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Nos olhos

Durante o sono, caminhei por estradas desconhecidas. Árvores que nunca havia visto, pássaros estranhos, flores de cores nunca vistas. Tudo novo, a cada passo uma marca na terra de textura indescritível.
Mais adiante, ouvi o som de uma tigela a cair diversas vezes. Andei mais depressa para ver o que havia. Ao chegar uma criança de uns três anos, de aparência oriental, o cabelo raspado apenas no meio da cabeça, deixando dois tufos de cabelos negros. Suas pálpebras apertadas mal deixavam vislumbrar os negros olhos. A pequenina mão segurava a tigela de metal fino. A deixava cair e seu som rodopiava até parar e sua mão uma vez mais a pegava e soltava. Não sei porque, mas aquilo me deixou paralizado. O som metálico que crescia e para depois sumir, me pareceu de início perturbador, porém após um tempo já me faziam meditar profundamente. Até que meus olhos se fecharam e a escuridão veio.
Ao abri-los uma vez mais, percebi ainda permanecer no mesmo local. A criança não estava mais lá, mas havia deixado sua tigela. Ajoelhado, caminhei até o objeto e o peguei nas mãos. Era leve, mas ao mesmo tempo, tão denso. Segurei-a entre os dedos levemente e deixei-a escapar. Ao tocar o chão, seu som formou uma grande onda, como essas que se faz ao encostar o dedo na água. A cada movimento da tigela, antes de parar, um onda era formada, fazendo com que o chão todo mudasse e de repente fosse coberto de estrelas. A terra tornou-se o espaço e entre os brilhos distantes das estrelas estava eu e a tigela.
A segurei uma vez mais e deixei cair. Suas ondas agora formaram um caminho de luz que se estendeu até longe, formando um templo distante. De dentro do templo apareceu uma figura, um velho de roupas grandes e azuis, que às vezes misturavam-se às estrelas, fazendo parecer que sua mãos, pés e rosto flutuavam.
Um som de flauta percorreu o espaço. O velho pôs-se a fazer amplos movimentos, como e dançasse. Girava os braços, as pernas e cantava. Era uma música sem letra, alguns sibilos e gemidos como uma criança pequena. Peguei a tigela e a deixei cair uma vez mais. A estrada de luz aos poucos foi tomada por flores, que escalavam o caminho até chegar ao templo onde o velho dançava. Pude vê-lo sorrir, enquanto cantava e dançava, repleto de flores ao seu redor.  A tigela caiu uma vez mais e ele então girou causando uma enorme chuva de flores, subindo em espiral para depois cair, preenchendo o universo de perfume.
Agora deixava a tigela cair no mesmo ritmo que o menino, enquanto o velho dançava entre as flores e nuvens que apareciam a cada queda. Dançou até chegar próximo de mim, então parei. No mesmo instante ele parou de dançar e permanceu de pé à minha frente, enquanto o caminho, as flores e o templo se dissipavam, nos deixando rodeados de estrelas.
Olhou-me nos olhos. Não conseguiria dizer o que vi, apenas que seus olhos refletiam as estrelas e depois nada. Abriu os braços e fiz o mesmo. Veio em minha direção e esperei seu braço, mas apenas atravessou-me, como se fosse feito de vento.
Olhei para trás e vi seu corpo correr para longe, dançando, até desaparecer entre as estrelas.
Daniel Cavalcanti
Enviado por Daniel Cavalcanti em 20/10/2007
Código do texto: T702336

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Sobre o autor
Daniel Cavalcanti
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil, 30 anos
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Daniel Cavalcanti