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O som das palavras

Eu estava fazendo sete anos. Irmão Juxis estava na casa dos meus pais para os preparativos para meu oitavo sacramento infantil e a matrícula na escola. Eu estava muito excitado com as novidades. Papai estava exultante, e os dois conversavam e riam muito na sacada. Minha mãe e a esposa do Irmão Juxis arrumavam os pratos para o jantar. O aroma do assado já havia preenchido toda a casa. Além disso, eu lembro de o professor ter trazido com ele uma valise de couro marrom, que parecia muito pesada. Eu e meu futuro seríamos o assunto daquela noite. Até a hora do vinho, que é servido depois do jantar, ninguém tinha falado diretamente comigo.

A valise estava fechada apenas por botões grandes e prateados. Ela parecia muito grande. Não conseguia imaginar o que poderia haver dentro dela apenas olhando-a daquele jeito, fechada. Os botões tinham um desenho bonito, e meus dedos percorreram as linhas finas, como se um gato houvesse feito aquelas ranhuras. Era um desenho sem nenhum significado para mim na época. Meus dedos passaram por cima e por baixo do botão. Vi meu reflexo, não exatamente como era o meu rosto, só um borrão loiro. Um dos botões abriu sozinho. Olhei em volta. Meu pai e o professor estavam em pé, olhando a rua. As mulheres voltavam para a cozinha. A mulher do Irmão Juxis era alta como ele, e usava uma roupa comprida. Não falava muito, mas era sorridente e parecia gostar muito dos meus pais e de mim. O outro botão abriu. Mas este fui eu quem abriu.

Dentro, havia livros. Na verdade, havia muitos livros. A biblioteca de papai caberia inteira dentro daquela pasta e ainda haveria espaço. Meu pai gostava muito de ler, e gostava de me ensinar a ler. Eu demorei a aprender. Não conseguia aprender.Gostava, mas tinha muita dificuldade. Para evitar as aulas com ele, eu argumentava que se eu podia dizer como é uma coisa, não era preciso escrever. As palavras têm sons lindos, eu dizia. Ele ria, e continuava tentando me ensinar. Aprendi o necessário. Mas só para poder ler as palavras em voz alta. Olhei os livros. Dava para ver apenas a lombada. Todos eram novos. Recendia um cheiro suave de tinta.

Percorri as lombadas com o indicador. Havia nomes impressos nelas, em baixo-relevo. Não sabia o que diziam. Meu pai havia ensinado-me várias, mas nenhuma daquelas. Não sei dizer se foi o cheiro gostoso da tinta ou o fato de eu estar desvendando o pequeno segredo daquela valise, mas fiquei tentado a saber que som aquelas palavras tinham. Olhei-as, uma a uma. A maioria dos livros tinha nomes longos, com várias palavras e pontinhos sobre as letras. Era divertido percorrê-las com a ponta do dedo. Os volumes estavam todos arrumadinhos, em ordem, com as palavras para o mesmo lado. Vi que havia mais embaixo dos primeiros, no fundo da mala. Tive esperança de encontrar alguma que eu soubesse como falar. Minha mão mergulhou, em um espaço entre os livros e o couro. Havia só um livro, maior que os outros. Não ia conseguir vê-lo se não tirasse todos os outros, mas senti que não devia ir tão longe. Ouvi o som dos talheres sobre a mesa de mármore. Fechei a mala o mais rápido que pude. Minha mãe já vinha na minha direção para me lavar e me deixar apresentável no jantar. Detestava isso nela. Ela nunca me chamava, e eu podia me esconder o melhor que podia, que ela sempre me encontrava. Não falou nada sobre a valise ou os livros. Acho que a intuição dela em relação a mim era só geográfica.

