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Moinhos da Holanda - capítulo final

O mensageiro de Esther


O automóvel rasgava com rapidez aquela bela estrada, asfalto azulado cercada de pinheiros e o Lord O’ Nora Hiono ainda ousava dizer ao seu motorista: “Mais rápido, mais rápido”. Seu cenho transpirava preocupação e seus olhos castanhos lacrimejavam ansiosos por detrás dos óculos redondinhos dourados que sempre usara. Seus 73 anos estavam bem marcados na face, seus poucos cabelos alvos estavam espalhados, ao sabor do vento que varria o interior do carro vindo pela janela aberta; a paisagem de pinheiros, como soldados em formação, passava velozmente enquanto filtrava os últimos raios da luz do sol daquele tarde criando um efeito quase estroboscópico em sua mente. Foi nesse ínterim, rumo à fazenda onde morava Esther, sua amiga mais considerada, que Lord Nora começou a pensar no que tinha de dizer-lhe, e do quanto eram significativas àquelas informações que levava consigo numa carta, amarelada pelo tempo, escrita há 38 anos atrás.
Lord Nora era o confidente de Esther muito antes de seu casamento. Acompanhou toda a sua vida, seu breve momento de felicidade no casamento, o declínio deste, o romance secreto com Matheus que durou exatamente quatro primaveras, o falecimento de seu marido nesse mesmo período, a dedicação dela em criar os filhos, gerenciar a fazenda criando híbridos de tulipas e rosas que lhe valeram muitos prêmios e a escolha em viver naquela solidão, sem nunca ter casado novamente. Todo mês a visitava e passava o fim de semana com ela divertindo-se, jogando buraco e xadrez, discutindo assuntos diversos oriundos de leituras que selecionavam mensalmente, obras de grandes clássicos da literatura. Faziam de seus fins de semana um ambiente como os banquetes dos clássicos filósofos gregos, onde pouquíssimos e reservados amigos apareciam, convidados por ela, para esses mágicos encontros. Tinha sido assim desde o desaparecimento de Matheus, ele evaporara no ar, do espaço, como tivesse sido abduzido, justamente no mesmo mês em que Esther ficara viúva. Foram eventos dramáticos em sua vida. Duas perdas, uma desestruturadora de um lar já decadente e a outra um mistério que durara quase 40 anos. Era esse mistério que aquela carta amarela em seu bolso solucionava.
Esther era um encanto, pensava ele. Ao longo da criação de seus filhos, mesmo angustiada com o mistério do desaparecimento de Matheus, permitiu-se, por influência dele mesmo, ter algumas aventuras amorosas insípidas, mas ela não permitia que nenhuma durasse mais do que o necessário. Ele não lembrava dela ter tido casos, e foram pouquíssimos, que tivessem durado mais de um ano e sempre encerrados abruptamente por ela.  Parece que ao longo desses últimos 38 anos ela partira o coração de alguns homens que se humilhavam atrás dela na fazenda, mas ela era irredutível. Não era não e pronto!  Sem qualquer chance de fazê-la mudar de opinião.
- Droga, ela não atende o telefone – reclamou Lord Nora, pela enésima vez. Desde que saíra de casa no outro condado, ele estava ao celular ligando para a fazenda há mais de 6 horas e nada, ninguém atendia. Ligou para um vizinho da fazenda dela e também não obteve sucesso. Era fim de semana, muitos dos vizinhos viajavam, e quase não haviam empregados na propriedade, e na de Esther não era exceção. Seus filhos, Filipe e Stefanie, casados e com suas famílias e filhos moravam distantes e ligavam esporadicamente. Lord Nora havia ligado para eles, tentando checar alguma informação dessas seis horas de silêncio de Esther, mas eles não sabiam de nada. Algo no coração de Lord Nora intuía que algo estava errado, ele se preocupava muito com a condição solitária de Esther, mais do que os próprios filhos e irmãos dela. Enfim, olhando à esquerda para fora do carro já se podia ver a fazenda abaixo no vale. Podia avistar os três moinhos, toda a plantação de girassóis, tulipas e rosas, sempre mágica essa visão maravilhosa de sua chegada naquele povoado que parecia estacionado no tempo; tudo aquilo era um deleite para ele. Era um pedaço da Holanda naquelas terras, um recanto do paraíso. Seu coração acelerou-se ainda mais com a possibilidade da chegada. Ele olhou para a direita, a luz do sol ainda era filtrada pelos pinheiros, e na velocidade em que o automóvel ia, ainda produzia um efeito estroboscópico, quase hipnótico, e sua mente parecia mergulhar num mundo meio surreal enquanto o carro descia a serra e mergulhava no caminho rumo ao vale e ao povoado abaixo. Enfim chegaram. Lord Nora desceu auxiliado por seu motorista e pediu que este o acompanhasse. Estacionaram há poucos metros da grande e bela casa e com passos rápidos, doloridos devido a dores nas articulações, o velho Nora, acompanhando de seu motorista, se posta diante da cerquinha branca que circundava a casa. O portãozinho estava entreaberto, ele seguiu em frente, passou pelo jardim de tulipas, o laboratório e santuário de Esther e adentrou na casa. “Esther, Esther...” chamou ele bem alto. Pediu a ajuda do motorista para vasculhar toda a casa. Olharam cada canto e cômodo e nada. “Olhe lá fora, procure para mim nos arredores, chame por ela bem alto” ordenou ele ao motorista que saiu rápido para sua tarefa.
