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Os Passáros Perdidos

 Era um rio sujo e caudaloso, onde esgotos das industrias e casas caíam sem parar, sujando a triste areia de seu leito, deixando-a acinzentada e pardacenta.
No portão da empresa em que trabalhava, havia um entupimento no esgoto principal, e por isso vário homens se punham em frente ao portão principal da rua, na tentativa de consertá-lo. Uns a cavar o chão para encontrar a galeria que deságua no rio que passa em frente da empresa, outros com o mapa da galeria na mão a estudá-lo, para tentar descobrir aonde poderia estar o entupimento. Como era hora de almoço, alguns trabalhadores se propunham a olhar o trabalho dos escavadores na calçada, na tentativa de encontrar a galeria principal que deságua no rio.
Misturados a todos os outros eu lá me encontrava, próximo do muro olhando os escavadores e o rio poluído em frente, que neste dia estava apenas com um filete de água escura em seu leito, cheio de areia acinzentada, deixando ver o seu fundo. Havia muitos lixos e até animais mortos, galhos de árvores se prendiam em suas margens, num leito de águas fétidas de esgotos que corria lentamente. Quando mais adiante rio abaixo, bem depois da galeria da empresa, eu avistei um saco de estopa enorme com alguma coisa dentro, que a principio presumi ser um animal morto, mas depois vi que se mexeu, e qual não foi meu espanto quando do outro lado do rio uma mulher gritava para aquele saco pedindo alguém para sair dele, e segui-la para a sua casa. Por um momento pensei que a mulher fosse uma louca andarilha, dessas que a gente vê na rua, mas a sua vestimenta não condizia com a de uma louca. Então o saco se mexeu mais uma vez e vi a cabeça suja de um rapaz sair de dentro dele. De repente resolveu se levantar e sair do saco sujo, todos puderam ver então que se tratava de uma jovem mulher de quinze ou dezesseis anos aproximadamente. Rapidamente subiu a margem do rio e se dirigiu na direção em que a mulher chamava. Estava com o vestido completamente em frangalhos, deixando ver claramente a calcinha e o pequeno “soutien”. Chegando perto da mulher, essa lhe falou alguma coisa e tentou convencê-la a segui - lá, mas a moça toda suja de lama, não parava e não queria ou vi-la, indo de um canto a outro da rua; a mulher atrás dela prá lá e prá cá. Juntava gente para ver o triste espetáculo.
No meu canto, ficava comovido e triste por ver tão intensa e deprimente cena, e pensava a que nível o ser humano pode chegar se não for tratado com respeito e entendimento. Parecia que aquela mulher era sua mãe que tentava, a todo custo, levá-la para casa e dar-lhe um bom banho, a qual ela a todo o momento, se desvencilhava. Pude notar também, que a moça parecia estar bêbeda ou drogada e se encontrava bem agitada. A rua ficou cheia de gente, assim como a maioria dos empregados da empresa, que estavam em horário vago, saíram todos para ver.
Depois de algum tempo a mulher se cansou de correr atrás da moça suja e rasgada e foi embora, abandonando-a na rua a sua própria sorte no meio da multidão. Ela então veio andando, com o pouco vestido que sobrara, e completamente sujo, em direção ao portão da empresa, e pude ver, apesar de estar completamente suja, que ela era bela e formosa, de olhos e tez clara, cabelos castanhos claros, de boa altura parecendo mais um manequim. Mesmo suja, sua beleza brilhava e realçava, bastando ver os olhos das pessoas em volta, para notar que estavam extasiados diante de tamanho contraste da bela e suja.
Ao passar perto de onde eu estava, a princípio não lembrei de onde a conhecia, mas seu rosto me era familiar. Lembrando da mulher falando, reconheci, tratava-se da filha de uma conhecida minha, que há alguns anos não a via, e certamente aquela mulher magra e acabada, seria ela, pois, olhando bem de perto a moça, vi claramente os traços do rosto da minha conhecida.