O jantar estava bom, e me lembro de o gosto estar tão bom quanto o cheiro. Uma vez eu provei vinho escondido. Não gostei, porque o gosto não é tão agradável quanto o cheiro. Comi o necessário para minha mãe não olhar com aquela cara, apesar de que a ave estava deliciosa. Só comíamos assado nos feriados mais importantes ou nos aniversários, como era a ocasião. Não consegui prestar atenção ao que os adultos falavam. Pensava no livro grande, e na escola, e na festa do oitavo sacramento.

Na hora do vinho, sentei com os homens na sacada. Irmão Juxis conversou comigo. Ele era enorme, bem maior que meu pai. Eu achava sua cara curiosa. Meus pais diziam que ele era amável. Eu só o achava grande. “Você vai gostar muito da escola”, disse ele mais de uma vez. Eu tentei ser amável, mesmo sem saber o que era isso. Sorri bastante, como ele. Depois, os adultos começaram a conversar entre eles outra vez. Fiz menção de levantar, mas minha mãe me olhou com aquela cara. Fiquei ali o resto da noite. Acabei dormindo sentado.

Acordei no meio da noite. Já estava na minha cama, e só ouvia o barulho do mar. Levantei e fui até a sala, até a sacada. Não havia mais ninguém. Estava bem claro porque era lua cheia. Olhei para o canto da sala, mas tive ir até lá para ter certeza. A valise estava ali. Mudaram-na de lugar, mas estava na minha casa. O professor a esquecera, ou a deixara de propósito, talvez. Minha aventura ia continuar. Eu estava só. Bastava ser silencioso, para não ser incomodado. E foi o que eu fiz. Tirei os livros da valise, os de cima, um por um e deixei-os no chão. No fundo, lá estava o livro grande. Em instantes estava sentado na cadeira de meu pai na sacada. Sobre minhas coxas, o livro.

A capa era de couro tingido de azul. Abri-o e comecei a folheá-lo, lentamente. Olhei as palavras, muitas delas, mas só consegui reconhecer o nome da capital, “Avvena”, e a palavra “Montanha”. Pareceu bem pouco interessante a princípio. Porém, logo nas primeiras páginas, uma surpresa. Uma figura que ocupava uma página inteira.

Era um desenho de uma pessoa sem roupa. Era como um homem adulto, mas diferente. Eu sabia como eram os adultos sem roupa. Na Consagração, vi meus pais sem roupa no templo, e sabia que homens e mulheres adultos tinham pêlos. A pessoa do livro não. Apenas na cabeça e nas sobrancelhas, como uma criança. Mas o corpo era de adulto.

Virei a página. E outra. E mais outra, procurando de outra figura. Encontrei uma em que havia aquela mesma pessoa e mais outra. Esse sim era um homem adulto. Estavam lado a lado. O homem adulto era bem mais alto, era mais peludo e mais musculoso. Achei o homem do desenho parecido com o Irmão Juxis.

Eu queria mais. Encontrei uma em que havia o desenho da cabeça daquela pessoa, de frente e de lado. Era maior e ocupava quase toda a folha. Nessa figura foi que notei os detalhes do seu rosto. Não pude deixar de perceber que essa pessoa era muito parecida com um homem, mas ao mesmo tempo, tinha uma coisa só sua que não podia identificar o que era. Olhei atentamente para a figura. O que chamou primeiro a minha atenção foram os olhos. Eram claros e grandes, mas não pude saber a cor. O nariz era bem curto e arrebitado, e na figura do rosto de lado isso era mais evidente. As orelhas eram ligeiramente pontudas para cima. O queixo era curto, e não quadrado como o do meu pai, nem protuberante como o do meu futuro professor. Aquele rosto me hipnotizou por alguns instantes. O desenho encarava-me. Parecia triste. Num lampejo, consegui associar aquele rosto a alguma coisa familiar. Não havia nada que eu pudesse comparar aquele rosto que não fosse com o de um gato.

