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Eu prefiro no banco de traz

Como é bom viajar, mas toda viagem tem os prós e contra. Quando se pensa em viajar, de início vem o local onde vai ser depositada a estada de visita. Escolhemos o lugar e as pessoas mais agradáveis possíveis para o convívio desses tão esperados dias de férias. Mais a lembrança que mais marca no apanhado de todas, sem dúvida, e do prazer de estar sentado no banco de traz do carro, se possível próximo a janela. No banco de traz, você se isola de um papo chato que possa estar rolando entre os companheiros de viagem, fica mais próximo de sair primeiro assim que estaciona o carro e além do mais, tem o encosto pra apoiar a cabeça se der sono. Aliás como é bom dormir na viagem, parece que é um sono especial. Ameniza a distancia e relaxa o corpo, que parece que contrai os músculos com o incomodo de ficar muito tempo sentada no mesmo lugar. Depois de arrumar as malas e as acomodar no porta malas segue-se a viagem. Eu prefiro sempre viajar a noite, durante o dia não me agrada a idéia: pelo movimento que é maior, a temperatura enfim.... Pra mim, quando vou a algum lugar diferente , já quero conhecer os caminhos e notar as diferenças de onde moro e pra onde estou indo. De uma cidade para outra, vai-se notando as características do lugar. Mudam-se as paisagens, a vegetação o estilo das estradas se a rodovia tem boa conservação e sinalização. Dependendo da direção que se toma, ganha-se ou não vidas nos pastos, os animais são familiares ou raros. Nas minhas primeiras viagens, o legal era curtir a tonalidade da vegetação. Como era na região mesmo, não havia muita diferença. As árvores iam ficando cada vez mais escassas uma das outras e perdendo a quantidade de galhos, sendo esses muito longos e com um tronco mais esguia. As vezes muita plantação de cana-de-açúcar ou laranja. Lá de longe, quando havia uma curva ou outra, via-se uns pontos brancos unidos representando o gado, que pastava tranqüilamente pra se alimentar. As vezes uma região mais alta no solo, mais uns barrancos e depois braços de rios...Dependendo da época do ano, pegava-se as queimadas próximas da usinas de cana-de- açúcar. Essa imagem era a mais corriqueira, mais tinha uma beleza especial. A rodovia muito escura e aquele clarão alaranjado e amarelo que dava uma sensação de inferno e céu pela beleza. E aos poucos ficavam pra traz... A gente ia se aproximando de cidades muito pouco desenvolvidas, que pra mim, eram vilas de tão subdesenvolvida. Lá de longe começavam os vistigios de civilização. Começava sempre assim uma casa muito simples, um placa anunciando “Estancia tal”, “Bem vindo a cidade Fulana” e mal começava a entrar na cidade já estávamos de saída. Trevos...hoteizinhos, postos de gasolina... estrada de novo. Com o tempo ficou mais interessante a viagem, avistava-se algumas montanhas, cheiro de mar e cidades muito evoluídas e já castigadas pelo seu próprio progresso. As vezes a casa simples anteriormente, na memória e contrastada com casinhas frágeis penduradas em morros e uma poluição visual muito agressiva. Viadutos gigantes e um ar tão poluído que castiga a visão. Faz raspar a garganta, um odor fétido que ensaia uma dorzinha de cabeça que promete. É a invasão do progresso da capital que vai ganhando o palco da viagem. Passando por aquela confusão de carros que nunca andam, pessoas apressadas, contrastes sociais e urbano, começamos a ganhar uma pista mais ampla e mais arejada e pedágios e vem a serra do mar. Uma explosão de natureza logo mais adiante e muitas luzes acesas e umas ondas dançando lá em baixo. Litoral e suas belezas naturais com muito urbanismo. Muda tudo. A temperatura a umidade do ar, o cheiro, o jeito das pessoas, os locais as opções... novas gírias, outros povos. De pastos o cenário foi ganhando pedras, muita água salgada. Agora os pontinhos brancos são de aves. O cheiro de poeira e da poluição é substituído pela maresia. Numa dessas viagens observatórias minhas , peguei muita chuva e temporal. Não pelo fato do clima, mais por estar indo, sei lá, pela segunda ou terceira vez pro sul do país e pondo em prática toda a minha mania de conhecimento. Com a mudança de temperatura, puxei um cobertor e me apoiei no vidro do carro e fui recapitulando as estradas que já tinha passado. Ansiosa em ver as primeiras mudanças vegetativas e de solo entre uma curva e outra. Daqui pra lá, encontramos mais rios e as matas eram mais verdes. O solo já sofria algumas elevações e formavam alguns planaltos. Muitas montanhas faziam paredes e achegam as árvores, e alguns pinheiros. Alguns córregos e lagos já se exibiam pelo decorrer dos quilômetros. A chuva pesava no capo do carro e deixava a visão mais fosca. Essa fizemos durante o dia. Mais era um dia muito próximo do nosso começo de inverno aqui. Ficava pensando em como Deus é maravilhoso e perfeito em criar tanta diversidade de suas criações. Nas curvas dávamos de frente com imensas montanhas de pura rocha e não eram apenas barrancos e sim pedra maciça. Ao mesmo tempo queria engolir toda aquela beleza. Contemplar já não era o sufiente. Muitas fotos , mais que não revelavam a sensação real que sentíamos naquele instante. Entravamos e saiamos de todos aqueles corredores naturais. Era uma pena aquele asfalto tomar o espaço pra que entrasse o progresso naquele cenário. Quase não haviam animais... Só muita natureza. Cessou a chuva e um lindo arco-íris rasgou o azul do céu. Particularmente eu nem queria chegar a lugar algum. Só viajar por cenários e cenários. Toda hora uma surpresa. Naquele dia eu nem dormi, porque seria um desperdício. Naquele cenário natalino natural, com tantos pinheiros quanto sete copas por aqui , os pontinhos brancos eram os carros. Do banco de traz do carro é bem melhor viajar, temos mais chance de divagar a atenção. Podemos nos calar e ignorar alguma coisa chata e viajar na imaginação. Se o passeio não valer a pena ao menos Deus se encarregou de nos satisfazer naturalmente.

Débora Costa
Enviado por Débora Costa em 22/10/2007
Código do texto: T704566

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Sobre a autora
Débora Costa
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil, 41 anos
24 textos (1252 leituras)
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Débora Costa