus, um jovem e tímido trabalhador da fazenda ia embora, um universo passou pela mente dela. Ele, dentre os oito empregados da fazenda quase nunca a olhava com atenção; os demais a comiam com os olhos e ela tinha consciência, apesar do mascarado respeito que nutriam por ela, em decorrência da rigidez das diretrizes de trabalho e autoridade de seu pai, que todos eles sabiam que ela era vítima de um casamento infeliz, e já ouvira furtivamente, comentários dos mais nojentos do que eles poderiam fazer com ela se tivessem uma mínima chance. Mas Matheus não, era diferente. Jovem, como todos, tinha 19 anos, mas a respeitava tanto que ela se sentia uma senhora diante dele. Cabelos pretos, pele morena, devido ao sol, rosto marcante, sério, era o trabalhador de confiança de seu pai. Tudo foi muito rápido, passou tudo àquilo em sua mente, e quando ela o percebeu dando os passos para ir embora, disse:
- Matheus, fique... Divida comigo esse bolo.
Ele voltou-se e assentiu com a cabeça timidamente. Ela não disse nada, apenas empurrou com as costas a pesada porta do moinho atrás de si, entreabriu-o e entrou; olhou para  Matheus e convidou-o a entrar sem dizer coisa alguma. Os ventos ainda acirravam-se. Ele entrou com ela, e foi rapidamente acender duas grandes lamparinas para iluminar o ambiente. A porta fechou-se abruptamente, como se Hélio os encerrasse ali e os protegesse dos ventos que aumentavam lá fora. “Venha”, disse Esther, já se sentando no banco de madeira muito bem lustrado por seu pai, ao lado do canteiro de sementes de tulipas. Matheus a acompanhou. O velho moinho girava suas hélices lá fora rapidamente, o ranger das engrenagens aumentava e a fita de água corria mais forte por entre suas artérias. O coração das plantações de tulipas, girassóis e rosas eram esses moinhos. Esther olhou para Matheus, sorriu para ele, desembrulhou a travessa, expôs o bolo e o dividiu com as mãos. Olhou para ele de novo: “Importa-se?”.  Ele disse não a olhando nos olhos pela primeira vez, profundamente, mas de modo cândido. Ela dividiu com as mãos dois pequenos pedaços do bolo. “Posso?” , disse ela ofertando a ele um pedaço, pondo na boca de Matheus. Nervosamente ele entreabriu a boca e aceitou. Provou. Seus lábios tocaram os dedos dela. Ela arrepiou-se. Os lábios de um outro homem tocaram seus dedos. Seu ventre tremeu, contraiu-se. Suas pernas tremeram. Seu ninho cálido ficou úmido. Seus lábios secaram. Seu diafragma em frenesi.  Ela levantou-se, a mente em delírio, ia sair dali, quando Matheus disse:
- Você é mais linda do que todas essas tulipas que você cultiva no seu jardim, mais linda que as estrelas e mais formosa que uma rosa Esther... Mas, tenho de ir embora, desculpe por lhe dizer isso... vou pedir demissão – e levantou-se indo rumo à porta.
- Não - gritou Esther - fique... Repita para mim o que acabou de me dizer...
E ele repetiu. Ela sorriu e apaixonou-se por aqueles dizeres. Ele sorriu, e ela amou aquele sorriso. E dos olhos dela brotaram lágrimas em meio aos sorrisos de ambos. E de pé, olhando-se, parados, com suas respirações ofegantes, eles não ouviam mais os ventos lá fora, nem o ranger do velho moinho. O mundo estacionara para ambos naquele momento e um universo nascia ali dentro.


                                                                         CONTINUA
Ronaldo Honorio
Enviado por Ronaldo Honorio em 17/10/2007
Reeditado em 18/10/2007
Código do texto: T697676
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ronaldo Honorio
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