Passei adiante. Muitas páginas escritas; e eu, não sabia ler. Já estava começando a ficar com sono, e a lua já estava bem em cima da minha casa. A sombra do telhado ia chegar na cadeira; eu não ia mais conseguir ver os desenhos. O último desenho que vi foi o de uma mão, esquerda. Era um desenho muito detalhado, e bonito. Os dedos eram finos e delicados. Como o resto do corpo, não tinham pêlos. O desenho era em tamanho natural, eu acredito. Olhei as palavras no texto ao lado do desenho. Deviam falar algo sobre ela. Senti-me tentado a tocá-la. Senti a textura do papel ligeiramente áspero. Era pouquíssima coisa maior que a minha. As juntas dos ossos de meus dedos de sete anos eram um pouco mais grossas que os daquele desenho. Coloquei minha mão direita sobre a página.

É interessante a gente pensar como algumas imagens ficam gravadas na memória, mesmo que para outras memórias só tenhamos uma descrição que nós mesmos fazemos delas. Essa cena ficou na minha mente como uma fotografia. A luz diminuiu depois que a sombra da casa chegou até os balaústres da sacada. Eu fecho meus olhos hoje e vejo essa cena. Nitidamente meus joelhos apontando acima da capa do livro aberto. Vejo-o aberto no meu colo, e vejo duas mãos sobre ele. Está um tanto escuro, mas é possível ver os contornos. Vejo duas mãos contra a página branca. Parecem minhas duas mãos, como parecem duas mãos desenhadas. Não consigo ver nenhuma diferença entre elas.

Eu fechei o livro e voltei para a sala de estar. Estava indo devolvê-lo ao seu lugar quando levei um susto enorme. A luz acendeu de repente. Vi minha mãe parada, em pé ao meu lado. Tremi de cima a baixo. Estranhei, porque ela não estava com aquela cara. Ela abaixou-se perto de mim, e me olhou nos olhos. Fiquei com vergonha porque achei que estava fazendo algo errado. Estava começando a ficar com a garganta seca e os olhos a arder, pronto para chorar. Ela ergueu meu queixo com a mão. “São seus”, disse ela. Fiquei estarrecido, e não falei nada. “Irmão Juxis trouxe para você usar na escola ano que vem”. Não sabia se ria ou se continuava o choro que estava engasgado, então fiz as duas coisas.

Colocamos os livros de volta na valise. Não foi na mesma ordem, mas apenas para não tirarem a ordem da sala. Acabei colocando o livro grande de capa azul por cima dos outros. Pela primeira vez percebi que havia um título. Uma palavra apenas, escrita bem no meio da face do livro. Era uma palavra que eu também não conhecia, mas era curta, fácil de lembrar seu som. Perguntei a ela como dizia aquilo. Não entendi o motivo de ela demorar a responder. Eu sabia que ela era alfabetizada como meu pai. Insisti. Ela acomodou-o e fechou a valise. Insisti outra vez. Ela respondeu sem olhar para mim. “Fæ. É esse o nome do livro, e é sobre isso que ele fala. Sobre os fæ”.

 No dia seguinte, aquele livro não estava mais na mala junto com os outros. Nem no dia seguinte, nem no mês seguinte. Não questionei minha mãe sobre isso, porque não se questionam as atitudes maternas. Acredito que ela deve tê-lo devolvido ao Irmão Juxis, mesmo que eu fosse conhecer o assunto de uma forma ou de outra na escola. Acho que hoje entendo o que aquilo significou para minha mãe, e entendo que ela adiasse o quanto possível minha curiosidade sobre os fæ.

Hoje eu já sei o som das palavras. Não de todas elas, mas posso apostar que sei uma ou duas a mais que meu pai ou até meu velho professor. E montei minha própria biblioteca.
Volmar Camargo Junior
Enviado por Volmar Camargo Junior em 01/12/2007
Reeditado em 01/12/2007
Código do texto: T760897

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Sobre o autor
Volmar Camargo Junior
Canela - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
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Volmar Camargo Junior