Lord Nora sentou-se, estava cansado, ansioso, com dor na nuca, coração batendo disparado. Olhou aquela casa silenciosa e ficou triste por um instante. Levou a mão ao bolso do paletó e retirou um envelope grande de papel amarelado, onde dentro uma carta ainda mais amarelada continha o segredo do desaparecimento de Matheus. Sua mente só não se distraíra mais em razão dos chamados do motorista pela “senhora Esther, senhora Esther”, que ecoavam lá fora cada vez mais distantes. Sentado ali naquela sala, naquela casa que tanto o abrigou e tanta alegria tivera, Lord Nora envolveu o rosto com suas mãos num gesto de desespero, murmurou: “Meu Deus...”.
De repente ouviu o som forte dos passos pesados e rápidos de seu motorista que entrou assustado correndo pela casa e anunciando:
- Senhor, eu a encontrei... Perto do grande moinho senhor, acho que houve um acidente, precisamos chamar socorro médico.
- Ajude-me a ir até lá - disse com voz embargada Lord Nora, enquanto passava seu celular para o motorista. Saíram da casa indo rumo ao moinho; as pernas pesavam, os passos eram lentos e seu coração acelerado parecia que ia explodir no peito. Ele seguia o motorista que já ao celular chamava uma emergência. “Meu Deus, meu Deus” pensava Lord Nora. Foram quase dois minutos preenchidos por uma eternidade, quando diante do grande moinho ele viu o corpo de Esther ao chão.
- Esther, gritou ele em desespero. Olhou para o motorista que estava de costas e gritando ao celular exigindo uma ambulância. Aproximou-se do corpo de Esther, abaixou com dificuldade e tocou em sua pele. Estava fria. Ele gritou ao motorista que trouxesse água. Chamou por ela em seu ouvido: “Esther, Esther... Não se vá Esther”.  O Motorista chegou, vindo de dentro do moinho com uma cuia de barro com água. Lord Nora molhou o rosto dela, limpou um pouco do sangue que já estava meio coagulado no rosto dela e chamou de novo seu nome. Um silêncio enorme se fez. “Ela ainda tem pulso senhor”, alertou o motorista, “eu chequei”.  Lord Nora chamou por ela de novo, sentou no chão e pôs a cabeça dela em seu colo cuidadosamente. Foi então que ela abriu os olhos. Esther olhou para ele com um olhar distante e murmurou: “Nora”. Ele disse: “Fique quietinha, não fale, mas fique comigo, ouça-me”. Com sua mão esquerda ele segurou a mão esquerda dela; ela o segurou, tinha forças ainda nas mãos. “Fique comigo Esther, tenho uma notícia para você”.  Ele buscou desesperadamente a carta com a outra mão, abriu-a com dificuldade e disse: “Esther, Esther... Tenho o mistério aqui revelado. Essa carta é de uma irmã dele, foi endereçada a você há 38 anos, mas nunca foi postada no correio, por um infortuito descuido de família. Mas encontrei familiares dele que haviam guardado a mesma. Ela conta o que aconteceu minha amiga... Ele nunca a deixou e sempre a amou, mas os rios da vida tomam rumos estranhos às vezes”.
