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O enigma do tempo

Acordei entre as árvores de lugar algum. O sol não ultrapassava a densa camada de névoa que tudo cercava, mas era dia. Em algum lugar alguém vislumbrava o céu azul, do qual lembro-me vagamente, da época que era criança, de quando escolhi entrar no mundo de névoas do qual não existe saída.
Aqui não existem heróis e nem magia. Apenas árvores e névoa, apenas a umidade e a indiferença perante tudo. As árvores são diferentes, mas juntas, todas iguais.
Não sei por quanto tempo vaguei, nem quantos passos ou milhas andei, lembro-me apenas que queria esquecer e esqueci. E fui esquecido. Não mais era, apenas estava e estaria eternamente. Às vezes sonho e lembro-me de cabelos dourados, de olhos verdes, de um sorriso, uma risada. Mas nada sinto. Apenas desperto e me esqueço, assim como um dia esquecerei de mim e serei como mais uma árvore, única e igual as outras. Elas têm seus próprios rostos, suas faces folhosas e tristes, seu esquecimento.
Dos meus pés nascerão raízes, porém não lutarei, não tentarei fugir e nem me desesperarei. Estou apenas e estando não sinto medo, pois tudo passa, tudo gira e se transforma, como a névoa e o sol que por ela atravessa. Talvez seja possível vislumbrar um pedaço de céu no topo dessas árvores, mas não importa. O céu seria apenas céu, o sol continuaria sendo sol e ao longe o mar se abriria com todo o seu explendor, mas eu não o sentiria, pois não sinto, apenas estou.
Sou a passagem, o enigma do tempo, a escuridão que nunca chega e quando dormes, pensas em mim e depois me esqueces. Faço parte do teu passado, presente e futuro, sou teu tempo que nunca se vai, mas que sempre passa. Teu olhos perdidos me vislumbram, me enxergas entre todas as suas emoções, com meu olhar vazio e minha sombra antiga. Se apaixonas por mim e juras eterno amor e depois acordas e me esqueces.
Não sinto raiva por me esqueceres, nem dor, pois não sou e você é; estou e você não está. Por isso nos olhamos e nunca iremos nos tocar, por isso não terás tempo de sofrer ou de morrer, me esquecerás, como te esqueço. Assim será feliz na sua partida, e eu não serei nada, pois estou e assim, permaneço eterno em tudo que você perdeu e esqueceu.
Daniel Cavalcanti
Enviado por Daniel Cavalcanti em 31/10/2007
Código do texto: T717526

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Sobre o autor
Daniel Cavalcanti
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil, 30 anos
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Daniel Cavalcanti