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[Fantasia] Destino

- Finalmente – disse Neitran quebrando ossos humanos sob seus pés. – O Machado de Shin irá salvar minha vida.

O bárbaro caminhou pelo vale e alcançou a arma recostada na rocha.

- Dez anos de busca e agora posso mudar meu destino.

Fechou os dois punhos no cabo do machado de guerra e impôs sua força para puxá-lo.

Uma década havia se passado de sua iniciação à idade adulta. Naquele distante dia, o jovem Neitran, príncipe bárbaro da Aldeia de Gri, entrou na tenda de Jargiel, pronto para o rito de passagem.

Jargiel era o mestre Shaitan da tribo, uma classe de feiticeiros responsáveis pelos ritos espirituais do povo bárbaro. Fumaça verde inundava o ambiente com um cheiro acre, tomando todos os sentidos de Neitran.

- Preparado? – perguntou o feiticeiro aproximando-se do iniciante que, sentado em um círculo cavado na terra, assentiu com a cabeça.
 
Colocou a mão de unhas encardidas na fronte de Neitran e soprou um pó escuro em suas narinas. O bárbaro se contorceu e seu corpo começou a sofrer espasmos. Parou e abriu os olhos com a íris totalmente acinzentada.

Entrou em transe e o destino se descortinou diante dele. Viu-se um pouco mais velho, gritando enquanto um monstro rasgava-lhe ventre. Pôde sentir as garras da imensa criatura albina abrindo-lhe uma ferida mortal. Acordou suado, segurando o próprio ventre.

- Uma visão de morte – disse Jargiel.

- Não – meneou a cabeça. – Eu não posso morrer assim. Sou um príncipe bárbaro.

- É seu destino. Você é prisioneiro dele.

- Não pode ser – Neitran levantou-se furioso e segurou o shaitan pelo pescoço. – Faça alguma coisa.

- Não posso fazer nada – respondeu engasgado. – Me solte.

O bárbaro andou de um lado para o outro na tenda enfumaçada.

- Quero outra visão – gritou Neitran. – AGORA!

Sentou bufando no círculo; ainda podia sentir seus sentidos aturdidos pela última infusão. Jargiel, mesmo a contragosto, o atendeu, realizando novamente o rito.

Mais uma vez, Neitran entrou em transe. Viu sangue, mas não era seu. A lâmina esverdeada de um machado de guerra cortava o couro do imenso Urroah, tingindo de vermelho seus pelos brancos. Viu com clareza o símbolo de Shin gravado no cabo da arma.

Despertou arfando.

- O Machado de Shin. Ele pode me salvar do meu destino. Com ele matarei o Urroah albino.

- Você jamais o encontrará – disse o shaitan. – Há três séculos que esta arma maldita não é vista. É uma busca em vão; ela não pode livrá-lo do seu destino. E você conhece a história do Machado de Shin.

- Sim, conheço. O rei Hakrum encomendou um machado para Shin, a criatura elemental além da fronteira. Ela exigiu a alma de mil guerreiros bárbaros para fundir a arma e foi atendida.

“Hakrum levou mil de seus soldados para além fronteira, onde, desarmados, foram emboscados e assassinados pelas criaturas de Shin. Com as mil almas, forjou o machado, incorporando os espíritos na lâmina esverdeada. Porém, o machado voltou-se contra o rei. As mil almas do machado possuíram Hakrum e o levaram ao suicídio.”

“Alguns shaitans perceberam que o Machado de Shin estava amaldiçoado e o esconderam.”

- Não só um Urroah albino é um mau agouro, mas a arma que você deseja pode ser uma maldição ainda maior.

- Não sou prisioneiro do meu destino. Vou mudá-lo com o Machado de Shin.

Saiu da tenda com uma missão que iria tomar dez anos de sua vida adulta. Uma década de guerra e de destruição em busca do objeto que salvaria sua vida.

Expandiu os limites da tribo de Gri, sempre buscando e interrogando shaitans e descendentes do Rei Hakrum. Chacinas e torturas tornaram-no o príncipe bárbaro mais temido de todas as tribos do país.

Depois de quase uma década seguindo pistas, muito delas falsas, localizou um shaitan recluso no Abismo do Corvo; Franor, era o guardião do segredo que buscava e, a princípio, não pretendia revelar a localização do machado.

Porém, Neitran sabia ser persuasivo. Arrancou-lhe três dedos e as duas orelhas. Cavou-lhe buracos na carne e cobriu-os com óleo fervente; cozinhou-lhe uma das mãos e ameaçou assar um de seus pés; Franor desmaiava e, tão logo recobrava a consciência, o príncipe bárbaro reiniciava as torturas.

Depois de três dias de mutilações, implorando por uma morte rápida, Franor traiu toda a tradição de sua Ordem e revelou onde estava o Machado de Shin: além da manancial do principal rio do país, havia uma passagem por entre as rochas. Depois dela, um vale onde se achava a chave para a libertação de Neitran.

Finalmente Franor teve seu desejo realizado. Foi morto com um único golpe.

Sozinho, o bárbaro continuou a jornada. Não queria correr o risco de ser roubado quando estava tão perto de se ver liberto de seu destino.

Alcançou a nascente do rio, localizou as rochas e atravessou a passagem. Ali estava Neitran. Ossos humanos e de animais forravam o chão e estalavam por baixo de seus pés.

Quantos já estiveram ali antes dele? Quantos buscaram alcançar o Machado de Shin e morreram no vale? Nada disto importava. Tinha plena convicção de que não morreria no vale; sabia que seu destino era possuir aquela arma e com ela derrotar o urroah albino, livrando-se do seu destino.

Empunhou o imenso machado; sua lâmina irradiando luz esverdeada. Estremeceu com seu poder, sentiu-se invadido por muitas almas. Os ossos pareciam separar de sua carne e a pele ardia como fogo. Sentia que nada poderia detê-lo.

Um som trepidou os ossos no chão. O urro ensurdecedor ecoou pelo vale e Neitran viu-se diante de seu destino. Mais à frente, um Urroah albino atravessava a passagem rochosa. Três vezes maior que um bárbaro, sustentado pelas patas traseiras, transformava em pó os ossos em que pisava.

Urrou novamente, revelando mandíbulas com fileiras de dentes afiados e caninos capazes de perfurar um homem de um lado ao outro.

Neitran não esperava que seu encontro com a morte fosse tão logo encontrasse a arma. Aliás, não esperava desafiá-la justamente por ter partido em busca do Machado de Shin.

Assim como em seu transe no rito da passagem, lutou com o Urroah albino. Desviou das garras afiadas da criatura que parecia um urso gigante. Sentindo o poder da arma, atacou. Feriu a espessa carne do animal tirando-lhe não apenas sangue, mas uma ira ainda maior.

O urroah avançou e atingiu o ventre do bárbaro, rasgando-lhe a vida. A mente de Neitran fundiu-se com o transe de dez anos atrás. Viu-se diante do seu destino, um prisioneiro que pensava estar fugindo, mas, na verdade, caminhava em busca dele.

Quando sua alma se desprendia do corpo, lembrou-se das palavras de Jargiel: “É seu destino. Você é prisioneiro dele.”

Kzar
Enviado por Kzar em 21/10/2007
Reeditado em 28/10/2008
Código do texto: T703689

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Sobre o autor
Kzar
Mundo Novo - Mato Grosso do Sul - Brasil, 40 anos
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