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NUNCA DEIXAREI DE TE AMAR

                Lá fora o vento soprava forte, anunciando o inverno que chegava. Dentro da grande sala, o calor da multidão tornava o ambiente mais ameno. O primeiro concerto teria início em poucos minutos, reunindo dois nomes famosos da música. Ele, um regente famoso, com trânsito na Europa e grandes teatros, que vinha substituir o titular da orquestra que adoecera repentinamente. Ela, uma pianista que já sentira o gosto dos aplausos, mas se retirara para o anonimato, ninguém sabia exatamente por que. A grande apresentação teria início em poucos minutos e, por uma dessas ironias do destino, os dois personagens principais ainda não haviam se encontrado. Eram grandes conhecedores da música e, embora fosse desejável, podiam dispensar os ensaios. Bastava apenas seguirem as determinações das partituras. Nada que os autores não houvessem previsto, décadas atrás, quando os gênios ainda existiam. Crescendos, fortíssimos, pianíssimos, tudo estava em seu devido lugar, na estante de cada instrumento.
As luzes esmaeceram e a pesada cortina de veludo vermelho foi se abrindo vagarosamente, fazendo surgir a grande orquestra de cem professores, prontos para a execução de gala há muito programado. Elegante em seu terno preto, batuta na mão, o maestro adentrou o palco para assumir o pódio, saboreando os aplausos que enchiam a sala. Havia uma atmosfera de expectativa no ar. Platéia composta de pessoas exigentes, inquietas e ansiosas.
Vestido de gala preto, contrastando com o loiro de seus cabelos compridos, a pianista entrou. Caminhava firme, em passos curtos, como se medisse o alcance de cada passo. Colocou a mão esquerda sobre o instrumento, cumprimentou o público e tomou o seu lugar. Novos aplausos se fizeram ouvir. Afinal, o retorno da artista era esperado há muito tempo.
O silêncio se fez ouvir. Segurando a batuta, pronto para dar o sinal que iniciaria o concerto, o regente não pode deixar de sentir o arrepio que lhe invadiu o corpo. Era ela mesma, sem dúvida. Hesitou um segundo. Afinal, deveria ter tomado cuidado e observado o nome da solista, quando recebeu o convite repentino. Afinal, só haviam lhe dito que se tratava de um grande nome. Para o seu orgulho, era o bastante.
O público, tossindo baixinho, fazendo comentários em leves sussurros, nem percebeu que lá em cima, além da música, também se desenrolava um drama. Finalmente, o grande homem deu o sinal. Os primeiros violinos se fizeram ouvir, calmos, tranqüilos, convidando à meditação. Afinal, era exatamente isso que o russo Rachmaninoff imaginara há mais de cem anos. Cativar a alma dos humildes mortais. Enquanto examinava a expressão de cada um dos músicos mais próximos, o maestro sentiu o peso da saudade. Depois de muitos anos, o destino se encarregava de reuni-los novamente.
Assim, ele desviou o olhar em direção ao piano e seus olhos encontraram o azul inesquecível daqueles olhos que tanto amou e nunca deixou o mundo de suas lembranças. As recordações começaram a aflorar, aumentando a emoção que ele precisava controlar. Afinal, o que importava, naquele momento, era apenas a música. Pelo semblante do primeiro violino descobriu que estava deixando a partitura de lado, mas as pessoas pareciam gostar.
No breve intervalo entre o primeiro e o segundo movimento, respirou fundo. Sabia que as emoções do terceiro movimento iriam exigir muita atenção de todos os participantes. Mas, tudo isso não impediu que ele retornasse ao passado, naquela primeira vez em que executaram o mesmo trabalho e de onde surgira uma história de amor inesquecível. Veio à lembrança, de imediato, a emoção do primeiro encontro, naquele dia em que conheceu uma moça tímida e ansiosa por se aprofundar na música. Ensinou-lhe o que sabia e podia. Mas, os inúmeros compromissos internacionais impediram um relacionamento perfeito.
Um dia, ela também construiu a sua carreira e a distância entre ambos aumentou. Viam-se entre os ensaios e concertos. Não raras vezes, até em aeroportos. Mas ele sempre vivera na imensidão daqueles olhos azuis. Escreveram uma história apaixonada e terna que terminou num dia de verão. Acho que nem eles mesmos souberam por que. Ela partira para nunca mais voltar e, sem explicação, desaparecera do mundo musical, deixando um vazio imenso.
Trazido de volta à realidade pelos arpejos mais altos da musica, o maestro sentia as recordações afluírem uma a uma. Olhando para o piano, seus olhos se cruzaram pela primeira vez. Ela também tinha lágrimas de recordações. O intervalo entre o segundo e terceiro movimento os trouxe de volta à realidade. Agora, era preciso toda a atenção para o grande “allegro”, o mesmo que inspirou arranjadores americanos a adaptarem uma melodia com o sugestivo nome de “Lua cheia e braços vazios”. Era a realidade de ambos.
Enquanto o espetáculo caminhava para o término, o maestro tinha certeza de uma coisa. Jamais se esqueceriam um do outro. Mas, para ele, aquele concerto de inverno teria apenas um nome. A triste realidade de um encontro que terminaria com a música. Um encontro penoso de duas vidas que viveram juntas e que o destino separou para, talvez, nunca mais reuni-las. Um concerto feito de saudades, com um título que seria apenas a realidade “nunca deixarei de te amar...”

PPreto
Enviado por PPreto em 31/10/2007
Código do texto: T717606

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Sobre o autor
PPreto
Jaú - São Paulo - Brasil, 74 anos
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