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O ENCONTRO DO TERRÍVEL "MAL-AMÉM" E O MENINO DOS PÉS DE VENTO

O ENCONTRO DO TERRÍVEL "MAL-AMÉM" E O MENINO DOS PÉS DE VENTO



Era magro, dessas magrezas de menino que passa o dia jogando futebol. Os cabelos da cor de mel-com-terra, dizia-lhe a avó, passando seus dedos macios entre os cachos rebeldes. A mãe estava sempre a ralhar: hora de estudar, hora de se banhar, hora de comer, hora de rezar e hora de dormir. De brincar, minutos apenas, se dependesse da boa vontade de sua mãe. Tinha medo da escuridão e das almas. Aliás, era afoito somente para as brincadeiras e para sonhar. É verdade que jogando futebol era rápido e certeiro com a bola nos pés, mas isso  não era nenhuma valentia. Tinha até medo dos outros meninos, pulava as bolas divididas, mesmo assim, foi-não-foi, saia do campo de pelada cheio de marcas. Claro que procurava esconder da mãe aqueles registros sinistros de sua brincadeira preferida.  Seus pés eram de vento, voava com a bola. Sorria alegremente quando acertava um chute certeiro dentro do travessão de madeira de agave. A baliza não era simétrica, sempre estava pendente para o lado direito e isso dificultava o gol, mesmo assim, o menino teimava em deixar sua marca. Sonhava jogando bola, fazendo gols, vestindo uniformes famosos e maravilhosos. Mas não sonhava apenas com futebol. Sonhava com doce, com mel de engenho – às vezes tinha até dor de barriga, de tanto sonhar com comida gostosa. Porém, além de futebol e coisas gostosas, sonhava sonhos ruins, de meter medo. Seu maior medo era de pecado, antes mesmo da Igreja, aprendera com a mãe que isso e aquilo era pecado. Ficava a pensar, será que  Jesus não tinha sido menino, pois menino pode pensar coisas que em gente grande é pecado de verdade, mas em menino não devia ser nada. Menino devia ser perdoado, pensava. Como foi dito, tinha medo de alma, medo de pelar (deve ser assim chamado porque o sangue sumia da pele, só podia ser por isso). Mas medo mesmo tinha era quando, todas às noites, rezando com sua pobre mãe ela rogava aos céus que os livrassem do “mal-amém”. Que desgraça de bicho seria esse, que sua mãe tanto temia?  Algo pior que o curupira, mais terrível que a mula-sem-cabeça. Mais assustador que pistola de vacina.  Pior que a guerra do Vietnam, ora, ora, muito pior mesmo. A guerra estava lá longe, mas esse tal de “malamém”, vivia ali pertinho, a espreitá-lo todas as noites. Não ia ao quintal da casa para fazer suas necessidades depois que escurecia, com medo de um fatal encontro com a tal criatura.


Augusto N. Sampaio Angelim
29-10-07
Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 29/10/2007
Reeditado em 06/07/2010
Código do texto: T715464

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Sobre o autor
Augusto Sampaio Angelim
São Bento do Una - Pernambuco - Brasil, 56 anos
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Augusto Sampaio Angelim