- Leia pra mim Nora, leia pra mim... – murmurou ela com dificuldade, mas com um brilho mais forte nos olhos e apertando a mão esquerda dele.  E lord Nora começou apressadamente a lê o conteúdo da carta:
“Estimada senhora Esther, tenho notícias para ti que não são as que desejava obter, nem a nossa família que nesse momento sofre demais, mas como meu irmão me falou da senhora, de vosso grande amor, minha consciência precisava se encarregar deste ofício. Estimada senhora, Matheus, meu querido e jovial irmão foi vitimado de um dano cerebral, uma epilepsia, algo que nunca imaginávamos que fosse acontecer em nossa família, e nem em tempo tão tardio na vida de um ser humano. Ele estava preparando as coisas para mudar-se, para ir ficar junto de ti. Ele me dissera que a senhora ficara viúva e que agora vocês podiam ficar juntos e viverem seu grande amor. Nesse dia, há dois meses atrás, ele se preparava para ir de vez embora daqui de nossa casa, mas antes saíra para comprar algumas coisas e disse que voltaria logo. Saiu e não voltou. Fomos avisados por estranhos algumas horas depois que ele estava internado num hospital local aqui de nossa cidade e quando lá chegamos, ele não reconhecia mais ninguém, tinha lapsos de memórias, mal conseguia falar e tinha sofrido um derrame. Não quero dar os detalhes da Via Crucis de meu irmão, prezada senhora Esther, mas ele faleceu duas semanas depois após sua internação, vitimado por inúmeras crises que os médicos não conseguiram conter. Senhora dói demais, e dói ainda mais saber que ele me revelara que o amor que tinha por ti era tão grande que ele sentia-se o homem mais feliz deste mundo, e que apesar da infelicidade da perda de seu marido, Deus, disse-me ele, encontrara uma forma para que vocês pudessem então viver o grande amor de suas vidas. Senhora Esther, vou encerrar aqui, espero que esta a encontre forte e cheia de esperanças, mas não tenha qualquer dúvida de que meu saudoso irmão amou-a unicamente e partiu com o coração cheio de esperanças de que estava vivendo a felicidade da qual poucos homens são abençoados. Aqui encerro, com meu pesar e estimado carinho pela senhora.” “Assinado Julia Van Dyker”, encerrou com voz embargada Lord Nora.
- Ele não me abandonou Nora – murmurou Esther, esboçando um sorriso – eu sabia, eu sabia, eu sempre tive certeza de seu amor...
- Sim Esther. O amor sempre foi real, mas a vida dele foi interrompida. Agora, fique quietinha... Não fale, a ajuda está chegando...
  Esther sorrira. O sorriso lindo brotou nos seus lábios.
De repente o motorista alertou que a ambulância chegara
- Esther, chegaram... Esther... – chamou Lorde Nora. Esther pendera o rosto para o lado esquerdo em seu colo. Sua mão esquerda soltou-se de sua mão e ela expirou, aquietando-se.
Um vento inesperado varreu o terreno. Depois mais ventos. Nora caiu em si que quando chegou tudo estava calmo e agora aquela brisa forte voltara. Ele olhou para o motorista e sacudiu a cabeça negativamente. Tomou a cabeça de Esther, tentou sentir seu pulso, mas nada. Enfim, apenas passou as mãos sobre suas pálpebras e cerrou seus olhos. Seu rosto estava calmo, parecia quase delinear um sorriso. Lord Nora levantou-se cuidadosamente e deixou-a ali, nada mais poderia fazer. Olhou para o grande moinho à sua frente e pensou: “Está consumado Guardião, seu mensageiro cumpriu sua missão”. Voltou-se para o vale atrás de si, e foi rumo à casa de Esther, passando pelos dois paramédicos que iam rumo ao grande moinho. Ele chegou ao portãozinho branco, parou e olhou o jardim de tulipas, voltou-se para os moinhos novamente e começou a chorar aos soluços. Os ventos varriam o terreno, sacudiam as tulipas, faziam girar mais rápido as hélices de Hélio, Homero e Hugo. O sol se escondia atrás das montanhas naquele momento e um crepúsculo afogueado tingira o céu.




                                                                                                                                    FIM

Ronaldo Honorio
Enviado por Ronaldo Honorio em 19/10/2007
Código do texto: T700793
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