No primeiro instante, tive vontade de segurar a moça e levá-la para dentro da empresa e dar-lhe um banho, depois de emprestar a minha toalha, para que se cobrisse. Mas vi que isso era impossível. Como meu turno já havia terminado, pensei em pegá-la e levá-la para casa, pois morava perto da empresa com minha irmã, e assim fiz. Entrei correndo na empresa, peguei minha toalha de banho no armário e trouxe para cobri-la. Já na calçada, tentei chamá-la pelo nome, mas não me lembrava ou não sabia, então tentei segurá-la sem se aproximar muito, para que não me sujasse, apenas esticando os braços, lhe ofereci a toalha, a qual aceitou e se enrolou, com isso pude me aproximar e pedi para ela se acalmar e sossegar. Não sei se ela vendo um homem se aproximar e lhe estender ajuda, e não uma mulher, obedeceu, o fato é que se acalmou e escutou o que eu dizia. Como morava na mesma rua mais embaixo, já disse, fui conduzindo-a para a casa de minha irmã, na esperança, que depois que eu a explicasse quem era aquela moça, ela cuidasse e lhe desse roupas limpas. Pediria a ela que lhe desse um banho de mangueira no quintal para tirar a lama grossa de esgoto, que lhe entranhara a pele, o cabelo e o vestido, e depois nua, faria com que lhe desse um banho de verdade com sabão de coco e tudo o mais, passando-lhe álcool pelo corpo, depois de secá-la bem. Foi isso que resolvi para estupefação geral de colegas, e da multidão que assistia impassível.
 Em casa de banho tomado, roupa limpas e cabelos penteados, ninguém reconheceria agora aquela mulher que se encontrava dentro daquele vale imundo e nojento. Era mais bela e linda do que eu supunha, em nada se parecendo com a menina que eu vira há alguns anos. Tentei em vão saber dela, aonde morava a sua mãe e família; ela não sabia ou não queria falar. Procurei então encontrá-la para lhe dizer, que sua filha estava bem e sendo tratada em casa de minha irmã, mas não consegui achá-la. Já se passara uma semana, e a moça que até agora não se lembrava do seu nome, dei-lhe o nome de Rosa, e de Rosa, eu e minha irmã a chamava.
Com o tempo Rosa parecia que estava com o comportamento normal de uma pessoa, já conversava e comia tranquilamente. Eu procurando sempre saber seu nome o endereço de sua mãe e parentes, o qual nunca se lembrava, transmitindo a idéia a qualquer pessoa que perguntasse, que preferia esquecer a ter que lembrar.
   No fim de duas semanas Rosa dava sinais de estar completamente integrada a sociedade, não tentara nem uma única vez escapar e parecia feliz com seu novo lar. Sentava a mesa tomava café da manhã , ajudava na arrumação da casa, depois assistia televisão até a hora do almoço, quando então ficava na varanda olhando os pássaros nas árvores existentes no quintal, vendo-os cantar e beliscar os insetos que lhe servem de alimentos, nos caules das árvores. De vez em quando apontava um, que razava mais baixo em busca de uma palha de ninho e outro que saía do quintal, em direção a rua.  À tarde, ela pegava um livro e não o largava antes das 18:00 horas, quando então voltava à varanda ou ao quintal e ficava olhando o céu e os pássaros retornarem aos seus ninhos antes da caída da noite. Durante trinta dias foi assim .
Nessa mesma época minha irmã criava em uma pequena gaiola, um canarinho belga de cores e matizes variada, que ia do ouro Java ao vermelho tarde e que a todos encantava. Sempre ao amanhecer, quando a manhã começava a raiar e a primeira luz, ele emitia seu canto agudo e suave, como que acordar a minha irmã e anunciar o alvorecer de um novo dia. Enquanto minha irmã não se levantava, ele ficava a chamá-la até ela lhe dar a devida atenção, quando então ela chegava próxima a gaiola e brincava com ele chamando-lhe louro; ele então levantava sua cabecinha como que a olhar, balançava-se todo, emitia um canto mais longo e silenciava, depois se punha a pular nos estribos para lá e para cá. Notei que ele já me conhecia e quando estava perto da gaiola, emitia um canto curto, como a que chamar-me.
Mas foi com Rosa que ele mais se identificou, pois quando a via, cantava sem parar enquanto ela não se afastava da gaiola. Rosa tentava imitá-lo mas ele não dava trégua, mudando o canto a toda a hora em que ela pensasse a fazer o mesmo. Minha irmã ficou com ciúmes mas não se fez de rogada, tentou lhe agradar o máximo possível, superalimentava-o e prestava atenção a mais leve tristeza que o pássaro esboçava. Era de uma graça sem fim, parecia que nos queria dizer algo, e somente Rosa entendia. Rosa por sua vez estava cada vez mais integrada, Já ia as compras com minha irmã e na rua perguntavam quem era aquela moça que estava sempre a lhe fazer companhia, o que minha irmã replicava, que era uma prima, que viera de longe para passar uns tempo em sua casa. E nem de longe eles poderiam supor que se tratava da mesma moça do valão. Rosa ainda continuava um pouco fechada, falando quase nada, mas notávamos que se sentia agradecida por tudo que fizemos por ela e se mantinha obediente e casta, mostrando que era boa menina. Porém havia algo