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Desnascimento

Olá !
Estou muito feliz! Este conto que vocês lerão é o conto com o qual ganhei o terceiro lugar de menção honrosa no III Concurso Literário Professora Edith Braga. Agradeço a todos os meus amigos, familiares e, principalmente, minha querida professora Hosana, que sempre me incentivou a escrever e desenvolver este meu talento.

                                      DESNASCIMENTO

          Num dia qualquer, numa hora inexata, em um momento desconhecido, em época mais comum ainda, as coisas desnasceram. Isso mesmo: desnasceram!
          Foi um processo repentino, porém lento. Aconteceu uma coisa de cada vez, seqüencialmente.
          As rosas viraram botões. Depois apenas plantas verdes, sem colorido. Por fim, viravam matinhos e sumiam. O cão não corria mais atrás do gato que, por sua vez, não perseguia o rato, pois estes três já não existiam. As aves, em pleno vôo, voltavam a ser “pintinhos”, despencando do céu numa vertiginosa queda livre, transformando-se novamente em ovos, que desapareciam, antes mesmo de se espatifarem ao chão. O leão (minto, a leoa), correndo atrás do pobre antílope, viu sua presa virar filhote e desaparecer. Mas não houve tempo para se surpreender, pois desapareceu também, bem como todos os outros predadores e caças. As abelhas voltavam às suas colméias, onde entrando nos favos de mel, voltavam a ser larvas e deixavam de existir. As trabalhadoras formigas retornaram aos formigueiros, mas não saíram mais. As borboletas mutavam novamente em casulo e depois em lagartas e depois em ovos. Por fim, sumiam, bem como todos os outros insetos (não, dessa vez, as baratas não escaparam. Desnasceram também).
          No mar, não foi diferente: os cardumes já eram passado. Tubarões, golfinhos, algas, caranguejos, todos sumiram. Orcas desapareciam em pleno salto. Não se ouvia mais o canto das baleias. Os corais regrediam a meros conjuntos vocais, depois duetos, então solos. Por fim, restava uma eterna pausa, encimada por uma fermata num compasso sem fim, na melodia silenciosa da imensidão de um oceano sem vida.
          Por sua vez, o homem tentou compreender o que ocorria, pois via tudo que possuía desaparecer da sua frente. Na cidade, carros, casas, roupas, objetos do cotidiano evaporavam, voltando a ser matéria-prima inicial. No campo, a mesma coisa: o pastor que dormia encostado em uma árvore caiu (pois a árvore desnasceu) e acordou, assustado por ver que seu rebanho sumira e que ele estava sem roupa. Nem ele nem os outros mais de seis bilhões de seres humanos sentiram vergonha por estarem nus, pois antes que pudessem se dar conta disso, voltavam a ser bebês, sem noção do certo ou errado. Recém-nascidos que logo sumiam, desnascendo.
          Enfim, não havia mais vida  na Terra. Tudo desnasceu. Então, a água, o ar, todos os elementos e a própria Terra pararam. Não se sabe por quanto tempo, pois não havia ninguém (muito menos relógios) lá, para o medir.
          E o tempo passou, correndo... e após, logo após todos estes eventos, algo maior, grandioso, aconteceu. Todas as coisas ressurgiram. Entretanto, diferentes, de maneira pura, de uma forma imaculada.
          Da terra, brotaram as mais belas árvores. De todo o tipo. Tipos até exóticos. Os pássaros nasciam dos ovos recém-surgidos (e eis a resposta para a velha questão) e já saíam voando, dominando os céus. A orca do salto inacabado caiu na água, nadando entre peixes em profusão e corais que formavam um arco-íris no mar, enquanto as borboletas, um oceano de cores no ar. As formigas saíram da terra em fila, já começando seu trabalho. As abelhas catavam o néctar virgem das novas flores. As baratas também voltaram... mas não eram nojentas. Eram até bonitinhas...
          O homem, então, renasceu, mas em pouca quantidade. Esses logo compreenderam que o evento do desnascimento foi uma reação da natureza à sua ganância, seu egoísmo. Bem mais eficaz que terremotos, tsunamis...
          Eles se encarregaram de transmitir a seus filhos e aos filhos de seus filhos esse conhecimento, para conscientizá-los a cuidar da Terra.
          E passou-se o tempo (de novo, veloz como sempre)...
          A Terra, já povoada como antes, era um caos. A poluição fez surgirem pestes, doenças, devastação, pobreza. O homem voltou a ser ganancioso e tudo voltou a ser como era. Os que acreditavam nos conhecimentos antigos tentavam provar que o desnascimento era real, mas eram vistos como loucos: “onde já se viu tamanho absurdo!”, diziam uns. “Desnascimento? Impossível. Conto de fadas”. Os mais formados declaravam: “não há prova evidente de tal fenômeno”.
E assim continuou a raça humana.
          Uns lutam para preservar o planeta, proteger o que resta. Outros pensam apenas nos lucros, não ligam para a natureza. E, enquanto isso, a Terra prepara, silenciosa e discretamente, o último (e talvez definitivo) desnascimento.
Bernardo Muniz
Enviado por Bernardo Muniz em 01/12/2007
Código do texto: T760881
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Bernardo Muniz
Caucaia - Ceará - Brasil, 29 anos
10 textos (518 leituras)
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Bernardo Muniz