em seu olhar imprescritível, que não sabíamos traduzir, parecia que olhava para outro mundo que não era esse. Durante mais algum tempo, tentei encontrar a sua mãe, mas por fim, cansado resolvi ir a polícia e comunicar o acontecido, mas não houve tempo. Numa tarde de sol quente, quando regressava do trabalho, encontrei a gaiola do canário aberta, procurei-o por toda casa e árvore do quintal mas não encontrei-o. Logo depois chegou a minha irmã e lhe relatei o que havia encontrado, Rosa não estava em casa, achamos estranho, pois, ela podia sair, claro, mas nunca saía, por isso pensamos que ela tinha tirado o canário da gaiola e levado na mão ou no ombro para passear, já que ele era manso a este ponto, parecendo que se dava muito bem com Rosa. Ficamos esperando a volta de Rosa com esta vaga esperança, a noitinha já se aproximava e nada de Rosa aparecer. Quando ouvimos o canto do canarinho no quintal, corremos os dois esperando que Rosa tivesse voltado com ele na mão, mas não era bem isso, no alto da copada árvore do quintal lá estava ele cantando, e assim que viu minha irmã emitiu o canto característico que fazia sempre que a acordava de manhã, se balançando todo muito feliz, quando me viu emitiu o seu canto curto, como que a dizer-me que me reconheceu, ficou ali cantando e sacudindo seu pequeno corpo durante meia hora. No início minha irmã o chamava para voltar, para vim pousar em suas mãos, ele voava de um lado para outro, chegava perto dela, mas não se aproximava muito, houve uma hora em que este chegou a pousar no seu ombro e a bicar-lhe o rosto levemente, como que a lhe fazer carinho; depois voltava para a árvore e ficava a fitá-la mudo, tornando a cantar logo depois. Enquanto isso eu corri para pegar os alçapões de gaiola, para tentar capturá-lo, mas quando consegui encontrá-los e voltar correndo, minha irmã chorava e já não pedia ao pássaro que voltasse, apesar dele estar muito mais próximo a ela e cantando. Eu ainda armei os alçapões na esperança de capturá-lo, mas ela com os olhos cheios de lágrima me impediu e soluçando dizia para deixar para lá, pois agora tudo entendia, ele viera apenas para se despedir dela e estava anunciando a sua gratidão e liberdade, falou.  Então o pássaro veio mais uma vez em seu ombro, beliscou seu rosto, cantou e voltou para o galho da árvore em que se encontrava, mudando desta vez o canto, canto que eu e minha irmã já mais ouvira. Então surpresos vimos quando outro canário chegou perto dele e juntos emitiram um canto em uníssono da mais rara beleza e timbre, pudemos então notar que o outro canário era uma fêmea. Só aí então me lembrei de já tê-la visto nas arvores do quintal; aparecera pelo menos umas quatro vezes, desde quando Rosa chegara, seria impossível que Rosa e minha irmã não a tivesse notado, apesar de nunca vê-la cantar, cheguei a confirmar isso com minha irmã, que me retrucou dizendo que pelo menos uma vez vira o pássaro novo no quintal, mas não sabia se Rosa tinha notado, pois sempre que ele aparecia Rosa nunca estava presente. Nesse momento lembrei-me de Rosa que até agora não chegara. O pássaro emitiu mais um canto e voou, junto com sua nova companheira, minha irmã chorou, e confesso que fiquei muito triste, pois entendemos naquele momento como nunca, quanto vale a liberdade. Voltamos para o interior da casa cabisbaixo e sentamos nos sofás, um de frente para o outro, pensativos que nem sequer lembramos mais de Rosa. Quando o vento bateu a porta da sala e saímos dos nossos absortos pensamentos, perguntamos ao mesmo tempo. Aonde estava Rosa?
Já começava a anoitecer, o sol claro e o céu de nuvens amarelo, amarelaram à tarde. E as vermelhas, davam lugares a nuvens escuras e a um céu escuro, prenunciando não chuva, mas a noite que se aproximava rapidamente. Quando minha irmã resolve entrar no quarto que fora de Rosa enquanto estivera conosco. Em uma mesinha de cabeceira estava um bilhete endereçado a minha irmã, com letras quase initendíveis onde ela dizia, que tinha soltado o canário, porque este lhe dissera que queria voar, e que não lhe levassem a mal mas ela também sentia o mesmo, e agradecia por tudo  pedindo que entendessem os pássaros.
                                         

                                         FIM


                                                 




Luiz Martins
Enviado por Luiz Martins em 18/10/2007
Reeditado em 28/10/2007
Código do texto: T699929

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